domingo, 11 de setembro de 2016

ORLANDO CRISTINA, JORGE JARDIM E KAÚLZA - excertos de 'Quinto Império', de Dominique de Roux

(...) O homem, pensava ele, tem sempre algum defeito hereditário por onde o destino o pode atacar. A epilepsia de Luís XV, a gordura de Napoleão que divide em duas a sua história militar. Apenas, parece, Orlando Cristina escapava a esta análise. O seu «general» tinha no entanto um ar de zé ninguém. O que não impede que em Mecanhelas, capital dos macuas, aldeia desconhecida dos mapas, era o rei como Lázaro Kavandame na terra dos macondes. Lá longe, perto da fronteira do Malawi, nenhuma notícia, nada chegava nem partia. Mas, em Vila Gamito, em Massassa, pequenos aquartelamentos no rio Rovuma, combatia-se em nome de Cristina, respeitando os seus preceitos: «Atirem para os joelhos, para os ombros, mais valem feridos que mortos.»


E esta noite em Mecanhelas, o rei pergunta-me: 
— Quer antílope? Macaco? 

Põe fervor em tudo, excepto em política. Avalia Jardim lucidamente e, quando fala nele: «Como é que eu sozinho o podia modificar? Eu não sou o senhor, eu.» 

Desdobrou um mapa da região sobre a mesa do posto. Tapa com o dedo o sítio onde devia ser Mecanhelas. Explica: «E ali, ali, mesmo ali, o sítio é calmo. Nada, já não se passa mais nada. Os chefes da Frelimo foram degolados pelas populações. Já não há operações no sector. Devo dizer-lhe, os soldados portugueses, não os quero. São barulhentos, porque têm medo, quando não são estúpidos. Os paraquedistas, piores, que os outros. Estafam-se a andar 100 km, quando se tem que andar com conhecimento de causa. Percebe, com conhecimento de causa. Eu ajo doutra maneira com os meus homens. Quando a Frelimo está na mira, ordeno uma pausa. Quando chove, é mais delicado, o cheiro da mandioca não fica. E, de madrugada, a aproximação é perturbada pelos pássaros. Para a emboscada, não há nada como o crepúsculo. Tempo e terrorismo escapam à organização. Jorge sabe-o, mas quer ser o presidente de Moçambique, e deita mãos à obra cedo demais. É obrigado a apoiar-se no exército que, esse, pensa, mata e perde. 


Eu cá sou civil e os meus homens são civis, oitocentas espingardas, velhas mausers. Por ser coronel, Dionísio mata os prisioneiros. Eu, Orlando, nem sequer os amarro. Deixo-os correr em frente. E, quando cá voltam, dou-lhes escudos para comprarem uma cerveja. Como é que eu sozinho posso exigir alguma coisa quando Jorge quer ser presidente, percebe? Não é culpa dele, é político. Quando for presidente, há-de ter tempo que chegue, os lampiões, os Rolling Stones, para aterrorizar o mundo. Eu digo-lhe: Jorge, a solução é patrulhar de Vila Cabral a Cabora-Bassa. A Frelimo pesca-se à linha. Deite-lhe o anzol exactamente onde ela está e não onde devia estar em teoria... 

Kaúlza! Ah, esse! Estava melhor no Vietname. Serem oficiais, o que é? Pessoas que vêm para as terras conquistadas e pronto. Tudo para a parada. Depois de beberem, pilham. Intervêm publicamente, como eles dizem. Mas eu com os meus macuas e apesar da pele branca, sou da família, percebe. Trago sempre comigo grandes pastilhas, percebe, remédios de 11/35 com tambor. Sempre cacei para viver. Antes do homem, procurava o marfim. Vendia anualmente 200 toneladas de elefante às companhias do chá, carne seca, não é? 

Os elefantes? Basta saber distinguir no monte a fêmea mais velha e atirar suficientemente bem, ela cai de joelhos sem um grito. Os outros agrupam-se à. volta dela, à espera que acorde. Um dia, matei vinte e oito. Quer um leão? Procure os búfalos. Quando formam um círculo, a fera está lá. Vai rugir. Espere que as cabeças se enervem, que o grupo comece a bater com os cascos. O rebanho põe-se em marcha e, zás, você vê o leão saltar sobre o último do grupo, partindo-lhe a coluna vertebral à altura do pescoço. Uma só bala para os dois... 

