domingo, 11 de setembro de 2016

JORGE JARDIM - excertos de 'Quinto Império', de Dominique de Roux

Jorge Jardim, por seu lado, fazia intrigas para suplantar o poder de Kaúlza de Arriaga. Ao tempo que em Moçambique este homem de negócios se metia em tudo e mais alguma coisa com a mesma autoridade! 

Julgava-se um Lawrence da Arábia quando, cantonado nas suas trinta por uma linha, não passava dum brincalhão, cujas passeatas à mão armada custavam milhões ao gabinete negro de Lisboa. Sempre um erro mandar antes de tempo os gaiatos à sua vida, longe dos tabefes! Cara chapada de Humphrey Bogart, de cigarro no bico, o jornalista que faz a história, proprietário do jornal da Beira, precisamente graças aos fundos secretos, o «menino querido de Salazar» conseguira sempre tudo do mestre que, petrificado no poder, lhe permitira estabelecer a sua reputação com base na fraude, engolindo-lhe as patranhas com a inocência da idade de ouro. 

Era visto em 1960 no Congo, durante a guerra civil, rocambolescamente salvo de uma horda de balubas que o tinha, dizia ele, encostado à parede. 1961, Angola. 1962, encarregado de uma missão ultra-secreta, plantador de chá em Goa recuperada pelas forças indianas. Todo este estratagema para a explosão de um petardo, no Palácio de Hidalcão. Aproveitando-se do pânico, despregara então e trouxera para Lisboa o retrato do último vice-rei das Índias portuguesas. Alcunhado o «Correio do Czar». 

Muito chegado, a partir de 1963, ao presidente Banda, Malávi, de quem se torna o factótum; honroso cônsul (mais o passaporte), organiza perto de Blantyre um antro, plantações de chá, legumes. 

E em 1965, prosseguindo a sua ascensão de senhor do puzzle internacional, trava, cm nome de Salazar, conversações secretas com Ian Smith que acaba de proclamar a independência da Rodésia. Presidente da Zâmbia, Kaúnda recebe o nosso Arlequim à sua mesa e Nyerere da Tanzânia resolve-lhe umas questõezitas. 

Mas é em casa, em Moçambique, onde António Champalimaud lhe permite comprar o Diário de Moçambique, que Jorge Jardim vai desenvolver a sua própria organização, feito exorcista vice-governador de um país onde os brancos vivem à sombra da bananeira. 

Temos que reconhecer à sua natureza perspicaz o ter visto, ao mesmo tempo que a Frelimo, a necessidade da independência de Moçambique. Não parará de espicaçar Lisboa para a africanização do exército como dos quadros civis. Em Kaúlza de Arriaga, o último governador militar, vai encontrar alguém aberto à sua solução política. Ia também poder fazer valer-se dum modo extraordinário. Ladrões de feira — uma só finalidade, melhorar as coisas. Conspirador nato, representava-o até à caricatura, Don Juan por acréscimo, manipulando as amantes que engodavam os oficiais. Desconfiado, todavia, preferia recorrer aos próprios filhos. Tivera a felicidade de ter doze filhas, todas encantadoras. Saltavam de paraquedas, disparavam de metralhadora, mas nunca faziam concessões. 

Com os seus métodos, Jorge Jardim acreditava em Moçambique, sociedade sem classes, multirracial. 

— Talvez você não pense assim, ouça... Pusera-se a contar-nos a sua viagem à Tanzânia, e de que maneira! Kaúlza tinha-me avisado: sempre que Jardim falava das suas façanhas, entrava na mentira integral, aldrabices pegadas, no meio de verdades inofensivas, satisfazendo com fleuma os prazeres do super-homem que se julgava. 

As mais ambiciosas operações de Wingate não eram nada comparadas com as que ele contava diante de Orlando, antigo caçador de elefantes, o «general» dos seus macuas. Começava por plantar um cenário: mato com rios infestados de jacarés. Nunca mais se havia de esquecer daquilo... As horas desfiavam-se entrelaçadas de ramos, de crocodilos e de palhaçadas. Depois, com a mesma desenvoltura, garantia que colhia os comissários políticos da Frelimo nas suas aldeias como quem colhe malmequeres. Donde o diálogo: 

— Bom. dia, senhor Mupia!
— Por onde vieste tu? 
— Pelo Norte, Mupia! 
— Quem te ajudou a atravessar o rio, Jardim do diabo! 
— Está na hora de nos acompanhares a casa dos nossos amigos, em Zomba!

Isto podia durar horas. Nesse dia, Kaúlza já não escutava. Parecia ver, no extremo da piscina do Hotel Palma, deslizar os petroleiros ora com o céu, ora com o mar, vagas enormes. Era Lourenço Marques, a hora do chá, as suas sul-africanas bem patriotas, a jogar bowling à sombra e os criados cor de kiwi, de farda cor-de-rosa abotoada até acima, levando as bandejas do chá. Uma perfeita maçada de cidade de província, de África inglesa, menos avançada que Luanda. 

Desde o fracasso de Nó Górdio, Jardim acentuava a depressão de Kaúlza. O general tinha momentos de ausência que davam uma ideia do que se passava dentro dele. Como tornar a ganhar a batalha? Jardim começou a informá-lo das últimas notícias: a degradação da situação militar em Tete, os ataques às plantações em volta de Villa Péry, a estrada de Changara minada, Quelimane ameaçada, e a Beira para quando? Levava o cinismo ao ponto de citar o próprio general (ao menos Tito Lívio atribuía a Aníbal discursos que ele nunca pronunciara) : 

«A África austral tem que se preparar para uma guerra tradicional se queremos evitar o avanço comunista no sector fundamental do continente. Querem os chineses ir até Joanesburgo?» — O Senhor General faz a pergunta, eu tenho os meios para lhe responder, os meus Flechas. Os meus homens podem formar, de Tete ao lago Niassa, a linha Kaúlza, etnia contra etnia; os meus macuas contra os macondes da Frelimo. O Senhor General não está com certeza à espera que eles cheguem ao rio Save para os travar. 

Não tinha o seu Orlando Cristina o hábito de se ocupar da guerrilha com um à-vontade maravilhoso? Ao contrário do Português, o Macua é da terra, conhece a floresta, os dialectos, é capaz de caminhar durante meses. Para quê? A pergunta não seria posta. Kaúlza olhava para ele, ao mesmo tempo blasé e perplexo, como se o outro já só fosse aparência, desenrolando palavras previsíveis e pedestres. Mas nada tinha importância. Para suportarem a ansiedade portuguesa, teriam tido que beber juntos. Quando surge a angústia, as relações com o outro mudam. Já não sabemos o que temos à nossa frente, já nada leva a consequências. 

Jardim procurava levar vantagem neste fundo de uma actualidade sombria: Criemos a fatiga na zona de Tete. E mais fatiga, Senhor General. Só uma lassidão nos há-de tornar a trazer as populações que nos contentamos em evocar. Os velhos nas aldeias têm que poder dizer: «Bem dizia eu, não chegamos a nada.» E as mulheres: «Quem vai dar leite aos nossos filhos?» Então hão-de levá-lo às nuvens. 

— E então, Jorge, onde quer chegar? Passavam pela cabeça do general ideias que não conseguia agarrar, enquanto as que trotavam na de Jardim eram encenadas, galvanizadas, exigências e contra-exigências. Kaúlza retomara a sua atitude generalissista, nestas alturas em que, fazendo as ilusões as vezes de vitórias, temos quase a certeza de viver duzentos anos: 

— O nosso objectivo é conduzir progressivamente Moçambique a um nacionalismo que não seja contra Portugal. A batalha de Cabora-Bassa está ganha. Dentro de alguns meses, a inundação da barragem formará um lago artificial de 250 km ao longo da fronteira tanzaniana, tornando as infiltrações impossíveis. Em vez de fuzileiros, três barcos! A Frelimo não terá outro remédio senão deixar-se apanhar à entrada do corredor do Zambeze. Aí, Jardim, vamos precisar da sua organização para lhes administrarmos a tareia. Ao observá-los, ao ouvi-los, ao general e ao seu anfitrião, eu sentia que não andava um sem o outro, incapazes de encontrarem neles mesmos a capacidade selvagem e física de se imporem. 

Bonaparte preparava o seu poder quando esmagava os realistas nos degraus de Saint Roch. Um conquistador, não é um promovido pela antiguidade e pelos concursos; Filipe Pétain não teve ânimo para ir a Argel em 1942, Kaúlza para mandar a barraca aos ares em 1973. O poder exige uma alma de Al Capone, sem rei nem lei. 

Mas Jorge Jardim, a sua extravagante sombra negra, entre o napalm e o amor, era apesar de tudo homem para escolher: mais vale uma pega que a Longa Marcha. Que podiam esperar um do outro? A agitação de Jardim não valia o dinheiro que lhe era entregue e a fraqueza de Kaúlza: a escola de guerra, a caixa de areia. 

Jorge Jardim contava com os seus fiéis, os Murupas, os Aroucas. Kaúlza, ele, com um «Grande Exército» luso-sul-africano-rodesiano sob o seu comando. O major-general Peter Shaw sob as suas ordens, e o general Pretorius. 

— Porque... Interrompido por Kaúlza, Jardim preferira bater em retirada, habituado nestas circunstâncias a agir à sombra do Estado. 

À nossa volta, enredava-se, tagarelava-se, sul-africanas a bronzearem-se, burguesia branca, os portugueses, brancos daqueles que os negros de Livingstone julgavam cosidos dentro de sacos por causa do seu ar de múmias. Os canibais do Zambeze ameaçavam assim os filhos: «Se não te portas bem, chamo o Branco que te morde.» 

E tankers, assim, sem parar, rodas de proa, estendidos no mar liso. Kaúlza e Jardim tinham pois realizado muitos esforços pelo bem de Moçambique. O bom rei chefe é aquele que ama, que protege as crianças, que usa a força, o coração e a cabeça para os fazer todos contentes. O general, um-que-tem-um-boné, que isso quer dizer que é o chefe, o que manda. Os que mandam, há-os maus e os-que-fazem-esforços-para-serem-bons... 

