quinta-feira, 15 de setembro de 2016

'Quinto Império' - excertos. Dias antes do 25 de Abril. 'Champlicano', Henry Jordain, as redes na sombra

(...) Respondia-me ela (Catarina Ataíde) que Spínola era um feaseur e que neste país se anunciavam constantemente tantos acontecimentos que nunca se davam. Nunca. «Mas o governo de Marcelo, quer fale do presente, do passado ou do futuro, bem pode fazer, que já não consegue nada.» 

Eu teria preferido que ela me desse informações sobre uns e outros, relacionada pela família com os meios oficiais, muito Mittel Europa, e sobre os quais corria aquele número de chavões que os franceses transmitiram às outras línguas. Mme. Bovary tinha substituído aqui o arsénico por doce de laranja. Ela esquivou-se: «Você quer saber o que eu penso, eu pessoalmente? Já não sei como me desembaraçar comigo mesma.» 

O Tejo dava-lhe vontade de se atirar. Situada ali, a casa dela estava no centro do debate português sobre o dentro e o fora, a luta entre o realismo e a epopeia, tal como a exprimem Os Lusíadas; Camões chama à aventura, mas o Velho do Restelo: não partam... 

Eu não insisti. Não possuía o código secreto do fado onde é preciso estar dentro das sociedades tradicionais para compreender as palavras que significam coisas tão diferentes, nem o da saudade que projecta o ser e as coisas fora do tempo, na imortalidade. Em frente dela, eu tinha ar de quê com a minha revolução mundial, que, precisamente, ameaçava abalar Lisboa e talvez perder a sua própria família, enquanto ela, portuguesa de gema, me propunha os Açores? Onde recomeçar com ela? 

Eu olhei para o relógio: 22 de Abril de 1974. Catarina acompanhou-me até ao portão e fechou-o pondo um dedo à frente da boca. 
A rua do Almada era diante de mim uma linha recta! 
Já só houve com Liebig uma troca de impressões vagas e respostas insuficientes de ambas as partes. E enfim, acabou-se, que alívio! 

(...)
Mas deixemos Lisboa, por algumas páginas; e François Mazin, mergulhado nos seus cálculos no Avenida Palace, à espera que a Internacional gaullista se deslocasse a Portugal, candelabro do Apocalipse. 

A África portuguesa estava numa viragem. A ONU, a 22 de Novembro de 1973, tinha reconhecido «O Estado soberano da Guiné-Bissau». Os oficiais estavam desencorajados, lugubremente envelhecidos, pensando que fazer já não tem sentido, que nenhuma acção tem finalidade. E volta-se a Os Lusíadas, ao velho respeitável do Restelo, o Salazar de 1930, sem visão do Império e para quem a África não passa de uma palavra: Costa de África, terra dos exilados políticos e dos assassinos profissionais reagrupados em Curibecas, sociedades secretas que bloqueiam a colonização em proveito de práticas ainda mais sinistras, mais nocturnas e mais negras. 

Quando Paiva Couceiro, governador de Angola, e o seu sucessor, Norton de Matos, sucessivamente pedem por carta a Salazar os meios para ali criarem um novo Brasil, nem nada! Este nunca lhes responde e demite-os um após outro. Mas, logo que em 1961 os primeiros tumultos rebentam em Luanda e em Uíge, o Velho despacha as suas Forças, julga-se Vasco da Gama. Tarde demais! 

O Ultramar escorregava para o atoleiro. As tropas especiais do conde Z... nada poderão. A partir daí, o deslaçar, as normas desnorteadas. Catrapuz, Os Lusíadas! Não se resumia a salgalhada da multirracialidade a uma abstracção? Casamentos interraciais, mas nenhum preto ocupa um lugar de responsabilidade. Simples pincelada de paternalismo. As Curibecas são donas do território. Um rural, este Salazar!

'Champlicano'
Certos oficiais fazem tudo para que aquilo falhe, pessoas como Costa Gomes que contam no seu tempo mas não ficam na história. Chefe de Estado-Maior, repete nos seus comunicados, nas suas declarações, nos seus discursos, o que é preciso dizer, com uma uniformidade de baixeza exemplar a todos os níveis, ele a quem tanto custa exprimir-se, pegando-se à política de Caetano, esse a quem tudo pode atingir, tiros de espingarda e maçãs podres. 