Ir-me embora? Deixar esta terra? Impossível! Mas se Jorge se obstina a andar com Kaúlza, em pandilha, mais vale pedir-lhe um passaporte para o estrangeiro. Eu continuo sozinho. Aqui tudo está calmo. Não há slogans, linha política, mas grupos de caçadores, que não gostam nem da Frelimo nem dos portugueses. Jorge, percebe, a imaginação perde-o. Eu já não vou nas fitas dele. De manhã à noite tinha-o à perna, uma ideia por segundo. «Olha, Orlando, tu vais atacar o Barclay's Bank de Dar-Es-Salaam, na noite de sábado para domingo, os polícias estão bêbados.» 

Doutra vez, quis ridicularizar Nyerere, no dia da sua festa nacional. Convoca-me à Beira. O piloto dos comandos do avião devia ter bebido uma garrafa de gin para arranjar coragem. Descolámos sobre uma asa, voámos a rasar depois da fronteira tanzaniana, de repente, a cidade, o mar. «O teu sonho, Orlando, Dar?» Ziguezague, o patrão com o nariz enfiado no mapa de Dar-Es-Salaam e a pedir ao piloto que seguisse pela rua à esquerda, a avenida à direita. Acabamos por encontrar o estádio de futebol, mil pessoas, os jogadores. Jorge abre a janela do cockpit e atira uma segunda bola — uma bola fabricada de propósito no Paquistão, fez-me ele notar, e, mais tarde, que uma das equipas era chinesa. 

Eis Jardim! Agora com os seus disparates, a Frelimo está em Cantina Freitas, chave do Zambeze. Linda brincadeira! Jorge em breve vai ver a vida andar para trás! Venha, vou levá-lo a caçar o hipopótamo.» 
(...)

Tinham-me dito que esperasse na Beira, Hotel Embaixador. Jorge Jardim, eclipsado com Orlando, Kaúlza em conferência em Nampula, a cidade militar, o vazio militar. Os jornais exageram os pequenos acontecimentos. Porque um comboio descarrila sobre uma mina, eles amotinam os Lusitos, a população branca, contra o exército e a Igreja. E, não tendo a administração sabido remeter o acontecimento para o seu devido lugar, Jardim encarregava-se disso na sua imprensa, abrindo as suas colunas aos seus amigos africanos, de Nacala ou de Cabo Delgado. Ele era tranquilizador, ele. 

Relvados, praias desertas do Oceano Indico, para quantas vivendas coloniais, construções inacabadas (o Hotel Embaixador quase vazio) ? O Banco Nacional Ultramarino, pelo jogo da balança de pagamentos, travava os investimentos, limitava as importações. Esta balança, cujo défice atingia o dobro da circulação fiduciária. Mas embora o governador Oliveira, metade do cérebro arrancado acidentalmente por um machado, escrevesse, à maneira de Houphouët-Boigny, máximas no Notícias: «O futuro só a Deus pertence», o presente, toda a gente sabia, pertencia ao lobby do algodão. Privilegiados, lançadores de pó nos olhos, eram vistos de Lourenço Marques a Quelimane, o viveiro de ostras do Tout-Moçambique, ao diapasão da tolice universal. 

A vê-los abusar da paciência dos pobres, divertindo-se, eu pensava nesta advertência: «Já não precisa o mundo das antigas palavras?» E esta situação, acrescentando-se à questão da independência nacional, acelerava a crise do regime. Reinava na Beira uma inquietação ao mesmo tempo afável e necrófila na imensa maioria das pessoas sem opinião que nada pensam, nada têm, nada são, a quem nunca nada acontece. 

Eu comia, deitava-me, neste mundo sobre o qual pesava o instante. As minhas noite acabavam na Teresa Torga, bar de mondongas traficantes de liceais. Rui Patrício Gonçalves, o chefe da PIDE que, nas vésperas de 1789, teria sido Cagliostro, tinha mesa franca na cave. Torpeza inteligente, todos os dias eram dias de festa para ele, sobretudo à tarde no seu escritório da prisão da Machava. 