Jardim acabava de escrever no meu guardanapo de papel, nas barbas do general: «O mais depressa possível», querendo dizer-me que me queria ver a sós. E para não deixar transparecer nada, pusera-se a prolongar a conversa por gosto. Bastou ouvir com que cinismo concluiu: «Ouça, Kaúlza, não nos vamos sempre deixar tramar!» 

No terraço, Jorge Jardim que, fora o mato, tinha horror ao contacto com o solo, parecia um corsário, camisa aberta e, ao pescoço, electroblitz antimosquitos, ultra-sons. Não tinha, como Arriaga, ambições portuguesas. O velho continente já não o interessava. Estava-se nas tintas para os bascos, os íbero-ligures e tudo o que fala debaixo dos dólmens. Intermitentemente, na noite, acendia-se numa rampa: Casino. 

Cigarro no bico, ele precisava que: — Ninguém podia contar com o exército; — O seu objectivo: apressar a independência de Moçambique, em relação com a Frelimo do interior contra a do exterior. Kaúlza? «Mais um que se julga instalado numa obra, o romance que começa e depois acaba. E teimoso como uma mula. Ter ideias gerais, mais vale não ter nenhuma.» 

Tinha-se posto a remontar o rosário das três gerações da Frelimo. 
— Não é? Tudo tinha começado, não é? Está a ver?... Era inquietante, apanhado no remoinho dos não é? e dos está a ver? Estava no meio termo entre o psicopata e o duplo de Bogart no papel de Orde Charles Wingate. Mas Jorge Jardim ensinava-me ao menos que o que conta, não é tanto o ter razão como o demonstrar na prática que se está na verdade. 

(continua...)

EM MOÇAMBIQUE COM KAÚLZA - excertos do 'Quinto Império', de Dominique de Roux

(...) Colonização belga, a pior. Inglesa, a mais ignóbil; portuguesa, perdura; francesa, cerca de meio século; a escumalha desemboca no fim em ideias, que «o chefe da aldeia pode muito bem ter mobílias Luís XVI». Enfim, como criar fronteiras entre as necessidades tribais, a poligamia e o desinteresse pelo dinheiro? Em África, não se rouba, tira-se. Noutro sítio, ter-se-ia tido «Titi Aramco». Justificações ociosas; o ódio dos guarda-livros ultrapassa de longe, em África, o dos colonos.

Todos nós nos calamos, o general Kaúlza de Arriaga, a mulher e o coronel Dionísio, de pé, monumental. Pela janela, podia-se observar o movimento das hélices do mais abstracto ao mais concreto. A atmosfera tremia com uma luz lúgubre de cúmulo-nimbos, que bem se podiam desenvolver em altura a altitudes de 15 km, grandes massas de cargas negativas que na época de Cristóvão Colombo se chamavam «fogos-de-santelmo». Nós não dispomos dos elementos que surgem no Eu, escrevia Mach. Nem eu, dos raios que caíam no avião deformado pelas faíscas. 

Tínhamos deixado Lourenço Marques por ordem do general, apesar da proibição da torre de controle, por se formar uma tempestade em terra com as suas descargas eléctricas. As asperezas do zinco crepitavam, prova de que o campo eléctrico começava a crescer. Mas, a quatro horas dali, no planalto Macondes, a operação Nó Górdio, três mil homens, aguardava o seu estratego. 
(...)

Nenhuma explicação me fora ainda dada, eu só tinha o estatuto dum brinquedo de luxo, «o francesito do general». Kaúlza: «A Revolução, meu caro? Um transbordar de emoções, a gente da esquerda tem um gosto mórbido pela decadência e a desgraça. Deviam calar a boca. Evitavam-nos ter que matá-los. A ideologia, meu caro François, só dissolução...» 

Kaúlza, de camisa caqui e dragonas vermelhas com quatro estrelas, falava-me em frente das tropas africanas de boinas amarelas, grupos especiais; o coronel seguindo atrás, um Adamastor, o último recurso. Também Franco, antes da repressão das Astúrias, não tinha ambições. 

— A visão gaulliana das coisas, meu general... Eu murmurava, incomodado de trocar impressões nas barbas dos soldados em sentido ao calor, dois mil negros, máscaras dan, máscaras guros, recordações do bronze, as suas fardas negras, a cara dos oficiais brancos chamuscada de preto. 

Kaúlza: «No século XVIII, a Companhia das Índias dirigia a sua própria política, a par do poder régio. O jacobinismo do século XIX desmorona-se. Volta-se à política dos interesses reais. Que poder de controle têm ainda os Estados nacionais sobre os grupos internacionais?» 

Com um pé sempre à frente do outro, eu contava os hectómetros de «La garde meurt» e, o sol, sentia-o na nuca, intolerável. Kaúlza parecia Napoleão, e eu perguntava a mim mesmo se a guerra que ele tinha que travar não tinha um lado equívoco, mau aspecto. Esta guerra em Moçambique não tinha nem o parâmetro da guerrilha, nem o da guerra de posição. Antes uma mistura de guerra de movimento com um ar Crimeia, artilharia, cavalaria mais a terceira dimensão, a aviação. 

Qual era o estilo desta guerra? Israelita, americano, sul-africano, francês? E como era abastecido este exército? Arroz, ovos, toda a espécie de mistelas indizíveis, cozinha que se come com os dedos. E as reservas de nivaquina! Os comprimidos de hidroclorazona para a purificação da água, o Ganidan e o Diarsel contra diarreia e disenteria. Ao lado desta, a guerra da Guiné era familiar. 

Kaúlza parecia ainda Toukhatchevski: o boné chato, o rosto redondo e sensual. Mas se Toukhatchevski tinha sido fuzilado, o seu semelhante estafava-se a perseguir quimeras: por exemplo, que o seu exército, ali presente, alinhado, era o exército do povo. Ah! a engenhosidade e a sujice das palavras que queremos dizer sobre as pessoas com um ar de proprietário! Rostos de pau, estátuas baulés, pulsos com braceletes de contas mágicas, estas tropas de assalto querem combater, espingarda cruzada sobre o peito acima da formidável tenaz das coxas, o poder militar oposto ao poder de rebelião. 

Eu olho aqueles sólidos dentes brancos, e, ao lado do outro que fala comigo, caminhamos os dois como numa avenida. Eu penso em Lisboa, onde todos os séculos convivem com os judeus chegados a correr, a sete pés, dos seus quadriláteros da Boémia. 

E no planalto Macondes, entretanto, a Frelimo infiltrava-se na floresta. No seu xadrez, Kaúlza estava certo de ganhar, tendo posto todas as oportunidades do seu lado. Só tinha esquecido que os peões negros tinham um forte contra-jogo. Para ele, os nacionalistas eram boas pessoas, tão católicos, dizia ele, que lhe custava compreendê-los. Para mais, aquilo reclamava o sufrágio universal. Pelo contrário, os comunistas, uns chatos: uma só saída, liquidá-los. Tinha montado Nó Górdio como uma nassa. A história ignora os planos demasiado esmerados. 

Kaúlza de Arriaga recusava a política de Lisboa, a política deles, estimando que um novo equilíbrio mundial passava pela Africa austral, objectivo bem identificado e manipulado pelos serviços de «agit-prop» soviéticos que fomentavam os movimentos de libertação. Consequentemente, tinha que responder às três forças revolucionárias da época, socialismo, movimento da classe operária internacional, combatentes da Liberdade, com a criação do triângulo de ferro «Pretória-Brasília-Lisboa», apoiado nas riquezas de Angola, lugar geométrico da mestiçagem; e na esplanada do Sudoeste africano, último espaço alemão do planeta. 

Também o general era um civil que queria intensificar a guerra para obrigar o inimigo a negociar. Se tinha pedido a chefia do comando em Moçambique, enquanto poderia ter obtido um ministério, era porque um sucesso militar português em Moçambique era capital, não só para o seu país, mas também para o conjunto da Africa austral, o Ocidente. Tinha contra ele uma rede de ideias feitas, o preconceito dos surdos-mudos que Lenine recomendava que fossem tratados como tal, a dominação de uma burguesia-compradora embrutecida e que, desde Caetano, já não podia viver como dantes. Portugal: esta França que, na Quarta República, se reunia em casa de Lazareff, Assembleia Nacional miniatura e sem aberturas de um poder anão. 

Se Kaúlza não era extra-lúcido, tinha ao menos diagnosticado o mal. «Nós beneficiamos, nós, em Portugal, de uma suspensão da fatalidade, de uma caridade do destino, repetia ele. Ganhemos tempo.» Teria sido preciso imediatamente distribuir as terras em Moçambique, acabar com o lobby do algodão, ir contra as imposições opressivas de algumas famílias, enquadrar as massas para as educar. Impossível com o clima, o espaço, os hábitos, a inércia, o feitiço do colonialismo. Cada dia era remetido para o dia seguinte. E, vista de Lisboa, a guerra não era assim tão má, uma maneira de ocupar o exército, de lhe tirar toda a espécie de veleidades conspiradoras. 

Desde a última guerra, a informação multiplicou-se, cada um de nós sabe tanto como o príncipe. O imprevisível, os «zacasos», dizia-me Kaúlza endireitando, ao passar na frente das tropas, algumas espingardas inclinadas demais. Galbraith, 1960, tinha sucedido a Burnham, 1948, com a sua teoria das moedas manipuláveis. François Perroux, era em 1950 Rueff, um economista fantasma ainda a descobrir Stuart Mill. Mas os governos continuando keynésianos, vacas magras, vacas gordas, comprometiam o futuro da economia liberal, mercados e noção de ganhos, enquanto a nova motivação, o poder, exige uma economia dirigida, restrições e militantes. 

