(...)
Spínola não devia gostar dos
mistérios só pelo prazer de os esconder aos jornalistas. Tinha a reputação de
presidir ao segredo, desdenhoso dos mexericos se uma das suas maquinações se
virava contra ele. Não tinha provisão perpétua de bodes emissários, que sabia
tirar da manga nos momentos críticos com um suplemento de alma? A emboscada
estava longe! Não o tornámos a ver durante alguns dias, com a sua espécie de
altivez de tio aborrecido. A alma atlântica preparava a sua vingança. Desta vez
ia ocupar-se da história do futuro. Perito florentino com certificado em
estratégia contra-insurreccional, eu imaginava-o aproveitando um golpe de
Estado, que teria deixado organizar por amor ao protocolo e à manobra
dilatória.
O caetanismo ficaria encantado de
canalizar, com ele, Presidente da República, uma nova política, pondo fim aos
gerontocratas do regime que gemiam que a República era ilegítima, porque não
tinha resistido em Goa. Eu observava-o atrás da sua máscara de autocrata, um
pouco acobreado pelo combate, astuto, múltiplo e saboroso, tendo desviado esta
guerra, que o teria enterrado, para os seus fins imperiais; como se a Guiné não
fosse uma periferia, uma província esquecida, afastada dum Portugal continental
que queria o mundo de ontem e que mais ninguém queria.
A sua chegada há pouco, à maneira
da estátua do comendador, o parteiro da morte, o maiêutico revisto por Maurras,
dava-me a impressão que ele tinha feito de Bissau o coração do seu projecto «Portugal, Brasil, África», o
triângulo de ferro, a fortaleza onde, exigindo a obediência dos seus
esbirros e dos seus camareiros, lhes designava as suas vítimas, reservando para
mais tarde surpresas para Lisboa. Esquecia que esta guerra de intermediários e
de assassinos, de prolongamentos joycianos, estratagemas, panóplias, segredos,
ia criar uma situação irreversível, senão na política, pelo menos na sua
política.
Sem ele saber, os seus oficiais subalternos,
à luz da subversão que combatiam, descobriam pouco a pouco que nada é verdade,
tudo é permitido. Já se estendiam progressivamente no terreno deste César que
vivia de alibis e de ritos. Não se tinha apercebido ele que as ideias avançadas
já não pertenciam nem aos mestres, nem aos profetas, que elas circulam por toda
a parte, que dão ao povo — a quem no entanto ele chamava «bom povo» — o desejo
de também tentar algumas experiências, até mesmo de o mandar passear.
O plano do general visava a
destruição do PAIGC, mas sobretudo a tomada do poder em Lisboa. Acabou por se
eliminar a si mesmo, bebé Spínola, incarnação dos sonhos de oficial Mistinguett
que põe luvas para falar à rádio, o santo das agências funerárias do pensamento
ocidental clássico, objecto e já não sujeito da história.
Otelo tinha-me
introduzido no bar da esquadrilha. Estendidos em largas poltronas, pilotos de
fato-macaco tratavam a melancolia com coca-cola, e enfermeiras pára-quedistas
de fato de salto, com as nádegas moldadas, com grandes lágrimas de uísque
contavam as suas histórias, trocavam impressões. Otelo, Otelo! Popular! A
alegria que ele sentia ao passar no meio deles, piscadela à direita, piscadela
à esquerda. Passa ao de leve. Vai direito ao canapé do fundo debaixo das pás do
ventilador. Sorri-me, cabotino.
— Eis, meu caro François, a nossa
vida em Bissau todos os dias, a ponto de eu me sentir seguro do amanhã. A guerra
pode durar muito tempo. Terá ocasião de verificar que o PAIGC mente quando
afirma que o nosso exército vive desenfiado. Antes de lhe conceder a
entrevista, o nosso general Spínola quer que eu o leve onde você desejar. Estou
à sua disposição, sentindo-me mais que nunca disponível e pronto para outra
coisa. Eu não abdiquei, François, não deixarei sempre os outros decidirem por
nós. A guerra aqui já não é o que se conta em Lisboa.
- Devo mesmo confessar-lhe, François,
sinto-me mal na minha pele. Eu gosto destes negros. Nasci em Moçambique e,
desde pequeno, fui habituado a brincar com os pretinhos. Fugíamos juntos quando
chegava a polícia. Sim, o que são trinta e cinco anos na vida de um homem?
(...)