Para o interrogatório, os políticos entravam e saíam. As mulheres, essas, à vista dos cães, tremiam como pavilhões de navio corsário. Mais um polícia que só acreditava na polícia. Gostava de contar como tirava as amígdalas aos traidores, como lhes metia água a ferver pelo recto, e a história do lança-granadas elefante, da matraca que parte os ossos até ao ombro, o triturador, a «queda» no pátio. Dizia ele: «Eu sou dotado para os contactos humanos. Comigo, é logo. Eu falo. E eles falam em função do gravador...»

Depois da meia-noite, Gonçalves, que como bom português, tinha medo da noite — a hora em que o vento sopra, em que a terra pode tremer —, propunha soluções. Para ele, Moçambique era nem mais nem menos que o cancro da África austral. Era preciso extirpá-lo. Eu estafo-me a repeti-lo. Porque hesita Kaúlza em dar carta branca à PIDE? Nós somos os melhor colocados para a operação sanitária. O que há de mais atroz que um colono esventrado ou uma aldeia feita em picadinho?... E você, diga cá, a propósito, François, hum... Sabia que eu sei que você não se chama Mazin? E desatava a rir. Quando começava a encarar-me por detrás das suas grandes sobrancelhas e das suas grandes pestanas, ajustando continuamente o revólver com um jeito da barriga, eu sorria, bastante idiota, tomando consciência do equívoco em que vivia. 
«Não se chama Mazin»... «Não se chama Mazin»! Bastava virar-me para contemplar uma miséria de outro género. 

Mulheres, de rabo à mostra; mantinham-se de pé, no seu Décameron, de costas, cotovelos apoiados numa calha de madeira, separadas da sala por uma cortina de contas. Espojavam os traseiros. Aquilo custava um conhaque. E elas, entretanto, fumavam uma cigarrada, trincavam amêndoas, tagarelavam. Um estábulo. E a língua das vacas nas partes mais saborosas. «Não se chama Mazin»... «Não se chama Mazin»... Oiço ainda o velho disco. 

E no campo de aviação, as doze virgens Jardim saltavam de pára-quedas de manhã à noite. Eu mesmo, onde quer que estivesse, entrevia as doze Teresas de Ávila que, para salvaguardar a beleza e preservar o hímen, não paravam de regressar do cosmos, carolas derivantes. Cadetes, oficiais espiavam as suas trajectórias. Quem seria o primeiro a oferecer as florzinhas, a sussurrar as palavrinhas doces? 

(...)

Ao largo de Quelimane, a ilha de Moçambique. Vento! Rolos, espuma sobre a areia. A praia, é isto. E cada vaga se quebra sem demora sob o efeito da gravidade, acabando a maré de marcar a divisão do tempo. As proas corriam em pleno azul, isoladas no Oceano Indico. Agora, eu estava resolvido a ajudar até ao fim a Revolução. De súbito, ela era a minha vida. Em todo o combate, cinquenta e um por cento das decisões repousam no acaso, e o resto é destino, degradação inelutável. 

Ilha sossegada. Grupos de mulheres, a cara branqueada com pedra esfarelada, descem à praia ao meio-dia e avançam pelo mar puxando redes. As gaivotas arrebatam, retalham os peixes que saltam, voando por cima dos ombros e das cabeças. A água devolveu aos seus traços a cor negra que marca o sinal da retirada. 

Jorge Jardim chegou de repente, mastigando pastilha elástica, fumando um cigarro, coberto de gadgets, os seus eternos recursos, cinto de crocodilo, revólver, óculos fumados, navalha Montblanc, electroblitz, walkie-talkie, pistola de gás. 

«François, bom dia! Kaúlza vem ter connosco daqui a uma hora. Eles tornaram a fazer saltar o comboio do Malávi... (Um silêncio.) É verdade que Kaúlza está um pouco menos informado que os outros. Tive que o atacar ontem no meu Notícias, aquele a quem os soldados chamam «Pantera cor-de-rosa»! Começa-se a falar de massacres cometidos pelas suas tropas na região de Mucumbura, homens de um lado, mulheres do outro e os miúdos no meio. Desde aí, os padres estão amotinados, missões protestantes, missionários de Burgos, capuchos, em breve o bispo, os mesmos que informam e abastecem a Frelimo da zona cinco. Quantas vezes disse eu a Kaúlza que era preciso dar cabo deles! Orlando encarregava-se disso. Começava-se pelo bispo. Resposta de Kaúlza: «O público é que julga.» 