Quando as pessoas têm fome, tornam-se fascistas. O mundo cada vez mais fascista. A Europa é incapaz de reagir quando inflações e recessões andam a par. A escola de Chicago capota e a escola de Yale descarrila. O poder de dissuasão absoluto é a bomba atómica, mais o trigo. Um único problema para o mundo: a nutrição. Portugal continuava pois a depender da antiga ordem das coisas. O seu corpo politico todo de hesitações e de dúvidas, a sua burguesia tanto mais bem intencionada quanto mais estranha à sua época, os seus nobres da província à beira do declínio e ricos por não pagarem as dívidas, julgavam impossível a ameaça de uma multidão. A emigração massiva e o alistamento desarmavam toda a veleidade de organização revolucionária. A Internacional parava doravante nos Pirinéus. 

Em compensação, confiavam na sua polícia, que enchia as suas fichas ao mesmo tempo que as colónias penitenciárias de Caxias e de Cabo Verde. Quando um Estado é desonesto, os cidadãos são desonestos. No entanto, imperceptivelmente, o regime desconjuntava-se. Caetano, tendo cedido às exigências dos ultras e já não compreendendo as informações que lhe traziam, chegava a fazer exactamente o contrário do que tinha em mente ao princípio. 

A oposição, rejeitada para a clandestinidade, enterrava cada dia mais fundo a sua cunha no poder. À superfície, o clã dos Europeus, tecnocratas que se arvoravam de doutrina no Expresso, diziam uma coisa à «esquerda», que repetia outra. Mas, nas profundezas, especialista do anonimato e da insignificância, o Partido Comunista avançava a passo de lobo. Num Moçambique ameaçado, Kaúlza de Arriaga era a última hipótese dos conservadores. Tudo dependia do Nó Górdio.
Kaúlza tinha razão. Era obrigado a escolher: exactamente, matar ou ser morto. Cometer menos erros que o adversário. 

Limitado pela África do Sul, a Rodésia, a Zâmbia, o Malávi e a Tanzânia, Moçambique tem uma área de 785 000 km2. O Zambeze... O Zambeze dez mil vezes atravessado. Ele estava lindo, o outro, Dominique de Roux, com o seu «Ne traversez pas le Zambêze». De Roux coitado, ter-lhe-ão feito atravessar cem vezes o Rubicão! O calor engolfava-me no mundo das origens, a África elefantesca das cozeduras lentas e secas. Lá, o símbolo é a realidade, e os babuínos têm naturalmente a sua corte entre as abelhas. Quem quer ser o chefe tem que imitar o crocodilo. 


Kaúlza detestava o conformismo. Portanto não gostava muito do exército, sem por isso se parecer com Wingate, o especialista na Birmânia dos combates pouco ortodoxos. Kaúlza não era Wingate, mas um general a contra-corrente e sobretudo, a contra-Spínola. Nascido tarde demais para ser Napoleão, já não tinha a exaltação do génio adolescente, mas era napoleónico pelo amor à aventura. Além disso, um teórico dos conjuntos. Implicava as intenções chinesas na sua política. Só os chineses tinham conservado o seu imperador e levantado uma muralha entre ele e o Terceiro Mundo. Até aí, Kaúlza preferira reagir a agir, mas desta vez, cortaria o «nó górdio». Lentamente, no mapa-mundo, mostrava-me a África, o Oceano Indico e as índias, a China, Portugal, outra vez a África, e, em baixo, a última Africa branca, Alba Ultima. 

Caminhar, caminhar, tinha-se prometido aos soldados, e até Dar-Es-Salam, a beira-mar. O mar era a sua única visão política e social do mundo, mas, precisamente, o seu chefe, desguarnecendo o flanco sul, não tinha subestimado a importância estratégica do corredor do Zambeze? 

Custava-me habituar a esta situação extravagante dum comandante-chefe que desdramatizava a guerra a ponto de levar a mulher, de vestido de Verão, sentada ao meu lado, no banco de trás do jeep. Ela tinha os olhos negros das trigueiras, das mulheres de pele morena, beleza que menos cansa, porque a mais maternal. Tinha feito questão de assistir à invasão do planalto Macondes; nada mais que uma distracção para ela, simples devaneio na imensidão. O colonialismo, esse, apropria-se das coisas: a minha cana d'açúcar, o meu cobre, os meus diamantes... Eu bem queria morrer dum obus, não dos insectos!... Por causa desta elegância de mulher ainda citadina, eu gostaria de surpreendê-la um dia, também ela entregue a prazeres solitários, um longo fio de azeite sobre o peixe escalfado... 

Nem mais uma palavra trocada entre mim e Kaúlza senão olhares, suspiros. Ele caça as moscas no rosto alagado. Ela, tisnada, tipo Evita Péron, estafada. Que poderíamos ter dito um ao outro? Desde há oito dias, não tínhamos encontrado ninguém. Nem a mais pequena escaramuça, nada. O meu cepticismo perguntava se iríamos encontrá-la, à Frelimo, de sapatos de lona, bazuca e mochila de funge, a pasta de mandioca, uma bola por dia. Uma lassidão instalava-se à medida que se fechavam atrás de nós os aléns estranhos e todos os seus gritos agudos de fauna monótona. À noite, três mil homens, sacos no chão, deitavam-se na terra à volta de uma mancheia de feijões, as sentinelas vigiando os limites a não transpor, o nosso jeep no seio do dispositivo de volume fluido. 

Kaúlza tinha a sua ideia na cabeça — um cérebro ainda arcaico: uma mania, a linha recta. Sempre o imperador! Nós éramos uns pobres trastes confundidos debaixo da poeira da laterite. Kaúlza, sentado de pernas cruzadas diante da fogueira do acampamento, atiça a brasa. Pediu-me que partilhasse o cobertor com ele. Acrescentou: «Eles hão--de acabar por se deixar apanhar!» Explica-me que é anticomunista porque «os comunistas querem gozar os bens deste mundo sem serem responsáveis» e que «intelectualmente, são reaccionários». Eles hão-de acabar por se deixar apanhar: estaria a falar da Frelimo? O marxismo fica, talvez, a filosofia da conquista do poder, mas que fazer com ele no meio do tumulto dos insectos, do seu trépano, sapos-búfalos, a floresta-gargalhada? 

Kaúlza insistia: Moçambique está controlado, bem controlado... Justificava-se, repetia-se. Com o seu exército que se esticava do istmo de Tete a Cabo Delgado, obrigaria a Frelimo a tornar a passar a fronteira tanzaniana. Os vagarosos cairiam na rede. O corpo expedicionário estava lá, grupos especiais, infantaria ligeira, marinha nacional, milícias e cerveja em lata e a telefonia. Não queria constatar que os seus soldados estavam fartos. E naquele mesmo momento eles ressonavam. 

Outra vez o imperador! A contra-guerrilha, prosseguia ele, nada fácil! Dois aspectos: um militar, o outro social. De um lado, apanhar e destruir; do outro, garantir a segurança, construir, educar. A estratégia terrorista é rudimentar: o lança-roquetes e a mina. Nós cá temos a G 3, mas também, para o progresso, a barragem de Cabora-Bassa. 

E punha-se a falar-me do planalto Macondes. Macondes a Noroeste e macuas ao Norte, changanes ao Sul e manicas ao centro: todas tribos rivais, que ele ia manipular como já o Molimo, uma organização fantasma pretensamente antiportuguesa e este Coremo formado em Lusaca pelos dissidentes da Frelimo, pró-chinês, dirigido por Paulo Gumane... Alongava-se sobre o planalto Macondes e sobre a sua ofensiva exemplar como se isto se passasse na Lua. «Batalha decisiva para a África austral, e a batalha começou.» O imperador! Nó Górdío. Le noeud gordien* e Pompidou morria. *Título do último livro de G. Pompidou. (N. da T.) 

Eu concordava. Tinha-me tornado fatalista. A milhares de quilómetros de Lourenço Marques, a única solução era seguir o movimento. O cheiro da África emanava de toda a parte, um odor de folhas da terra inteira, o do império em decomposição que a guerrilha tasquinhava há dez anos, agora presente em Manica-e-Sofala, em Vila Péry, no parque da Gorongosa, até nos subúrbios da Beira na margem do Oceano Indico. Kaúlza, receava eu, sonhava. Não podia satisfazer-se com o exército português. No fundo, morria por não comandar forças mecanizadas, helicópteros, panzers, canhões motorizados. E nós, nós traímo-nos a quilómetros na ronda, carregados como mulas, incapazes de reagir, avançando em magotes. 

Simba! O leão! O rugido do leão a rondar! Símbolo do Sol, sinal pintado nos escudos, o leão em pé anulava com um rugido o círculo das decadências mercantis. Anunciava o desmoronar do Império português e o acordar do continente negro. Eu compreendia, a África só pertencia aos negros. Há acontecimentos que são anunciados por sinais. Kaúlza julgava-se rei em Moçambique, mas a presença inopinada do leão, a grande voz ressuscitada do império do Monomotapa devia ao menos ter-lhe lembrado que a luta só é possível no presente mitificado. Apenas marxistas e nazis crêem na solução final. 

Agora, eu sabia que Kaúlza não passava dum faquir que inventava truques com os dedos. Parecido com Toukhatchevski, o último respiro da cartada germano-sueca no coração do Exército Vermelho, Arriaga prolongava a casta dos que perdem. Misteriosamente, o rugido do leão fez-me pensar em Luís XVI. Kaúlza tinha-se apresentado na história um pouco como Luís XVI, diante duma Maria Antonieta cheia de seiva nova, e sonhando com o amor, dizendo-lhe o gordo que «a amava mais tarde». 

O leão, a força das coisas, impunha-se mais uma vez. O rugido recomeçava incessantemente, modulando o tema do primeiro português massacrado em Moçambique, esse franciscano decapitado em 1961 pela Frelimo nos degraus da sua igreja. Vingaria este assassínio a invasão portuguesa desencadeada por outros assassínios perpetrados quatrocentos anos antes? E o de um outro padre na corte do imperador de Monomotapa? Aquilo tornava a pôr-se em marcha em direcção ao fim da história: batedores, fuzileiros, granadeiros, no meio do estalido, alguns artilheiros com o morteiro pesado nos ombros. 