Após dez anos de guerra esquecida, Costa Gomes assopra-lhe, dizem, a declaração das Caldas: «É impossível abandonar tudo para dar lugar a um punhado de aventureiros.» Instigado por esta espécie de Padre José [Joseph de Tremblay, conselheiro do cardeal Richelieu, conhecido como a «Eminência Parda.» (N. da T.)], e de acordo com a PIDE, tinha confiado aos militares a chefia dum gabinete de «Operações pontuais»; uma central instalada em Bissau, donde e para onde toda a espécie de maquinações iria circular no mundo. 

O coronel Henrique Miguel Champlicano estava à testa deste gabinete alcunhado «Sociedade do Prego», sem que alguém jamais se tivesse atrevido a aprofundar o sentido daquilo. Daí a expressão: forjar um prego para o seu caixão, sempre que a ocasião se apresentava. Champlicano, um homem doce, apagado sob a sombra de Spínola a quem informava só o bastante para não entrar em confidências. A sua ideia fixa: destruir, e por todos os meios, a subversão, onde quer que ela estivesse. 

Tanto Spínola era tributário da sua casa de doidos quanto Champlicano operava sem escrúpulos com a fria determinação do crente, na certeza de que uma minoria pode vencer tudo. Só ele designava as vítimas, organizava os atentados, armava as ratoeiras, desinformava, mandava os seus agentes insinuarem-se, pouco a pouco, na confiança da pessoa a suprimir. Se Teresa de Ávila tivesse reagido, ele mesmo lhe teria posto uma almofada em cima da cara e nela se teria sentado o tempo necessário. 

Agentes duplos, executores de cordão negro, espiões, informadores, os portugueses são tão simpáticos. Sem ódio, mas cheios de interesse e de piedade pelas futuras vítimas, sabem levar o curare, ou atirar com um dobrar de rins um tiro de pistola no bandulho. Missão cumprida, vão sentar-se à mesa do café, como verdadeiros clientes sérios de Courteline soerguendo os ombros e dizendo para consigo: «O que é que tem?»

À força, os chefes históricos dos movimentos de libertação vão desaparecer um a um. E os assassínios são envolvidos por um mistério tal que arrastam no seio desses partidos purgas e vinganças internas. Depois da morte de Mondlane, presidente da Frelimo, que foi aos ares ao abrir uma bíblia armadilhada, Dar-Es-Salaam torna-se um pinhal da Azambuja. 

Em Kinshasa, os chefes da FNLA mantêm guarda-costas pagos pelos outros para os vigiar. Viriato da Cruz, fundador do MPLA, um mestiço não arrogante, morre de desespero em Pequim por causa de Neto que lhe fecha a entrada em África e Amílcar Cabral é abatido numa estrada. Para Lumumba, Champlicano tivera que exigir à CIA uma droga capaz de «matar um leader africano», a qual eles tinham desencantado em Fort Derrick, Middlesex. 

(...)
Mas quando perguntavam a Salazar se a PIDE tinha realmente o fabuloso poder que lhe atribuíam, ele respondia que as lutas da oposição eram bem mais eficazes que a sua polícia. Explicar-se-á talvez assim a misteriosa evasão da prisão de Peniche de Álvaro Cunhal, que vai imediatamente minar a oposição nacional no exílio, sabotar as tentativas do general Humberto Delgado. É ele quem o aconselhará a ser operado a unia hérnia em Praga. Mal o general escolhera o cirurgião soviético, o chefe do Partido Comunista Português vestira-se de preto. 

Spínola fez absoluta questão de meter-se na Operação Conacry, partindo do princípio que, sem ele, todo o subalterno é um incapaz forrado de mitómano. Mas tem escrúpulos. Solicita, por precaução, o apoio dos serviços franceses e alemães. Os habitantes de Conacry não estão prontos a esquecer a repressão cega que seguiu o fracasso spinoliano. Massacre de Barry Ibrahima, Ray Antra, Barry Diawadou, Traore Samba Lamine. Precisa e eficaz, a Sociedade aceitava no entanto as exceções, transgredindo, à sua custa, a regra do assassinato judiciário que tinha sabido aperfeiçoar. Em 1973, Champlicano estendia as suas redes: do Congo-Brazzaville ao Camarão, de Túnis ao Gabão. 

Melhor que ninguém, estava informado do mal-estar interno das Forças Armadas, efeito duma larga subversão telecomandada, uma em proveito dos americanos com Spínola e Kaúlza, a outra em proveito da URSS com Álvaro Cunhal e Oscar. Champlicano sabia que Spínola era incapaz de ter êxito sem Kaúlza, porque o procônsul da Guiné correria o risco de confundir a política portuguesa com a sua política colonial. 