Se realmente houve massacre, e há dos dois lados, verá que Kaúlza vai negar, com medo da opinião. A política dele falha. Não sabe o que quer. Saberá o próprio Caetano? A Frelimo não hesita e eu também não, eu que comando a Organização. Kaúlza tem que assumir responsabilidades! Ou proclamamos nós os dois a independência de Moçambique contra Lisboa e eu confio a presidência a Miguel Murupa; ou, Kaúlza, com a aviação que lhe é fiel, obriga Caetano a ceder-lhe o poder em Lisboa, deixando-me aqui as mãos livres. Eu estou ao corrente das manigâncias de Spínola, das de Schultz, da operação «capitães», do trabalho do PC... 

E eis Jardim no seu solilóquio, no fundo persuadido de nada, não acreditando em nada, essencialmente jornalista, obcecado pela informação e pelo comunicado, e como todos os jornalistas, secretamente tentado pelo poder. Encarnava o boato, era um rastilho de pólvora. Assim que chegava a qualquer parte, polarizava os rumores neste país que, devido aos acontecimentos, se resumia a afirmações contraditórias: os mais anódinos propósitos de Kaúlza arriscavam dar a volta à terra. A era do jornalismo: é já só o que há! 

Eu seguia o curso das minhas ideias e, as palavras que Jorge trocava com o seu walkie-talkie, não as percebia... Alfa Lima... Fox-trot... o zzzzz da sua máquina antimosquitos misturava tudo. Ele tinha tirado os binóculos e colocado a bússola em cima do mapa da ilha, preparando-me uma história: 

— A mordedura da cobra capelo é mortal, sabe, mas o cianeto é mais expeditivo. Orlando não perdoa quando vacina. Quanto aos macacos... He God! 

— Que tem, Jorge? 

— Muito forte, o Kaúlza! O avião dele anuncia-se a Oeste. Não o veremos aterrar... Sim, os macacos, eu explico-lhe. O macaco treinado foi uma das armas mais seguras empregues pelo general Wingate na Birmânia. Centenas de macacos de Langur. Mandava-os em reconhecimento antes de cada ofensiva para enganar os soldados japoneses e obrigá-los, ao dispararem, a revelarem as suas posições. Vou propor a Kaúlza que forme macacos-comandos e que os largue na fronteira da Tanzânia. Os americanos querem vender-me o robot Ruppert. A maçada é que, ao contrário dos macacos, ele não come e não pode, portanto, além do mais, devastar as culturas... 
(...)

— E então? Cortante, a voz do general Kaúlza de Arriaga, comandante-chefe de Moçambique e que tinha abandonado, desta vez, o indirecto à portuguesa. Exactamente Toukhatchevski passado da guarda imperial, por cima da cabeça de Trotski, à guarda avançada do Exército Vermelho; gorducho, pele esticada e cor-de-rosa, fardado, ali à nossa frente, luvas atiradas para cima do mapa. 

— Jardim! O Notícias não me interessa! — ... (Um silêncio.) 
— Jardim, o que é que diz o Notícias, leia-me tudo. — ... (Um silêncio.) 
— Ouça, Jorge, vamos tramar-nos outra vez. 
Para escapar à pergunta, Jardim respondeu uma coisa qualquer: 
— Senhor General, deixe-me falar! 
— Porque... 
— O senhor é um político, Senhor General; eu cá tenho os meus princípios. Pediu-me que fosse o primeiro Presidente de Moçambique. Ora, esse cargo implica, a meu ver, o de ministro da Informação. Pois bem, suponha que a crítica a Arriaga no Notícias vem do ministro da Informação. 

— Porquê, Jardim? 

— Não é tempo de definir a nossa política e levá-la a bom termo? Deixemos, Kaúlza, de brincar ao Spínola, que ata os fios e se baralha, conspira e diz a quem o quiser ouvir: «Fabriquem-me um partido e será o meu.» Nós poderíamos talvez combinar um programa comum que François entregaria ao grupo de Lisboa... 