- O nosso governo pressiona
Paris, porque Senghor trabalhava já com o vosso SDECE. Em 1966, Cabral
desenvolve a resistência na região de Sandimingo. Os países de Leste
intrometem--se. Têm uma roulotte em Dakar. Em Conacry, estão à vontade. Sékou
Touré quer a sua Federação. A fronteira, diz ele, é uma invenção colonial. A
Guiné tem que parar na Gâmbia, mesma floresta, mesmo povo. (...) Spínola
desembarca. Tudo muda. Já não há fair-play. Os golpes baixos são recomendados e
bater sem dó nem piedade. A intriga reina. Formam-se assassinos, intoxica-se,
manipula-se e corrompe-se à porfia. Spínola repete: «Nada é verdade, tudo é
permitido.» Nos dois campos a revolução faz a guerra aos que não são desta
revolução. E nós, os capitães, inventamos um estilo que possa agradar ao
governo (...)
- Há cães, diz Otelo, mas são
treinados para o silêncio. Uma raça especial, «leões» da Rodésia. Não se
anunciam. Com um salto partem a nuca. Em recompensa, a cabeça... Guiava
devagar, entregue aos seus pensamentos.
- Também eu, François, penso
passar um dia à política.» No último momento, aceitava voltar a falar nele,
cedendo à confidência, mas sem exigir resposta, de fugida, levantino, à espera
da maledicência à portuguesa.
No passeio, dando a volta ao
carro, eu inclinei-me para a porta: — Um dia, quem sabe, Otelo, se não será
preciso opor-se na metrópole às classes dirigentes?
Um silêncio e depois,
esquivando-se: — Voltaremos a falar nisso.
- Caro Otelo, posso fazer alguma
coisa por si?
— Com certeza, François. Uma
resposta à chinesa que queria dizer «não».
Eu passei oito dias a calcorrear
a Guiné com Otelo de Carvalho, mas sem nunca conseguir tirá-lo da sua reserva,
menos ainda que dantes. A lógica das minhas perguntas embatia contra a
distância dele. Existe um discurso, uma retórica, um estilo de vida
portugueses. O último dos anarquistas fala como um jurisconsulto. Precisa de
uma história fabulosa, de uma moral que não se ajusta a nada. As suas palavras
deslizam umas sobre as outras. Como conseguiu a natureza este fenómeno ímpar?
(...)
O tenente Carolino Barbosa
aproxima-se de mim: «Senhor, somos pacifistas». Da placidez misteriosa dos
cadáveres!
36 125 quilómetros quadrados. «A
espinha de África, sussura-me Otelo. Morre-se por isto.» Diante da nossa
tribuna desfila o batalhão de comandos africanos. Mas acrescenta: «A
africanização é, com o desenvolvimento económico e social, o nosso primeiro
objectivo...»
Spínola está em cima de um
estrado, monoculado, enluvado de couro, rodeado do seu estado-maior, desta vez
oficiais da Marinha e da Aviação. Fala. Adora falar, Exorta. Eu percebo a
palavra estrela: «A todos formulo votos de que, pela vida fora, vos continue
sempre a acompanhar a boa sorte, aquela boa estrela... estrela... estrela...»
Disco riscado ou estarei a dormir? As estrelas de Spínola são cabos. O general
acredita nos céus como os Ptolomeus.
O ruído do anel batendo contra o
microfone acorda-me. Ele cicia: «A Guiné melhor». Os homens pintados deixam-nos
com um passo cadenciado, o braço direito atirado em frente, Kalachnikov (também
eles) ao ombro. Saraiva de Carvalho explica-me que os comandos africanos são
soldados de carreira, que comem comida quente, usam sabão e pasta dos dentes,
papel higiénico, mas que, na guerrilha, bem podem levar às costas morteiros sem
recuo, todo um armamento sofisticado, limpam-se aos dedos...
Otelo obstinava-se em
convencer-me ali mesmo que os portugueses tinham ganho a guerra, pá. Bocas, só
bocas, como se diz em português. Eu cá antes contestava. Um atolamento pior que
uma retirada estratégica, pá.
Eu estava um pouco inquieto com o
silêncio húmido. Sentia a guerrilha emboscada. Distinguia mochos beges com a
extremidade das asas tigrada. Íamos servir de alvo aos caçadores do PAIGC. Não,
eis que Otelo se lança numa verdadeira confissão negativa:
— François...
— Sim, meu caro Otelo... (Acho
que ele tem uma cabeça de capitão de nave espacial, mas nenhum cosmódromo, só
crocodilos e hipopótamos).
— Sim, Otelo...
— François, tenho que dizer-lhe,
já não há nenhuma possibilidade de aventura colonial. Estive em Angola, antes
da Guiné: menos riscos que os de um polícia em Nova Iorque. Estou a pensar em
voz alta, François. A colonização já só é possível à esquerda, no Leste da
Europa. Assim também, penso eu, a Europa, temos que a fazer com os russos.