Kaúlza: «A Frelimo tem que estar nalgum sítio... Eu queria mostrar-lhe um morto, François... Os negros no instante da morte têm o terror dum gato... Hão-de acabar por se deixar apanhar... A arte da contra-guerrilha, é a impossibilidade de apanhar ao mesmo tempo dez moscas com os dez dedos. Já experimentou ?» 

Ele queria fazer-me falar, ora eu estava ali para não dizer nada. Apenas : — Talvez o meu general pudesse sugerir aos terroristas que se rendessem... o mecanismo humano... Detonações e explosões fizeram-nos calar. Eu sentia o cheiro da pólvora. Pertinho, rajadas, apelos e cavalgadas nas queimadas. Kaúlza saboreava como entendido as explicações que lhe dava a ordenança. Acabavam de apanhar um! 

O Frelimo jazia nu de costas, despido pelo sopro do morteiro. Envolto na sua pele negra, Espártaco com a boca cheia de terra. A cabeça crespa trazia o golpe na testa. Compreende-se porque exprimem os animais arpoados tanto pavor no olhar. E o silêncio obsessivo daquele rosto inteiro à medida que o tempo passava, uma morte autónoma, a sua palavra confundida com o fogo. O ventre rebentado pelo metal tinha deixado escapar as entranhas, vindas dar na espuma rasa do púbis, contra o sexo erecto. À volta, nós parecíamos bonecos de assoprar. Um homem entesado! Marcava a nossa derrota. 

Só temos uma vida e isto dói, sobretudo isto. Isto dói! Reflexão dum soldado africano, um dos que se tinham juntado diante deste enorme corpo. Um outro, destapando com o polegar uma garrafa de cerveja, tinha-se posto a beber pelo gargalo, com a cara virada para o céu. Kaúlza, por detrás dos binóculos, inspeccionava a floresta. Diante, atrás de nós, geografia de Ptolomeu, a Terra, chata. Já ninguém para matar, já nada para destruir, nem mesmo a possibilidade de dar cabo duma palhota. Nada, excepto uma batalha que não tinha tido lugar. Irrisão! Kaúlza: «Soldados, não amoleçamos. Nós aniquilaremos o inimigo no sítio e da maneira que melhor nos convier.» 
Ela, a generala, tinha-se aproximado: — Isto faz muito efeito, François, um homem assim... que... é isto a potência, o mundo às avessas. 

(continua)

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

O que aconteceu naquela noite no Angoche? Quem são os responsáveis pelo desaparecimento da tripulação?

Há 45 anos, na noite de 23 de Abril, estes homens e outros 15 desapareceram, para sempre. Até hoje não há rasto, vivos ou mortos, ou quantos dias duraram e onde. Porque recaiu sobre eles esata 'operação secreta' que ninguém assume. E ninguém assumiu, ou assume, porquê?
Temos que 'recolher os búzios' e voltar a lançá-los, e reinterpretar tudo... tem havido muita areia no ar, gente há décadas a manipular, a fazer-nos olhar na direcção errada. Vamos lançar outra vez os búzios, e abrir bem os olhos, olhar para ver!
Então, talvez tudo se ajuste...

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

QUINTO IMPÉRIO (excertos) de Dominique de Roux. Após a Guiné e antes de Moçambique

EM LISBOA APÓS A GUINÉ E ANTES DE MOÇAMBIQUE


Lá estavam as fontes Wallace, os cisnes nos lagos da Avenida da Liberdade e o Avenida Palace, os dois ascensoristas de rabos-de-grilo, um que fala do tempo, o outro que não diz nada. A ficção dos anos 20 referia o Avenida Palace e os seus crimes extraordinários. Este hotel era para mim a solidão e, pela primeira vez, uma casa, criados, a mesa posta a horas fixas. 

— Donde surge você? Liebig acabava de fazer a sua aparição, os pés em estribos de alumínio, empurrado por um paquete de olhos de veludo. Nos aeródromos há cadeirinhas por toda a parte para satisfazer as constantes necessidades. A espécie já não anda, condenada a longo termo a já não se ter nas pernas: depressivos, paraplégicos, drogados. — Enfim, donde surge você? 
Ele vinha em má hora. Eu dissimulava a minha irritação, tinha vontade de o dobrar em dois e o arrumar a um canto. «Vai cantando, meu velho, do alto da tua caixa.» Apetecia-me estar tranquilo. Precisava das minhas recordações, de ver-me viver sem história, enfiado na espessura das paredes, sonhando com a Suíça e procurando rever Catarina de Ataíde, que me importava mais que apresentar-me para o relatório. Ele acabava por importunar-me. Eu não nascera para a política, não era o Sr. Sihanouk que gosta de Brasillach por causa do estilo. Eu nascera para o olhar... E em Bissau devia-se fazer fogo, em qualquer sítio, de madrugada. 

— Pois bem, François, conte lá. 

— Você deve saber mais que eu! Eu tomara um tom suficientemente desagradável. Eu sei varrer a minha testada. Era mais ou menos, também, o que diz Heidegger sobre outro assunto: «Deus». De repente: Spínola, Otelo, as minhas impressões? Spínola antes Pétain: a memória, mas sem o esquecimento, a pior. Uma criatura interessante, esse Otelo, irá onde o mandarem, atormentado pelas ambições dum artista, esboço de cesarzinho... Capaz de dizer asneiras em cinco línguas. 

— Então, quando? 

— Como, quando? 

— Você tem que partir amanhã para Lourenço Marques. Kaúlza de Arriaga, nosso comandante-chefe em Moçambique, está pronto para recebê-lo. Quando voltar, eu terei todos os elementos necessários para o golpe. 

E punha-se a insistir na minha viagem. Eu tinha que pôr-me a andar imediatamente. Todas estas viagens que ele organizava para compensar a sua paralisia! Felizmente, julgava-se o centro do mundo, só ele um Estado e, à falta de ministério, os bolsos cheios de bilhetes de avião. 

O que fez sobreviver Franco, Tito, Mao? O poder. O poder, sempre dado, nunca é completamente tomado. O poder apaga tudo, excepto ele mesmo, e no entanto o que é? Nada, é este o segredo. A política existe para os que não a fazem. Cuanto cuesta morir! Quanto custa morrer! Franco, que se julgava imortal, agonizava na bandeira do reino, tendo reposto no trono de Espanha um príncipe duplamente ilegítimo. Ignora-se quem é o verdadeiro pai de Afonso XII, Isabel II tendo sido violada pelo regente, casada com aquele Francisco de Assis, alcunhado «Paquita», que nunca foi capaz de se resolver a dormir com ela. 

Segundo Liebig, a decomposição do poder político em Portugal começa em Goa. Salazar teria devido.... Salazar isto, Salazar aquilo, Salazar despachando os seus ministros com cartões de visita: «Aconselho-o a ir descansar», inscrito a tinta preta com a sua letra miudinha. Liebig: «Goa, percebe? Gandhi e os seus gurcas, a marcha pacífica, as vacas atrás dos tanques. Na realidade as coisas nunca são tão simples. Tudo se sabe, mas ninguém sabe do que está a falar. Olhe, leia estes dossiers. Um segredo de Estado: conta-se logo! Aliás Lenine, explorador para seu proveito das mínimas mudanças de circunstância, o golpe de mestre dele foi inventar uma legitimidade pseudo-monárquica, a confiscação da política em proveito de uma minoria. O que é Moscovo ao princípio? Uma vilória rodeada de paliçadas contra os tártaros, que os moscovitas, ao longo dos anos, aumentaram sem cessar. 

A alternativa, conhece-a você: Spínola-Kaúlza. Você acercou-se do primeiro como no bilhar, pela tabela. Kaúlza, vá direito a ele, fale com clareza. Ele não janta à luz de velas, nos salões neutros. O tempo é pouco. Caetano não para de reflectir para nada, agitado, sem convicção; acabará por pregar estados de alma aos militares de carreira. Ora, você sabe, no fim dos regimes, quando uma sociedade morre, tudo vai ao ar e o recurso à legitimidade torna-se então um pis-aller. Eu tenho medo dos comunistas. Eles querem o desarmamento moral. Você conhece a expressão de Chadek: «Quando os militares se esquecem da espingarda em casa, são sempre batidos pelos civis.» 

Os generais de África são a nossa última oportunidade. Porque, digo-lhe eu, François, o caetanismo leva às zaragatas e às regressões de 1910, a Mendes Cabeçadas perguntando ao seu colega, general Gomes da Costa: «Que tal é esse Salazar? Você conhece-o?» Tinham-no mandado vir de Coimbra, unicamente recomendado por um oficial de artilharia, uma instituição de confiança.

Hoje não há projectos, mas ideias e a angústia permanente das ideias permanentes. Só os emigrantes têm projectos. Sonham. Os judeus, 2000 anos, esperaram, rezando, o regresso a Jerusalém. O começo duma sociedade sem classes é uma sociedade sem projectos, sem passado nem futuro. Até as raparigas, na província, já não querem esperar um filho, mas um garoto já nascido que dirá mais tarde: «As mulheres não são nada.» Com efeito, as mulheres e os homens, não são feitos para viverem juntos. 

Liebig insistia, desta vez, com bilhetes de avião. — Moçambique, e o regresso...

— Sim, Liebig. 

— François, meta isto na cabeça, a ordem é indispensável em política. A longo prazo, tudo está perdido. E o longo prazo aproxima-se, o longo prazo cá está. 

— Sim, sim, Liebig.