O problema acabava de ser posto mas eles fugiam um do outro. A opinião de Kaúlza era mais matizada, a sua resolução inquietante de reservas e considerações. Tudo aquilo era verdade, mas a prudência aconselhava a pesar os prós e os contras, a interpretar, a comparar, a sentar-se, por exemplo, em volta de uma mesa e estudar as razões da derrota americana no Vietname. Kaúlza era partidário do reforço do corpo expedicionário português em Moçambique e em Angola, e depois, da criação com os sul-africanos de dois batalhões helitransportados. 

O conde Z... encarregar-se-ia de obter o material da NATO. Ficava o problema dos aviões de transporte, os Hercules. Pois bem, trocá-los-ia pelo cromo da Financeira Portuguesa. Não tinha perdido o seu tempo. O seu amigo McGregor, presidente da United Aircraft, conhecia agora todos os aeroportos secretos do Norte de Moçambique. E contra os protestos do Congresso americano, o mito da rota do Cabo! 

— Se você pensa, Jorge, que eu acredito na rota do Cabo... Deixo isso para o embaixador Stevenson ou para o almirante Bierman. Os senadores são uns idiotas: «Again with your permission, Mister Chairman, I would like to include Jane's description of these Bell helicopteres in the record of these points... Está a ouvir, Mister Chairman? (Forçava a pronúncia portuguesa.) 

A América é o Império romano a começar pela decadência.» Com precaução, acrescentara Arriaga, dupliquemos, tripliquemos os milicianos de cor. No dia do golpe de Estado, hão-de servir-lhe, Jardim, para desarmar o exército. 

— Os capitais viriam por si sós. A política americana em África, uma infantilidade, pfft! e McGovern batido para sempre. Os americanos, em todo o caso, precisavam de café, petróleo. O porto da Beira estava cheio de mineraleiros US que carregavam o cromo da Union Carbicle. Que lhes importavam os senadores, a McGregor e a ele: «... What in blazes is Clark McGregor... doing in Mozambique, his meeting with General de Arriaga the Portuguese commander, and his tour of the "pacified areas".» 

Tinha conseguido os seus Boeing 737 e cinco bombardeiros Harvard entregues em Lourenço Marques pelas Oficinas Gerais de Material Aeronáutico. Portugal era uma nação velha demais para se deixar impressionar por medidas parlamentares. 

Ele acrescentara: «Jorge, Portugal tem. uma vocação europeia. Eu digo, a "África ou nada. A viagem de Caetano a Londres vai...» 

— Senhor General... 

— Jorge, deixe-me falar, eu estou a falar. Estava pois a dizer que Caetano defenderá em Londres o princípio dos territórios ultramarinos enquanto nós estivermos submetidos à chantagem do terrorismo. Temos que aguentar mais dez anos e até lá ganhar a guerra. A um tempo lógico e desconcertante, Kaúlza de Arriaga considerava os seus próprios assuntos do alto das nuvens. Facilmente fazia castelos no ar com a CIA, contava com o apoio dos espanhóis, da Inglaterra: «Senão Portugal entrará na história às arrecuas.» (Mas, eu pensava «Estás enganado, coitado!» Os vandeanos de 1793 esperam ainda os ingleses.) 

Jorge agitava-se. Como todos os egoístas, o honroso cônsul do Malawi tinha sentimentos pelo corpo todo, duro e fraco ao mesmo tempo; pronto a grandes sacrifícios, se estivesse certo ulteriormente de virar a situação em seu favor. Tão raras as inteligências que coordenam! 

Ao contrário de Kaúlza, que punha de bom grado a situação militar entre parênteses e pensava brilhantemente, Jardim, realista, tinha o sentido da duração. Mas, pequena no seu próprio país, a Frelimo não parava de se estender. Como eram tranquilizadores, os dois a ocupar a dianteira do palco, e os dois condenados a cair no buraco. Seriam então vistos a correr mundo, participar no milésimo Congresso universal do anticomunismo — Mellon Institute, Washington D. C. —, entre o general Clay, 89, o general Ridgway, 91, e outros cosméticos faladores. Não tinham compreendido, estes parvos, que viviam um prazo fixo. Na cadeia animal, as espécies aparentemente melhor equipadas não souberam evoluir. Vejam o diplodocos. 