Apreciei a sua discrição, François. Você é um jornalista singular. Tive sempre
a impressão de me dirigir a um amigo. Nós, os capitães, desde que ensinamos os
pretos a pensar, e que remexe-mos nesses livros que só a guerrilha e os ricos
conseguem arranjar, pois bem, sabemos que o colonialismo está votado ao malogro,
irremediavelmente. Nós não passamos, desde há anos, dos representantes de um
país que não existe. Salazar, era o czarismo, devaneios de opiómano. Portugal é
um asilo de velhos, quanto muito equipado para o trabalho nos campos. Uma só
realidade: o exército! Mumificado até aqui, esta guerra reergueu-o. Atenção!
Neste momento, estamos no Cacheu, Guiné. Passeamos de Zebro III. Pois bem, eu
não estou aqui, nem ali. Eu sou português, quando muito, um membro da Legião
para manter a ordem. E dentro de um mês, quando desembarcar em Lisboa, de
licença, pergunto à minha mulher: «Onde estou eu? Que raio, diz-me onde estou?»
— Mas, e Spínola?
— Tem tempo de o ver, François.
Está convidado para o palácio amanhã... Para os meus camaradas e para mim é um
grande chefe militar, mas encarna plenamente a mitomania lusitana. Crê ter
ideias novas. O quê? Tornar-se Presidente da República?...
— Otelo, eu sei. Imagino. Que
quer você modificar?
— Nós estamos a discutir os dois,
François. Aos camaradas digo eu: «Façam apostas altas, ganham a dobrar.
Acreditem, que raio!»
E eu, irónico: «Tome o poder,
Otelo!»
— O poder? O poder! O grande
problema do poder, é dar, não é tomar!
Sem querer, eu tinha puxado um
cordelinho. A minha missão... O contacto, teria dito Liebig.
Entre as margens cada vez mais
baixas corria o rio que nos veiculava em direcção a não sei que Osíris. Carvalho
tinha-se recomposto. Voltara à sua atitude de português médio, de filho
submetido ao pai. Virando o bordo, pôs o motor a pleno vapor rumo à Aldeia Formosa.
As ondas levantadas pelo rasto abatiam-se nos paletúvios com um rolar de
caroços.
(...)
Aceitaria Otelo fazer o papel de
bobo no seio duma junta spinolista? Todos estes portugueses, peritos em guerras
intermináveis, tinham uma tal candura e um tal sentido do maquiavelismo, que
teriam acabado por bater os chineses no seu próprio terreno, com os quais se parecem
no amor aos cravos e aos fogos de artifício — mais isolados que eles entre si.
Igualmente isolados do mundo.
Pensava em mil coisas ao mesmo tempo,
o nome de Otelo agradava-me: Carvalho, tão bonito como cotovia... Mas, cá está
ele de novo, o Otelo.
— Sozinho? perguntava ele.
Sozinho? («Sozinho» exprime: «na solidão».)
— E as notícias, Otelo?
— Não há notícias! O convite é
para esta noite.
— Quem são os convidados?
— Vai descobrir sozinho. Eu não
estou ao corrente, nem faço parte da corte. Vamos!
António de Spínola avançava pela
alameda, precedido da sua regata manuelina. De farda de gala branca, com
torcidos dourados, estrelas na manga e listas vermelhas, colar de placas de
marfim e boné. Cumprimenta, chama-me:
- Oh, senhor Mazin. Como está?
Passou bem?
Estava muito à Insulíndia, nestas
áleas botânicas, voz nasal e faustosa, melancólica, hepática, hiperbólica, boca
de desdém. O brilho do seu olhar, atrás do monóculo numa imperceptível rotação
contra o nariz adunco.
— E Otelo, meu general?
— Não é convidado. Veleitário
demais. À noite escreve o seu poema, sempre o mesmo desde há trinta anos!
- Dona Helena! Apresento-lhe
François Mazin, um jornalista de Paris...
E era erguer a taça a «Uma Guiné
melhor», a Portugal, à França! Que reter do sermão? Que eu, François Mazin,
diante do meu prato, não passo do rei desta «vitela enrolada», deste «recheio
de lebre à la Royale» e que estes pratos não passam talvez de «caganitas de
rato». Alarido. Falta A Marselhesa e o Chant du Départ.
Eles levantaram-se. Eu
levanto-me. Um certo coronel Fabião, um pesadão, quer fazer um brinde à
generala, mas esta adianta-se-lhe, muito protectora: «Happy birth-day Fabião!»
E naturalmente nós repetimos em coro: «Happy birthday Fabião». Um verdadeiro
concurso de elogios de pessoas que não deviam pensar a mesma coisa.
(...)
— Que calma, meu general! (Era
preciso dizer qualquer coisa...) Acrescento de repente, cretino: Não é?