(...)
Ele tinha-me deixado o seu dossier, com um elástico. Em letras garrafais: AGITAÇÃO SUBVERSIVA; e em exergo: «M. Kanapa, assistido por Jacques Denis (de origem polaca; chama-se na realidade Spiewacki), está em contacto permanente com Vadim Zagladine, que, sob a autoridade de Ponomarev, está encarregado, no comité central do PC soviético, das relações com os partidos comunistas da Europa ocidental.» 

Seguiam-se listas de nomes, nomes falsos, redes disfarçadas e pseudónimos, cem vezes os Treze e os seus companheiros, Setembro negro perseguido até ao ninho dos pardais. 

«O X Congresso da IV Internacional realizou-se clandestinamente numa localidade da Suécia meridional, onde aprovou o programa de uma frente unida revolucionária agindo principalmente na Europa e na América latina... Hegemonia da corrente trotskista, liquidação progressiva das outras correntes, maoístas, castristas, anarquistas, liquidação das correntes pro-árabes e dos contactos com as organizações palestinas, criação de redes paralelas à IV Internacional. 

«A Suécia e a Finlândia constituem os canais de penetração dos serviços trotskistas no Leste europeu, até ao coração da União Soviética. Copenhaga é a plataforma giratória utilizada por estes agentes que se infiltram em Varsóvia, Praga, Leninegrado, Tallin ou Riga. Para o Sul, que compreende a Áustria, a Alemanha, e a Suíça, as bases principais são Zurique, Viena e Francforte. 

«A organização clandestina russa anticomunista NTS (Narodno Trud,ovoy Soyuz Russkyh Solidaristov) é apoiada pela CIA, o BND 1 e a MOSSAD 2. Sob o disfarce da companhia aérea sueca Crownair, os serviços de contra-espionagem suecos conseguiram furar o sistema ABM (antimísseis) soviético «Blue-Belt» (o seu nome no código da NATO) na costa Sul do golfo da Finlândia, numa região no Noroeste de Vaana (cerca de 15 Km a oeste de Tailin) e na região de Hogland (100 Km a noroeste de Narva). 

«A operação OKKUPP tem por objectivo a criação de uma central de agitação nacionalista na Finlândia e a infiltração do Partido Comunista das repúblicas soviéticas carélo-finlandesa e estónia, hostil à linha Brejnev, a fim, também, de poder desenvolver, num segundo tempo, na própria União Soviética, uma oposição interna de tipo trotskista. 

«Na Suécia, o IB (Informação Byra) do social-democrata Birger Elmer (serviço paralelo trabalhando para o general Stig Synnergren, chefe de estado-maior) ... 
«Liquidação de Feltrinelli e do grupo Baader pelos serviços da Alemanha ocidental, brigada especial GSG9 controlada pelo ministro federal Hans Dietrich Genscher, após a mudança da linha política de Brandt depois da conferência de Orenanda (em Agosto de 1971). Em Orenanda, Brejnev, apoiando-se nas provas contidas no dossier Aleksandrov sobre o comprometimento dos serviços federais da Alemanha ocidental, o BND, e da sua participação na sublevação de Praga, obrigara o chanceler alemão a abandonar a linha pró-chinesa e a ordenar assim a liquidação dos grupos terroristas Brigate Rosse...» 

A Informação é estúpida. Quer submeter tudo à, lógica, esquecendo o que há de absurdo, de contingente, e de fortuito, a ambiguidade, a metáfora. Para mais, o agente secreto tem miolos de tecnocrata. Mais vale agir em pleno dia. A Carta Roubada, de Edgar Poe! Em vez de a esconderem, põem-na em cima da mesa. Todo este labirinto de agentes triplos, de barbudos ofuscados pelo delírio causalista mais não formava aos meus olhos do que a granulação de um resíduo de café. Dir-se-ia um inquérito policial do Libération, os seus jornalistas apanhados na espiral do fantástico, a histera negra como pano de fundo. 

Os parvinhos com a boina basca do Ocidente cristão, pensava eu, em vez de cultivarem a sua intuição e de recrutarem adeptos, continuam a confiar nos seus informadores, criados de café, mulheres da sociedade, porteiros, provocadores, vindo tudo a parar nos seus escritórios, uma visão do mundo alucinante. Do lado de lá, um militante qualquer é capaz de viver cinco, dez anos num sótão, cheio de ilusões, tudo para o êxito do Partido. Este género de jornalista nunca está onde se espera. Eu sentia de repente que estava só, tendo contra mim a perspectiva dos hábitos, categorias, classificações. Tinha, contra mim, incorrigíveis presumidos. Era o vazio das horas graves. Na paróquia glauca da espionagem política, as religiosas debocham-se e as putas deixam-se estripar pela Pátria, etc. A angústia acusadora. Que ia eu fazer nesta galera? Sentia-me um pouco romancista, com iniciativas neste sentido, mas já sem nenhuma ideia fixa.

(...)
 Catarina, sentada num banco, fala. A voz rouca da confidência: 
— Eu não digo que o esperava, mas você fazia parte da espera. Um dia penso em política, no dia seguinte em Dom Sebastião. Mas, não vou mais longe, porque ainda não tenho solução. Aqui, não se roubam os maridos às outras, em princípio. O amor é muito difícil. Toda a gente se conhece desde a infância. Nunca se fala de política em Portugal, mas das «estrelas» de cinema, de teatro, que vêm e voltam, do Presidente que corta uma fita. Lêem-se os anúncios. Eu estou para me inscrever na Sedes, uma coisa política disfarçada. (Um silêncio.) Interessa-me por causa de Spínola. Em todo o caso, a situação tem que mudar. Está podre. (Um silêncio.) 

Pertence-se a um grupo, Champalimaud, Vinhas, Espírito Santo; você é admitido nas caçadas deles e está lado a lado com os ministros ou é posto de quarentena. Ai do que não tiver perdizes para oferecer! Acredite-me, aí não se discute a guerra colonial. (Um silêncio.) Não faço ideia nenhuma do futuro, o que há de pior é pensar nele. A vida em Portugal é tão artificial, com festas, só festas, sobrelanços absurdos. Decoração árabe aqui, pagode em casa de Schlumberger... Mme Anderson recita poemas da pior candura católica em casa de Trombéro. Mlle Husan vem de propósito da «Gaité-Lyrique» a casa de Patino para recitar a Religiosa Portuguesa. E não lhe conto as caçadas aos faisões em casa de Brito, toilettes especiais obrigatórias. (Um silêncio.) Eu visto-me de liso, nunca uso flores. (Um silêncio.) Houve um baile dado por um casal perto da Nica, pelos vinte e cinco anos de casamento, unicamente para receber os presentes dos amigos. À noite, separavam-se. E de que se fala? De dinheiro, de viagens a Espanha, dos preços comparados do Hotel Baltimore e do Hotel Sintra. E aqueles homens tão adoráveis, à noite, depois de terem beijado a testa às mulheres, você encontra-os nos bares à conversa com as putas. Todos eles só pensam em gozar. Gozam no país. (Um silêncio.) Um país podre. (Um silêncio.) Dom Sebastião é a minha esperança. Mas isso faz parte dos sonhos. Não se fala nisso. (Um silêncio.) 

Eu começo talvez a 'duvidar de Dom Sebastião. Existirá? (Um silêncio.) Não sei. 

— E Salazar, Catarina? 

— Eu fui aos Jerónimos, na noite em que ele estava exposto. Queria saber como ele era, morto. Como era aquilo, Salazar morto. Mas tropecei no tapete da escada e caí por cima do caixão. Tento lembrar-me se o vi ou não. (Um silêncio.) Não. Tinha tanta vontade de o ver que caí. Portugal inteiro estava lá. Que multidão! O lado sádico dos portugueses a virem verificar se ele estava bem morto Eu cá, estava tão contente, estava-me nas tintas. Detestava aquele homem. Só podia ser apreciado na sua época, ao princípio. O futuro, ela via-o mal. E continuavam a ir jantar ao Tavares, mascaradas, as trinta famílias. 

Catarina: «... O tempo dos Fonsecas e Burnay, outros grupos, Banco Nacional Ultramarino, Português do Atlântico, a CUF que detém 5 % de todas as empresas do país, proprietária das pirites de Aljustrel, das minas de Santiago, dos têxteis de Moçambique e da Guiné, a C.ia Nacional de Navegação, quarenta e cinco sociedades de construção e de reparação navais, manufacturas de tabaco, de pasta para papel, Companhia Portuguesa de Cobre, CUF outra vez, Pinto de Azevedo e Trefimetais, os cabos eléctricos, o Hotel Alvor, o Banco Totta e Açores, metade do Algarve, a totalidade do governo, uma dezena de generais, entre os quais Spínola. (Um silêncio.) 

Eles dizem: "Nós não receamos nada porque entre a Espanha e a Suíça temos os Bancos, os quartéis e a ITT na mão." (Um silêncio.) Mas você François, o que faz?» 