Jorge, agora, procurava a minha cumplicidade contra aquele que não compreendia e resmungava sozinho. Mal o general olhava para o mar, ele mostrava-me a ponta da língua para me chamar a atenção. Até então, tinha-se desenrascado às mil maravilhas, de manhã em Blantyre e ao meio-dia aterrando a bordo do seu Navajo, ao aeroporto do Rand, Joanesburgo, só o tempo de carregar dois, três especialistas na contra-guerrilha, a 150 dólares à hora, que ele levava pessoalmente a Norte de Vila Cabral, e, de madrugada, pulverizando a rasar as árvores litros de desfoliante, algures perto de Nangololo. 

Devia pressentir qualquer coisa, uma completa inversão da situação. Eu adivinhava-o, ele, tão calmo de costume, tranquilizando-se com pouco, ao abrigo dos seus acessórios, alarmado com a ideia nova: Moçambique arriscava escapar-lhe, deixando-o face ao nada de um político exilado. O ar endurecera à volta dos dois homens, chapeando-os por sua vez nas paredes dos hotéis, dançando sobre os frescos como os europeus se comprazem a ver os negros. Percebia-se um ligeiro zumbido de vespa, relação einsteiniana das coisas. Os dois homens já não eram sequer capazes de fazer um o com os lábios. Dir-se-iam adolescentes licenciosos sonhando com a mulher gorda. Apetecia-me arrancar-lhes a confissão de que estavam vencidos. Portugal, visto de longe, seria apenas um pedaço ibérico, o touro da Espanha embolado com pom-pons. 

Kaúlza não parara de epilogar: «Nos Estados Unidos, jogaremos com o guilty complex, o complexo de culpa do puritano que, ao domingo, iça a bandeira estrelada diante de casa...» 

E Jardim que, embaraçando-se menos com o passado, tentava 'impingir os seus macacos... «Preciosos auxiliares todavia... garanto-lho...» Eu mesmo pensava que eles esqueciam o essencial. A África devia voltar aos seus filhos. Os macacos buliam com as palavras e a resposta de Kaúlza veio, após uma nova pausa: «Os seus macacos, Jardim, está, a imaginar as baixas!» Calaram-se. Que possibilidades encarava cada um deles? Eu sentia os meus interlocutores incapazes de uma coerência, de um sim, de um não. O mundo é dirigido pelas palavras, o delírio de alguns, mais dignos de crédito, cujas trufas são descobertas pelas massas, trufas que no entanto só prestam para regalar os porcos. Sempre as celulazinhas cinzentas dos Hercule Poirot da politica. «Mais vale morrer no mistério que no sangue», dizia a velha Ágata.

Kaúlza e Jardim retirados para o quarto. Tinham concordado na mensagem que eu devia entregar a Liebig. Segundo eles, o putsch devia iniciar com uma demonstração da força aérea sobre o Tejo, e acabar com os Cadetes de Mafra em São Bento. Jardim, simultaneamente, proclamaria a independência de Moçambique, com o novo regime como garantia. 

Eu tentava reflectir sobre o que é a morte vista da vida e como fazem os contrários para coexistir na indiferença cósmica. O monólogo de Próspero!... o Ser ou não ser de Hamlet que acaba por concluir que humanamente nada tem sentido. Os homens são tecidos com a substância dos seus sonhos! A amargura de Coriolano, tão estranha a Shakespeare! O poeta vai continuar? Não volta mais a casa e morre tendo nomeado Cristo uma só vez numa obra tão preocupada com o nosso destino. Génio colossal, morre duma doença mortal. O importante não é a idade da sua morte mas aquela em que sai do circuito. Arrefeçamos com o sangue do macaco... A ressaca batia fracamente a terra firme. E pela janela aberta, através do mosquiteiro, Jardim chamava pelo seu emissor... Alfa, Romeu, Foxtrot, chama ... chama
(...)

Kaúlza de Arriaga tinha-me deixado no aeroporto da Beira, donde eu não tinha arredado pé. O avião de Lisboa via Lourenço Marques chegava à meia-noite.

— Ontem à noite, a Frelimo atravessou o Zambeze! Orlando Cristina fazia chacota das últimas notícias ao estender-me a carta de Kaúlza-Jardim. Cedia à satisfação má que o tomava, com a sua cabeça de Mickey Mouse. — Já lhe tinha dito, Zambeze! Mas a imprensa falará do massacre de Wiryamu e desses sacanas dos padres brancos. 