Sabia também que Golbery, o general brasileiro, e o seu «Agrupamento secreto de acção política internacional» queriam apressar a criação dum bloco brasilo-americano, ao qual adeririam Portugal e os seus territórios de África independentes. Nessa altura, o capitalismo de Estado evoluiria para um certo nacional-socialismo. 

Golbery: antigo chefe do SNI, criador das organizações anti-bandeirantes e da CODI (Centro de Operações de Defesa Interna). Os brasileiros são para os americanos o equivalente aos cubanos para os russos, mudas de agentes e de mão-de-obra. 

Ao mesmo tempo, Guilite Coutinho, presidente da todo-poderosa Associação dos exportadores brasileiros, fazia castelos no ar com os seus interlocutores portugueses, dirigentes da CUF, delegados de Champalimaud, os quais jogavam, em nome do futuro «novo regime», a implantação luso-brasileira em Africa. 

De Lisboa a Bissau, de Brasília a Washington D. C., de Madrid a Pretória e de Zurique a Salisbúria, reinava uma actividade intensa e tenebrosa de políticos, militares, propagandistas, negociantes, professores, jornalistas, funcionários. Todos, nesta atmosfera, tentavam derrubar o Estado marcelista brandamente, para o substituir por uma social-democracia antes que fosse tarde demais. 

Mário Soares viajava pela Europa do Norte, Bulhosa, o petroleiro, fazia soar o rebate dos pedreiros livres, Perdigão, Palma Carlos, que importa a cor política. 
Mas Champlicano não contava a ninguém que Moscovo estava na corrida com o seu Partido Comunista Português, instrumento natural da sua política exterior. Cunhal, em Praga, manobrava os cordelinhos da acção soviética: um era o comandante Varela Gomes, e o outro, o coronel Vasco Gonçalves, dito "óscar". Entre os dois — prestando-se a sua acção a interpretações diversas —, o general Costa Gomes mantinha relações clandestinas com toda a gente, compondo ainda as declarações oficiais de Marcelo Caetano. 

Estes homens tinham sido alcunhados «o trio de Beja», tendo os três cooperado na famosa conspiração contra Salazar que visava substituir a integração por uma política colonial avançada. Não só chegavam subsídios secretos até às células comunistas portuguesas, mas também já tinha sido concebido um plano de restabelecimento económico para o caso do êxito do poder popular. Provinha de um certo «Comité de Estado soviético para a coordenação dos assuntos secretos», encarregado de apoiar os países europeus com economia em pleno desenvolvimento, que corriam o risco de ficar isolados do resto da Europa depois da sua viragem à esquerda. Um piano Marshall imprevisto! 

Champlicano sabia que Moteikine era o secretário-geral desse «Comité», delegado para as relações entre Moscovo e Cunhal. Que Tsoukanov, secretário particular de Brejnev para os assuntos especiais, acabava de se encontrar com Cunhal em Praga, bem como Mazourov, da Comissão de controle político do C. C., o último pro-sector do grupo Garcia Gomes-Lister, representando este a tendência minoritária à testa do PC espanhol ortodoxo (os maioritários Santiago Carrillo e Manuel Azcarate seguem uma linha mais liberal). 

O que explica muitas coisas, pensava Champlicano, intoxicação, desinformação. Mais tarde, só em intenção do grande público, fornecer-se-ia informação para criar um clima de opiniões favoráveis aos comunistas. Na Informação, não há diferença entre rumores e certezas. Antes de esmiuçar, tem que se ter tudo em conta. Até 1969, a central da subversão antiportuguesa estava na Suíça, em Lausana. Que tinha sido dito na reunião secreta respeitante a Portugal, realizada em Prades no convento de São Miguel de Cuxa? 

Champlicano lamentava que ao nível da informação o seu serviço não valesse o dos israelitas. Formados na escola inglesa de Orde Wingate, na Palestina sob mandato, tinham criado o famoso «Departamento C», de Comunismo. Sabia enfim que um terceiro movimento se acrescentava aos outros dois: o movimento dos capitães, saído da própria deliquescência do poder. Tudo tinha partido de Bissau. Uma dezena de oficias reunidos para discutir uma medida vexatória que lhes fora aplicada, tomavam consciência de que, agrupados, eram uma força. 