— Sou jornalista, Catarina. Tinha-me saído bem, bastante com o sentimento de que não existia. Teria valido mais encontrarmo-nos no reino dos mortos, fora da evolução e do tempo, sem o sexo e sem a morte, sabendo que tínhamos sonhado, que tudo é sonho... 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O QUINTO IMPÉRIO - excertos, continuação. Na Guiné, com Otelo e Spínola, antes do 25 de Abril




De todos os capitães da Guiné, Otelo era o único que, à noite, cobiçava as lojas com a Madame e o filho. Havia dez metros de montras em Bissau: tecido indiano, relógios japoneses, lâmpadas subaquáticas, transístores e camisas. A rue de la Paix. Ele maravilhava-se com tudo, o filhito abrindo as mãos para agarrar tudo, mas nunca era capaz de vergar a mulher. Nada, ela não queria nada. Parecia estar constantemente a meditar. Desejava uma sociedade libertada, socialista. Do social sabia ela. Por isso impelia o marido a tudo ousar. Ele não devia implorar a protecção do Velho, mas alcançar o poder e depressa. Já que Spínola se recusava a fazer a Guiné com ele, pois, bem, Otelo havia de modificar Portugal e ela havia de o ajudar a transtornar a Europa. Num desses dias de colar o nariz às montras, eu disse-lhe, para a provocar, que o Partido Comunista era elitista e que estes plebeus, em cinquenta anos, tinham conseguido criar a Internacional vermelha dos príncipes do Partido, a aristocracia proletária. Ela interrompeu-me:
— O Otelo tem as suas ideias próprias, as suas convicções. Não é nada comunista. A nossa ideologia dos dois não é o socialismo de ninguém.
(...)
- Tudo bem, Otelo...?
— Otelo, Otelo!... Vá esperar-me com Mazin na clareira. Ele (eu) não pode perder a minha chegada...
Em todo o caso, os negros vieram de toda a parte, aldeãos de pulseiras de pérolas, abdómens, tetas, miúdos e velhotes. Um chefe tradicional tira sons de uma carapaça de tartaruga. Não sabe tocar; pensa saber. O ar, com todos estes corpos, cheira a peixe seco e a cueiros. Eu penso em retirar-me para a Suíça!
Mas cá está ele. Voam poeira e ramos. Onde foram eles desencantar esta irmãzinha e estes dois capuchos nos seus cordões? Terão vindo a pé desde Roma? E de que capucheira?
Com Spínola, inútil ir aos desportos de Inverno. Esquiávamos com ele ao ouvi-lo dirigir-se às populações. Esquiávamos na palidez das suas palavras. Mas de que falar quando se é governador da Guiné?... E a África... Um povo livre a caminho do futuro ... Duas, três, quatro horas de seguida, como os cegos das aldeias. Estes negros são admiravelmente crédulos. Atribuem às palavras uma magia, confundindo sempre o querer e o poder, o dizer e o fazer. O próprio Kant, no fim da vida, também ele, se tinha tornado negro: já só acreditava nas palavras.
Examinava Otelo pelo canto do olho. Faltava-lhe o francalete ao queixo e no entanto eu via-o correr, criança, nas praias, de djellaba anil. Lembrava-me: «François, em Moçambique, eu revoltava-me contra a injustiça, porque só brincava com os pretinhos.»

E de volta a Bissau.
Horrível sentimento do já visto, da mesma coisa. Será a vida diferente para os extraterrestres? Eu não ousava confessar a Otelo que Gamparra me tinha enfastiado e que, em Bissau, se acabava por duvidar da própria existência.
Mas o que se passava na cabeça dele? Uma Lua enorme, por cima de nós, que calcorreávamos o molhe. Não longe, raparigas cortavam juncos. A noite cheirava a amêndoas e chegavam até nós vozes de um draga-minas, o único barco atracado, deste minúsculo porto de pesca.
— Tem-se muitos pensamentos quando se tem medo de morrer...
Que quer dizer com isso, Otelo?
— Quis dizer que gosto da África.
E era mostrar-me a noite com um gesto vago como para me provar que havia correspondência entre a África e a noite.
— Otelo?
— Sim.
— Em que está a pensar?
— Estava a pensar que Spínola é um homem doutros tempos. E de resto, sem Cabral não teria havido Spínola. Eu havia de me entender com Cabral se tivesse podido chegar até ele. Mas, o que quer, sou capitão. E isto não passa daqui, não é verdade? Cabral formou todos os movimentos de libertação de África com os mestiços dos anos 60, com os irmãos Andrade que lutam contra nós em Angola, com Viriato da Cruz morto na China. Este, sim, acreditava no socialismo, tanto como Jonas Savimbi!  Por seu lado, Fanon e Lumumba lançaram-se na luta por causa de Viriato da Cruz. Ele tinha uma visão. Era grande, não doutrinário. Recusava os soviéticos como recusava os americanos, e os chineses. Morreu na China, da China. Na China, uma pessoa abandonada e que não é chinesa, morre. Mas porque não havíamos nós de ser os Spínola?... Vou dizer-lho. Toda a minha vida sonhei fazer um golpe de Estado.
- Seja como for, ninguém merece nada... Ouça! Está a ouvir?
Com efeito, diante de nós, no dilúvio das trevas, distinguiam-se ao longe, em qualquer parte, explosões surdas, morteiros, bazuca, depois, um clarão, os foguetes brancos. A noite voltava a fechar-se sobre o silêncio da água, sobre aquilo que seria a última versão da cabra de Monsieur Seguin. Amanhã, se calhar, íamos ver a equipa de futebol do regimento regressar com os pés arrancados. Nós olhávamos um para o outro sem uma palavra, ensimesmados, tendo ele e eu encontrado refúgio no fundo da nossa consciência, aí onde se decidem os mais pequenos gestos da vida quotidiana, a história do mundo e a das fadas. Acabada a adolescência, quando nos sentíamos eternos! A consciência da morte — que o homem cai — tinha-nos entrado na alma como um lagartinho verde. Iluminado de amarelo pelo fanal da draga, Otelo aparecia-me de repente em todo o seu narcisismo, não o César das alamedas de Castel Gandolfo, mas um desses óscares de cinema que recompensam o vencedor duma categoria, um óscar português. O amarelo tinha-o avolumado. O seu ar de gazeteiro tinha-se apagado, substituído por uma hidrocefalia mussoliniana que lhe dominava a queixada. Ao encará-lo, eu recordava a silhueta cinzenta de Spínola, e a sua nuca de feijão: as duas faces de Portugal. Janus inquietava.
E dizia eu a Otelo, na noite, que nada seria mais prontamente acompanhado em Portugal que uma revolução. Que era preciso mudar tudo ao mesmo tempo, descolonizar em África e corrigir os costumes em Lisboa. Não se podia viver neste país como no século XIX, com as suas oligarquias de monopolistas de polainas beges e de banjo, tresandando a lavanda inglesa. Não se precipite, Otelo. Tente um golpe. Uma ideia de cada vez, e vai poder. (Ele olhava para mim, admirado.) Eu hei-de fazer tudo para o ajudar. Eu sirvo-lhe de ligação. Há um grupo em Lisboa só à espera de um sinal da sua parte. Hei-de falar-lhe nisso mais tarde. Eleve o seu país até esta altura (gesto acima da minha cabeça). Pense nas desigualdades sociais, nesta guerra em que você se está a enterrar, na opinião pública mundial, que detesta os portugueses, o «fascismo à portuguesa»...
— Agradeço-lhe, François. Eu penso neste golpe de Estado desde pequeno, quando brincava em Lourenço Marques com os pretinhos. Estamos longe de estar prontos. Há camaradas que pensam que é impossível. Quase chegámos a cair na ratoeira Delgado. E nós admirávamos Delgado... Eu gostava tanto de tornar este povo um bocado mais feliz...
Com que candura ele tinha ousado pronunciar esta última frase. Eu tinha quase a certeza de que se ele alcançasse o poder, havia de querer dar tudo ao povo, mesmo que o arruinasse totalmente desde que isso lhe desse prazer. Regressávamos depressa. Bissau tão tranquila como a Suíça protestante. Aqui ainda ninguém se suicidava. Jeep da polícia militar afrouxando. Cabourg com a polícia montada... Mas porque me tinha eu metido nisto? Um hábito?
No fundo, Spínola, Otelo, eram-me indiferentes. O que me dava gosto era pensar, pensamentos nada práticos, e não revolucionários. Como Flaubert, quereria ter tempo, preparar os meus encontros amorosos com seis meses de antecedência. Balzac alvoroçava-se com a ideia de ver Mme Hanska, de três em três anos, em Neuchâtel! Eu pensava em Catarina no seu apartamento de vinte divisões em Lisboa. Teria ela, por seu lado, decidido tudo por mim? Que aventura, antigamente, ir a Ruão! Uma pessoa tinha que preparar-se. Que fica dos nossos amores de soldadesca? Apetecia-me oferecer a Otelo este propósito de Salazar: «Só conheço um militar que tenha aberto um livro durante a vida, um só, o general Câmara Pina.»
Chegados diante do hotel.
— Luz verde de lés a lés, Otelo!
— Luz verde, François! íamos separar-nos com esta metáfora automóvel, quando, agarrando-me pelo braço: — Devo dizer-lhe que nós estamos muito mal organizados. De certo modo, é melhor que... (Nunca cheguei a saber o que me queria ele confiar naquele momento.)
Dormir, adormecer. De noite, não há nada mais importante que um mosquito.
(...)
Teria sentido Spínola o meu olhar sobre o retrato de Caetano, de fraque pregado atrás dele? Disse-me:
— Está a olhar para o nosso chefe do governo? Marcelo não avança ao ritmo que a situação exige. É preciso travar a tragédia histórica que se prepara. O conflito guineense inscreve-se na corrente da Terceira Guerra Mundial. Sobre um fundo furta-cores, a audiência começara.
O débito do meu interlocutor, grave, apático, pontuado de gestos doces. Vivia-se a crise. Mas a fama que tinha adquirido em combate não a ia comprometer a sublevar o exército. Pelo contrário, queria confirmá-la abrindo os olhos de Lisboa. O seu país arriscava o pior. A Assembleia Nacional não existia; os militares estavam corrompidos; Caetano, fraco diante deles; o Presidente da República, preocupado com o protocolo; os costumes depravavam-se. Não fora a política africana dele, Spínola, que obrigara o Primeiro-Ministro a decretar a autonomia das províncias ultramarinas? Mas Caetano ficara prisioneiro dos meios de negócios e de um estado-maior enfeudado ao capital. Entretanto, os seus capitães exigiam meios para ganhar a guerra: Portugal não lhos podia fornecer e os países europeus, a América concediam-lhos a conta-gotas, tratando-os de imperialistas. Hoje, ele que ganhara a batalha das cidades e dos postos avançados, tinha que admitir que o combate não tinha saída.
Mas quem constituíra a Assembleia Nacional legislativa da Guiné? Ele. Quem acelerara a participação dos africanos na vida pública? Ele. E quem ainda estava a institucionalizar os primeiros representantes legítimos da nação guineense do futuro? Ele, sempre ele. Ele era um lealista, favorável a uma mudança, mas no quadro da legitimidade. As qualidades que lhe importavam não eram as do homem de guerra mas as do cidadão. Pregava: «O governador pode errar. É necessário que o povo esteja atento à sua actuação. É necessário que o povo critique, que fale, que não diga apenas: sim.» Povo, a palavra «povo» vinha sem cessar à boca do governador. Abrira-se com Senghor acerca da autonomia guineense e da cumplicidade soviética na rebelião. Aquando da recente operação Ametista Real, na fronteira Norte, os seus comandos negros tinham tido que enfrentar mercenários brancos, cubanos, alemães do Leste, checos. O seu rosto alongara-se. Dir-se-ia uma mangusta pronta a fingir de ramo durante oito dias para sangrar o seu réptil. Tantas as mangustas quantos os ramos, e os soviéticos já não existiriam. Seguiu-se então uma longa exposição sobre a situação da Guiné para uso interno. Encontrei-me lá fora. Spínola dissera tudo. Mal chegasse a Lisboa ia poder informar Liebig.
(...)