Ele
vira-se. Monóculo, medalhas, guarnições, a túnica aperta-o na cintura. Esboça
um sorriso entendido, estava na sua contemplação, ele mesmo emissor, Marconi em
directo com o cosmos.
— A esta hora, diz ele, mata-se
algures. Viola-se, queima-se; e dizer que são os filhos da minha Guiné melhor!
Eu apreciava-o. Oh, meu Deus, a
nuca dele, em forma de feijão. Toda a sua impaciência, as suas hesitações
fechadas ali dentro. Capaz de todas as evasivas, susceptível, miudinho. O que
são os militares senão invertidos, sonhando com grandes holocaustos
homossexuais? Irá uma pessoa entesar-se com o aparelho inteiro, quando o
horizonte estiver vermelho? Eu tirava algumas conclusões. O «campo da Guiné»
servia a lenda spinolista. Espartilhado no seu helicóptero, julgava-se a
réplica de Dom Sebastião. Perdido, o rei é esperado porque nunca mais regressa.
Ora, o general tinha já resvalado para a política e, um dia, voltaria a Lisboa,
Dom Sebastião impostor e desmascarado como tal, e ao mesmo tempo chefe de
Estado meio verdadeiro. Como Delgado, como todos os generais portugueses,
queria ser Presidente da República e marechal.
Mas Delgado tinha consigo a
paixão, a inteligência testicular, bakouniniana, que só podia acabar com a
morte do herói marcado pela fatalidade. Enfim, era um verdadeiro conspirador.
Spínola, pelo contrário, ele mesmo demasiado escrupuloso, e por cálculo do
risco, deixava os outros conspirar por sua conta. Delgado e Cabral foram ambos
assassinados... por ordem de quem?...
Interpela-me:
— Eu podia tornar-me Presidente
da República guineense. As populações dizem até: Amílcar tem a pele negra e o
coração branco, mas Spínola tem o coração negro e a pele branca.
A fórmula era sedutora. Eu
desconfiava dela. Reencontrava-se a tentação portuguesa, desviar a Guiné, como
o capitão Galvão desviou o Santa Maria. Precursores em tudo, rota náutica,
aviação, captura de reféns, no dia em que todos os portugueses ficarem em casa,
será a sua dissolução.
— Meu general...!
— Sim.
— Meu general, o seu nome circula
pelos meios da oposição portuguesa. Contam-se muitas histórias acerca de si.
— Eu sei, eu sei... o destino...
(um pouco dramático) ... o destino...
— E a Guiné?
— A Guiné só tem sentido na
medida em que eu sou o seu comandante-chefe. Não passa da peça de um conjunto.
— Não tem o projecto de um livro?
— Olhe, arranje-me um editor em
Paris...
(...)
— Com certeza, meu general...
Tinha-se posto a repetir aquele
exasperante pá que corresponde em Portugal a uma maneira mais mental que
social, a um snobismo que o povo também apanhou, sobretudo desde os
acontecimentos de África. Apanhados de imprevisto, os portugueses são
indescritíveis, podem-se-lhes contar os pá.
— A Tricontinental, Mazin, pá,
pretende coordenar a actividade internacional dos revolucionários...
— Precisamente, meu general, o
que aconteceu ao capitão cubano Peralta que o senhor mandou prender?
— Não foi só ele, vários cubanos,
meu filho, pá. Na verdade, agentes do KGB, pá, a DGI cubana não é mais que o
KGB, pá, que impôs José Mendez Cominche para chefiar a DGI, pá. Posso mesmo
dizer-lhe que Ulisses Fernandez Estreda, chefe da quinta divisão da DGI, estava
recentemente, pá, em Conacry, pá, e assinalaram-me perto de Boe, a presença,
pá, de Joaquim Garcia Alonso dito «Camillo». Você pensa que nós nos batemos na
Guiné contra Cabral, pá? Contra a Havana, meu filho, e os serviços
soviéticos... Se você soubesse, pá! Vou dizer-lhe. Já tenho a Guiné às costas,
mas em breve terei o meu país, pá, 10 % do exército estão controlados pelo PC.
Oscar está na praça, meu filho. Oscar, um oficial do meu país mas que está
contra o meu país, um comunista histérico.
O adulto tem tendência a alienar
a infância. «Não, Otelo, tinha-lhe dito o pai, tu nunca hás-de ser actor. Como
eu, nunca hás-de representar Shakespeare...» Assim, tinha ele entrado para os
Cadetes, aos quinze anos, desejoso de saltar as etapas: «Mamã, eu quero ser
presidente da República!» Em Portugal, o exército dá oportunidades, prolonga a
política e a ela conduz. Esse era o lado optimista de Otelo: a Guiné seria a
sua oportunidade.
(continua...)