E de repente põem-se a votar resoluções; a escrever ao ministro da Defesa, já sem nenhum respeito pelas vias hierárquicas. Lisboa detém-nos: começo da fronda. Os oficiais repartiam-se em duas categorias: a primeira, privilegiada, dos generais e dos estudantes. Estes escolhidos à vista dos diplomas, aqueles nomeados pelos ministros a seu bel-prazer. A segunda contava os inumeráveis plebeus, os oficiais subalternos. Estes últimos, prejudicados por uma selecção darwiniana, sentiam-se próximos dos sub-oficiais, a quem se estendia a sua protecção contra os oficiais superiores. 

Ajudando-se mutuamente, os capitães descobrem a tomada da palavra e verificam o seu dom de persuasão. Otelo de Carvalho, Melo Antunes, Vítor Alves, Osório, o futuro! A partir daí, já não se dominam, são propriedade da Revolução nascente. Quem havia de dizer! Estes rapazes, até aí, serviam-se de perífrases para se dirigir aos superiores — o senhor que tem instrução! Vão metamorfosear-se, chegado o dia, nem mais nem menos, em secções de assalto. Mas o seu populismo fará deles epígonos de Rõhm, de Hedilla, de Castro, a mafia castanha dum certo Terceiro Mundo, de cortejos de autos-da-fé e de campos de rectificação. 

Henrique Champlicano não precisava de procurar as coisas, elas saltavam-lhe à vista. Os ventos revolucionários semeados pelas grandes centrais americanas acercavam-se de Portugal. Um único objectivo real: a URSS e a sua esplanada oriental. Era por certo permitido refletir sobre o estado da União, embora a União tivesse sabido gerir tão habilmente a Primavera da Boémia. Quando Spínola o interrogava, Champlicano ficava impreciso. Os seus próprios amigos figuravam nas suas listas. 

Como fazer compreender ao general que os Comités anti-Vietname tinham sido apenas um dos elos da subversão americana cuja acção principal visava Varsóvia, Budapeste, a Geórgia a longo termo, as repúblicas da Ásia, Moscovo? Ao abrigo da tempestade da Vietnam Solidarity Campaign, tinham preparado o encontro Nixon-Mao, que tinha como princípio o isolamento que a China deveria impor à União Soviética. 

Encontravam-se, nos bastidores, tanto Helms, patrão da CIA, como o almirante William Raborn, ligado aos serviços do Pentágono, Walter Reuther, da United Automobile Workers, ou J. Schiff, o financiador de Trotski, o grupo Bildelberg por inteiro naturalmente, o grupo Pugwash e a revista americana Rampart, que, em 1969, se tinha atrevido, não sem razão, a publicar os documentos secretos da NATO. 

(...)
A estrada de Ratoma, Guiné-Conacry, é tranquila e o Volkswagen corre na noite. 
Hesita um momento, depois ergue a arma e dispara. As ordens, no entanto, proibiam matar Cabral, mas mandavam levá-lo a Bissau, onde o esperava o grupo operacional de Champlicano, acrescido de três personalidades chegadas nessa mesma manhã de Lisboa para receber o carregamento: — O vice-almirante Pereira Crespo, ministro da Marinha; — O general Costa Gomes, chefe de Estado-Maior inter,armas; — O major Silva Pais, chefe da PIDE-DGS. 

(...)
Quem matou o general Delgado? Ou antes, quem e denunciou, mandando-o assim para uma morte certa? Champlicano? Isso é possível! Existirá um elo entre os diferentes capítulos da morte de Cabral, de Delgado e de Mondlane? Na realidade, Champlicano valia mais que a sua paixão pelo serviço. 

HENRY JORDAIN
Na véspera dos acontecimentos de Lisboa era com Henry Jordan, do Joint, um amigo de infância, que ele Champlicano teria gostado de discutir sobre a «vaga revolucionária» e os seus riscos calculados. Ao contrário de Delgado, Jordan era um homem apagado. Apaixonado pela dedução e a análise, comprazia-se a examinar o ser ao microscópio. 

Champlicano tinha-o encontrado pouco depois, graças às redes portuguesas do BND alemão, como chefe do American Joint Comittee, um organismo utilizado desde 1948 para cobrir as missões de espionagem no Leste. Quais foram as relações entre certos elementos da oposição portuguesa e a PIDE?

— Quem traiu o general Delgado? 
— Qual foi a responsabilidade do dr. Fernando Piteira Santos, antigo chefe do FPLN? 
— Quem é este Henrique Cerqueira ? 