Otelo, na pista, acenava, pequeno, robusto, sorriso encantador, todo o imprevisto, todo o poder da juventude quando os seus trinta e oito anos já não são os de um jovem. Eu via desaparecer Bissau. Agora só a superfície plana da floresta e os seus perigos, a imagem de Spínola dando a última demão. Fingia governar, como em Lisboa, como por toda a parte, como todos os que nos querem fazer crer que têm o poder que não têm. Lado fantasmagórico de toda a política e de toda a vida dali em diante, em proveito do reino da opinião, do reino da quantidade. 

(continua...)

Excertos do livro 'maldito' O QUINTO IMPÉRIO. Na Guiné, com Spínola e Otelo


(...)
Spínola não devia gostar dos mistérios só pelo prazer de os esconder aos jornalistas. Tinha a reputação de presidir ao segredo, desdenhoso dos mexericos se uma das suas maquinações se virava contra ele. Não tinha provisão perpétua de bodes emissários, que sabia tirar da manga nos momentos críticos com um suplemento de alma? A emboscada estava longe! Não o tornámos a ver durante alguns dias, com a sua espécie de altivez de tio aborrecido. A alma atlântica preparava a sua vingança. Desta vez ia ocupar-se da história do futuro. Perito florentino com certificado em estratégia contra-insurreccional, eu imaginava-o aproveitando um golpe de Estado, que teria deixado organizar por amor ao protocolo e à manobra dilatória.
O caetanismo ficaria encantado de canalizar, com ele, Presidente da República, uma nova política, pondo fim aos gerontocratas do regime que gemiam que a República era ilegítima, porque não tinha resistido em Goa. Eu observava-o atrás da sua máscara de autocrata, um pouco acobreado pelo combate, astuto, múltiplo e saboroso, tendo desviado esta guerra, que o teria enterrado, para os seus fins imperiais; como se a Guiné não fosse uma periferia, uma província esquecida, afastada dum Portugal continental que queria o mundo de ontem e que mais ninguém queria.
A sua chegada há pouco, à maneira da estátua do comendador, o parteiro da morte, o maiêutico revisto por Maurras, dava-me a impressão que ele tinha feito de Bissau o coração do seu projecto «Portugal, Brasil, África», o triângulo de ferro, a fortaleza onde, exigindo a obediência dos seus esbirros e dos seus camareiros, lhes designava as suas vítimas, reservando para mais tarde surpresas para Lisboa. Esquecia que esta guerra de intermediários e de assassinos, de prolongamentos joycianos, estratagemas, panóplias, segredos, ia criar uma situação irreversível, senão na política, pelo menos na sua política.
Sem ele saber, os seus oficiais subalternos, à luz da subversão que combatiam, descobriam pouco a pouco que nada é verdade, tudo é permitido. Já se estendiam progressivamente no terreno deste César que vivia de alibis e de ritos. Não se tinha apercebido ele que as ideias avançadas já não pertenciam nem aos mestres, nem aos profetas, que elas circulam por toda a parte, que dão ao povo — a quem no entanto ele chamava «bom povo» — o desejo de também tentar algumas experiências, até mesmo de o mandar passear.
O plano do general visava a destruição do PAIGC, mas sobretudo a tomada do poder em Lisboa. Acabou por se eliminar a si mesmo, bebé Spínola, incarnação dos sonhos de oficial Mistinguett que põe luvas para falar à rádio, o santo das agências funerárias do pensamento ocidental clássico, objecto e já não sujeito da história.

Otelo tinha-me introduzido no bar da esquadrilha. Estendidos em largas poltronas, pilotos de fato-macaco tratavam a melancolia com coca-cola, e enfermeiras pára-quedistas de fato de salto, com as nádegas moldadas, com grandes lágrimas de uísque contavam as suas histórias, trocavam impressões. Otelo, Otelo! Popular! A alegria que ele sentia ao passar no meio deles, piscadela à direita, piscadela à esquerda. Passa ao de leve. Vai direito ao canapé do fundo debaixo das pás do ventilador. Sorri-me, cabotino.
— Eis, meu caro François, a nossa vida em Bissau todos os dias, a ponto de eu me sentir seguro do amanhã. A guerra pode durar muito tempo. Terá ocasião de verificar que o PAIGC mente quando afirma que o nosso exército vive desenfiado. Antes de lhe conceder a entrevista, o nosso general Spínola quer que eu o leve onde você desejar. Estou à sua disposição, sentindo-me mais que nunca disponível e pronto para outra coisa. Eu não abdiquei, François, não deixarei sempre os outros decidirem por nós. A guerra aqui já não é o que se conta em Lisboa.
- Devo mesmo confessar-lhe, François, sinto-me mal na minha pele. Eu gosto destes negros. Nasci em Moçambique e, desde pequeno, fui habituado a brincar com os pretinhos. Fugíamos juntos quando chegava a polícia. Sim, o que são trinta e cinco anos na vida de um homem?
(...)
- O nosso governo pressiona Paris, porque Senghor trabalhava já com o vosso SDECE. Em 1966, Cabral desenvolve a resistência na região de Sandimingo. Os países de Leste intrometem--se. Têm uma roulotte em Dakar. Em Conacry, estão à vontade. Sékou Touré quer a sua Federação. A fronteira, diz ele, é uma invenção colonial. A Guiné tem que parar na Gâmbia, mesma floresta, mesmo povo. (...) Spínola desembarca. Tudo muda. Já não há fair-play. Os golpes baixos são recomendados e bater sem dó nem piedade. A intriga reina. Formam-se assassinos, intoxica-se, manipula-se e corrompe-se à porfia. Spínola repete: «Nada é verdade, tudo é permitido.» Nos dois campos a revolução faz a guerra aos que não são desta revolução. E nós, os capitães, inventamos um estilo que possa agradar ao governo (...)
- Há cães, diz Otelo, mas são treinados para o silêncio. Uma raça especial, «leões» da Rodésia. Não se anunciam. Com um salto partem a nuca. Em recompensa, a cabeça... Guiava devagar, entregue aos seus pensamentos.
- Também eu, François, penso passar um dia à política.» No último momento, aceitava voltar a falar nele, cedendo à confidência, mas sem exigir resposta, de fugida, levantino, à espera da maledicência à portuguesa.
No passeio, dando a volta ao carro, eu inclinei-me para a porta: — Um dia, quem sabe, Otelo, se não será preciso opor-se na metrópole às classes dirigentes?
Um silêncio e depois, esquivando-se: — Voltaremos a falar nisso.
- Caro Otelo, posso fazer alguma coisa por si?
— Com certeza, François. Uma resposta à chinesa que queria dizer «não».
Eu passei oito dias a calcorrear a Guiné com Otelo de Carvalho, mas sem nunca conseguir tirá-lo da sua reserva, menos ainda que dantes. A lógica das minhas perguntas embatia contra a distância dele. Existe um discurso, uma retórica, um estilo de vida portugueses. O último dos anarquistas fala como um jurisconsulto. Precisa de uma história fabulosa, de uma moral que não se ajusta a nada. As suas palavras deslizam umas sobre as outras. Como conseguiu a natureza este fenómeno ímpar?
(...)
O tenente Carolino Barbosa aproxima-se de mim: «Senhor, somos pacifistas». Da placidez misteriosa dos cadáveres!
36 125 quilómetros quadrados. «A espinha de África, sussura-me Otelo. Morre-se por isto.» Diante da nossa tribuna desfila o batalhão de comandos africanos. Mas acrescenta: «A africanização é, com o desenvolvimento económico e social, o nosso primeiro objectivo...»
Spínola está em cima de um estrado, monoculado, enluvado de couro, rodeado do seu estado-maior, desta vez oficiais da Marinha e da Aviação. Fala. Adora falar, Exorta. Eu percebo a palavra estrela: «A todos formulo votos de que, pela vida fora, vos continue sempre a acompanhar a boa sorte, aquela boa estrela... estrela... estrela...» Disco riscado ou estarei a dormir? As estrelas de Spínola são cabos. O general acredita nos céus como os Ptolomeus.
O ruído do anel batendo contra o microfone acorda-me. Ele cicia: «A Guiné melhor». Os homens pintados deixam-nos com um passo cadenciado, o braço direito atirado em frente, Kalachnikov (também eles) ao ombro. Saraiva de Carvalho explica-me que os comandos africanos são soldados de carreira, que comem comida quente, usam sabão e pasta dos dentes, papel higiénico, mas que, na guerrilha, bem podem levar às costas morteiros sem recuo, todo um armamento sofisticado, limpam-se aos dedos...
Otelo obstinava-se em convencer-me ali mesmo que os portugueses tinham ganho a guerra, pá. Bocas, só bocas, como se diz em português. Eu cá antes contestava. Um atolamento pior que uma retirada estratégica, pá.
Eu estava um pouco inquieto com o silêncio húmido. Sentia a guerrilha emboscada. Distinguia mochos beges com a extremidade das asas tigrada. Íamos servir de alvo aos caçadores do PAIGC. Não, eis que Otelo se lança numa verdadeira confissão negativa:
— François...
— Sim, meu caro Otelo... (Acho que ele tem uma cabeça de capitão de nave espacial, mas nenhum cosmódromo, só crocodilos e hipopótamos).
— Sim, Otelo...
— François, tenho que dizer-lhe, já não há nenhuma possibilidade de aventura colonial. Estive em Angola, antes da Guiné: menos riscos que os de um polícia em Nova Iorque. Estou a pensar em voz alta, François. A colonização já só é possível à esquerda, no Leste da Europa. Assim também, penso eu, a Europa, temos que a fazer com os russos. Apreciei a sua discrição, François. Você é um jornalista singular. Tive sempre a impressão de me dirigir a um amigo. Nós, os capitães, desde que ensinamos os pretos a pensar, e que remexe-mos nesses livros que só a guerrilha e os ricos conseguem arranjar, pois bem, sabemos que o colonialismo está votado ao malogro, irremediavelmente. Nós não passamos, desde há anos, dos representantes de um país que não existe. Salazar, era o czarismo, devaneios de opiómano. Portugal é um asilo de velhos, quanto muito equipado para o trabalho nos campos. Uma só realidade: o exército! Mumificado até aqui, esta guerra reergueu-o. Atenção! Neste momento, estamos no Cacheu, Guiné. Passeamos de Zebro III. Pois bem, eu não estou aqui, nem ali. Eu sou português, quando muito, um membro da Legião para manter a ordem. E dentro de um mês, quando desembarcar em Lisboa, de licença, pergunto à minha mulher: «Onde estou eu? Que raio, diz-me onde estou?»
— Mas, e Spínola?
— Tem tempo de o ver, François. Está convidado para o palácio amanhã... Para os meus camaradas e para mim é um grande chefe militar, mas encarna plenamente a mitomania lusitana. Crê ter ideias novas. O quê? Tornar-se Presidente da República?...
— Otelo, eu sei. Imagino. Que quer você modificar?
— Nós estamos a discutir os dois, François. Aos camaradas digo eu: «Façam apostas altas, ganham a dobrar. Acreditem, que raio!»
E eu, irónico: «Tome o poder, Otelo!»
— O poder? O poder! O grande problema do poder, é dar, não é tomar!
Sem querer, eu tinha puxado um cordelinho. A minha missão... O contacto, teria dito Liebig.
Entre as margens cada vez mais baixas corria o rio que nos veiculava em direcção a não sei que Osíris. Carvalho tinha-se recomposto. Voltara à sua atitude de português médio, de filho submetido ao pai. Virando o bordo, pôs o motor a pleno vapor rumo à Aldeia Formosa. As ondas levantadas pelo rasto abatiam-se nos paletúvios com um rolar de caroços.
(...)
Aceitaria Otelo fazer o papel de bobo no seio duma junta spinolista? Todos estes portugueses, peritos em guerras intermináveis, tinham uma tal candura e um tal sentido do maquiavelismo, que teriam acabado por bater os chineses no seu próprio terreno, com os quais se parecem no amor aos cravos e aos fogos de artifício — mais isolados que eles entre si. Igualmente isolados do mundo.
Pensava em mil coisas ao mesmo tempo, o nome de Otelo agradava-me: Carvalho, tão bonito como cotovia... Mas, cá está ele de novo, o Otelo.
— Sozinho? perguntava ele. Sozinho? («Sozinho» exprime: «na solidão».)
— E as notícias, Otelo?
— Não há notícias! O convite é para esta noite.
— Quem são os convidados?
— Vai descobrir sozinho. Eu não estou ao corrente, nem faço parte da corte. Vamos!