(...)
Henry Charles Jordan dirige-se a Praga a 16 de Agosto de 1967, consciente dos seus deveres, das suas responsabilidades e da sua missão precisa: derrubar o regime de Novotny. Em Praga, o correspondente de Henry Charles não é senão Goldstiicker, director da Ikerarni Noviny, que empreendeu lançar no seu jornal a primeira campanha de democratização. Objectivo estratégico: soprar os ventos, pródromos dos cataclismos. 

Mal se instalara no Hotel Esplanade, Jordan percebe que é seguido. No segundo dia, há tantos agentes do STB checo nas ruas vizinhas que ele decide ficar no quarto e sair depois da meia-noite. 

E em vez de ir a casa de Goldstücker, dirigir-se-á directamente a casa de um dos membros mais seguros da organização Voska que o conduzirá a Dubcek. Chove a cântaros. Ruas vazias. O bairro dorme. Ao atravessar a ponte Carlos, ele passava do gótico ao barroco, da burguesia à aristocracia, da Reforma à Contra-Reforma. Os relógios astronómicos do castelo marcam as horas de um tempo que em breve será volvido. Heydrich foi assassinado nesta ponte no Mercedes preto com que sonha António de Sousa, aliás Álvaro Cunhal, que dorme não longe dali, instalado em segredo. 
(...)

Meia-noite. Conacry está isolada. E às cinco da manhã, os navios do PAIGC, perseguidos pelas vedetas guineenses, são inspeccionados. Da Costa e Inocêncio Kani são presos. 
(...)


A 21 de Agosto, o cadáver de Henry Charles Jordan é pescado no Moldau, com um atacador à volta do pescoço. Os polícias dirão: «Pois bem, não temos provas.» Enviarão à família a carteira, o passaporte e uma página arrancada a um jornal ilustrado, encontrada dobrada no bolso do morto.
(...)


Uma vez em Badajoz, o general Delgado decide dirigir-se para uma quinta isolada parto da pequena cidade de Olivença. Por seu lado, a secretária, Arajaryr Campos, instala-se em Vila Nueva del Fresno, a trinta e cinco quilómetros. Tinha-lhe dito: «Desconfie desses amigos com quem tem que se encontrar.» Teve tempo de sacar o revólver e ferir um dos seus agressores. O seu cadáver foi transportado de carro para Vila Nueva del Fresno onde o esperava, debaixo duma árvore, o cadáver de Arajaryr Campos, com um atacador à volta do pescoço. Eis, realmente, algo que se parecia com um assassínio! 

Naturalmente, há várias versões da morte de Delgado, entre as quais aquela segundo a qual, raptado em Badajoz, teria sido transportado vivo para Portugal pelo falso dr. Castro e Sousa, na realidade Ernesto Lopes Ramos, que tinha como cúmplice o autêntico adido naval Fernando Castro Araújo e o professor Mário de Carvalho encarregado de fazer crer ao general que «a rolha precisava dele para saltar». 

Delgado gostava dos códigos. Via-se, com um milhar de partidários, descer do céu sobre Lisboa, apoderar-se de tudo, tudo partir. Não era exactamente um adversário, mas figurava nas listas de Henrique Champlicano e nas de Álvaro Cunhal. A maior parte dos acontecimentos têm menos importância que a sua projecção. A morte de Delgado, a de Cabral servem a oposição que se põe a interrogar com frenesi, evitando as questões essenciais. — Quem denunciou o general Delgado? Socialistas ou comunistas?

Nas vésperas do 16 de Março de 1974, Henrique Miguel. Champlicano interessava-se sobretudo pela parapsicologia e pela hipnose de Charcot. Para vingar a morte do seu amigo Jordan, projectava o rapto de Zednenek Redjek, investigador de medicina geral na Universidade Carlos em Praga. Queria que o Kapaudjiu, embaixador da morte com o cordelzinho, pudesse agir sem se deslocar... 

(...)
Lee Harvey Oswald não agiu sozinho. E quem matou Jack Ruby, que matara Oswald alguns dias depois do assassinato de Kennedy? Sabe-se que dois informadores da CIA estavam presentes nesse dia em Dallas, um dos quais era Frank Sturgis, Frank Fiorni de baptismo, nome que tinha ido buscar ao herói de Rimini, Run de E. Howard Hunt. (O próprio romancista montará, depois da baía dos Porcos, a ratoeira Watergate.) 

Segundo a Comissão Rockefeller: as sombras que se distinguiam nas fotografias, e que faziam crer na presença de Sturgis e de Hunt, seriam apenas um efeito óptico, ramagem... talvez. 

(continua...)

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