António de Spínola avançava pela alameda, precedido da sua regata manuelina. De farda de gala branca, com torcidos dourados, estrelas na manga e listas vermelhas, colar de placas de marfim e boné. Cumprimenta, chama-me:
- Oh, senhor Mazin. Como está? Passou bem?
Estava muito à Insulíndia, nestas áleas botânicas, voz nasal e faustosa, melancólica, hepática, hiperbólica, boca de desdém. O brilho do seu olhar, atrás do monóculo numa imperceptível rotação contra o nariz adunco.
— E Otelo, meu general?
— Não é convidado. Veleitário demais. À noite escreve o seu poema, sempre o mesmo desde há trinta anos!
- Dona Helena! Apresento-lhe François Mazin, um jornalista de Paris...

E era erguer a taça a «Uma Guiné melhor», a Portugal, à França! Que reter do sermão? Que eu, François Mazin, diante do meu prato, não passo do rei desta «vitela enrolada», deste «recheio de lebre à la Royale» e que estes pratos não passam talvez de «caganitas de rato». Alarido. Falta A Marselhesa e o Chant du Départ.
Eles levantaram-se. Eu levanto-me. Um certo coronel Fabião, um pesadão, quer fazer um brinde à generala, mas esta adianta-se-lhe, muito protectora: «Happy birth-day Fabião!» E naturalmente nós repetimos em coro: «Happy birthday Fabião». Um verdadeiro concurso de elogios de pessoas que não deviam pensar a mesma coisa.
(...)
— Que calma, meu general! (Era preciso dizer qualquer coisa...) Acrescento de repente, cretino: Não é? 
Ele vira-se. Monóculo, medalhas, guarnições, a túnica aperta-o na cintura. Esboça um sorriso entendido, estava na sua contemplação, ele mesmo emissor, Marconi em directo com o cosmos.
— A esta hora, diz ele, mata-se algures. Viola-se, queima-se; e dizer que são os filhos da minha Guiné melhor!
Eu apreciava-o. Oh, meu Deus, a nuca dele, em forma de feijão. Toda a sua impaciência, as suas hesitações fechadas ali dentro. Capaz de todas as evasivas, susceptível, miudinho. O que são os militares senão invertidos, sonhando com grandes holocaustos homossexuais? Irá uma pessoa entesar-se com o aparelho inteiro, quando o horizonte estiver vermelho? Eu tirava algumas conclusões. O «campo da Guiné» servia a lenda spinolista. Espartilhado no seu helicóptero, julgava-se a réplica de Dom Sebastião. Perdido, o rei é esperado porque nunca mais regressa. Ora, o general tinha já resvalado para a política e, um dia, voltaria a Lisboa, Dom Sebastião impostor e desmascarado como tal, e ao mesmo tempo chefe de Estado meio verdadeiro. Como Delgado, como todos os generais portugueses, queria ser Presidente da República e marechal.
Mas Delgado tinha consigo a paixão, a inteligência testicular, bakouniniana, que só podia acabar com a morte do herói marcado pela fatalidade. Enfim, era um verdadeiro conspirador. Spínola, pelo contrário, ele mesmo demasiado escrupuloso, e por cálculo do risco, deixava os outros conspirar por sua conta. Delgado e Cabral foram ambos assassinados... por ordem de quem?...
Interpela-me:
— Eu podia tornar-me Presidente da República guineense. As populações dizem até: Amílcar tem a pele negra e o coração branco, mas Spínola tem o coração negro e a pele branca.
A fórmula era sedutora. Eu desconfiava dela. Reencontrava-se a tentação portuguesa, desviar a Guiné, como o capitão Galvão desviou o Santa Maria. Precursores em tudo, rota náutica, aviação, captura de reféns, no dia em que todos os portugueses ficarem em casa, será a sua dissolução.
— Meu general...!
— Sim.
— Meu general, o seu nome circula pelos meios da oposição portuguesa. Contam-se muitas histórias acerca de si.
— Eu sei, eu sei... o destino... (um pouco dramático) ... o destino...
— E a Guiné?
— A Guiné só tem sentido na medida em que eu sou o seu comandante-chefe. Não passa da peça de um conjunto.
— Não tem o projecto de um livro?
— Olhe, arranje-me um editor em Paris...
(...)
— Com certeza, meu general...
Tinha-se posto a repetir aquele exasperante pá que corresponde em Portugal a uma maneira mais mental que social, a um snobismo que o povo também apanhou, sobretudo desde os acontecimentos de África. Apanhados de imprevisto, os portugueses são indescritíveis, podem-se-lhes contar os pá.
— A Tricontinental, Mazin, pá, pretende coordenar a actividade internacional dos revolucionários...
— Precisamente, meu general, o que aconteceu ao capitão cubano Peralta que o senhor mandou prender?
— Não foi só ele, vários cubanos, meu filho, pá. Na verdade, agentes do KGB, pá, a DGI cubana não é mais que o KGB, pá, que impôs José Mendez Cominche para chefiar a DGI, pá. Posso mesmo dizer-lhe que Ulisses Fernandez Estreda, chefe da quinta divisão da DGI, estava recentemente, pá, em Conacry, pá, e assinalaram-me perto de Boe, a presença, pá, de Joaquim Garcia Alonso dito «Camillo». Você pensa que nós nos batemos na Guiné contra Cabral, pá? Contra a Havana, meu filho, e os serviços soviéticos... Se você soubesse, pá! Vou dizer-lhe. Já tenho a Guiné às costas, mas em breve terei o meu país, pá, 10 % do exército estão controlados pelo PC. Oscar está na praça, meu filho. Oscar, um oficial do meu país mas que está contra o meu país, um comunista histérico.

O adulto tem tendência a alienar a infância. «Não, Otelo, tinha-lhe dito o pai, tu nunca hás-de ser actor. Como eu, nunca hás-de representar Shakespeare...» Assim, tinha ele entrado para os Cadetes, aos quinze anos, desejoso de saltar as etapas: «Mamã, eu quero ser presidente da República!» Em Portugal, o exército dá oportunidades, prolonga a política e a ela conduz. Esse era o lado optimista de Otelo: a Guiné seria a sua oportunidade.

(continua...)