- Eu já não acredito em nada, François. Não tenho 50 000 francos na Suíça. Jardim, para as questões de dinheiro, toma-me por um tanso. Eu sou o esbirro dele, só sirvo para atirar uma granada ao oficial que comandava o destacamento. Sobre os padres, estou de acordo. Sobre Dionísio, a dobrar, mas sobre um miúdo que apanhou medo? Não sou desses. Olhava em redor. Tinha vontade de falar, achando a noite esplêndida. 

«Você sente, François, a África, qualquer coisa que primeiro se passa em nós. Não é preciso ser-se instruído para gostar dela... E todos esses tipos que tiveram confiança em nós... todos nossos informadores... Eu conheço os negros. Conheço os negros... Não os conheço! Quanto mais avançamos com eles, menos os conhecemos. São imprevisíveis. Acredite-me. No fundo, são homens, mas que o Branco estragou. 

O Branco mente. Veio para a África, primeiro para pilhar. A União Mineira é uma história terrível, quatro mil milhões de lucro por ano. Vieram os belgas e exploraram os negros, depois os franceses com Tchombé puseram os belgas a andar, depois desembarcaram os americanos. Ainda cá estão; deitaram a mão a cinquenta e um por cento do capital. O Negro morre como nós, mas não vive como nós. Os negros não têm medo da morte, mas da maneira de morrer. Nós gostamos dos negros. «Não se pode viver em África sem gostar dos pássaros, sem gostar do Sol, das trovoadas, dos negros. Não há que compreender. Não há nada que compreender. 

Sorríamos um ao outro, mãos nos ouvidos, no meio dos clarões de calor. Para mim, já sabia, era a última noite do meu último dia em Moçambique. Todos a milhas, todos, e as filhas de Jardim, virgindade guardada pelo pai, e Kaúlza, Pantera cor-de-rosa, e Orlando, o bode expiatório, as suas virtudes e a sua valentia que, há cinquenta anos, lhe teriam dado direito a um grande panamá, a uma ilha! 

Os portugueses já não estavam em parte nenhuma, empurrados para o fundo da África antiga de Livingstone, para lá do Zambeze, acima das cascatas, com os macololos, a quem chamavam «basutos», reduzidos ao papel de agentes de vendas interpretando as Escrituras: «Eu vi o mar. Fui ao Iboé, a Quelimane, à ilha de Moçambique. Conheço os navios, os steamers, os ingleses. Sou um grande negociante.» Sempre com um século de atraso. Têm a fatalidade na cabeça. O mundo deve precisamente ser devolvido aos miseráveis, aos cretinos. Caetano e Jardim tinham desperdiçado biliões e por dá cá aquela palha. Orlando e eu, se tivéssemos podido pôr um bocado desse dinheiro na Suíça, teríamos, hoje, com que saturar-nos de elixir em Genebra, e de alambique em alambique, a possibilidade tranquila de chegar até às galáxias. Eu olhava para Orlando, fascinado com o Jumbo como Hõlderlin com a Grécia solar. O Verão dos Verões em Moçambique.

Vontade de dizer-lhe: «Orlando, o terceiro milénio será eslavo. A dialéctica do poder põe-se em termos de carácter. O terceiro milénio será falsamente marxista. Os comunistas acabarão por construir catedrais sobre um nada de ritos. 

Como é que dois velhos romanos cépticos teriam podido imaginar que os seus netos se disputariam acerca do dogma da Imaculada Conceição? Eles, ao menos, discutiam mitologia. Hoje, como é que dois europeus... Oh, a imensa piedade, Orlando, que nós devemos ter pelos homens políticos, políticos! Antes, era o mesmo código no seio dum mesmo espaço semiótico compacto. Que há a esperar? 

A morte do general de Gaulle terá permitido que Kissinger se tornasse este samovar voador com a sua análise ordinária de todas as coisas. Chega a Paris, pede o almoço no Lasserre. Põem--lhe uma gamela à frente. A partir daí, a França dos Capetos tem a política exterior da Itália. Então, meu caro Orlando, se a França existisse, eu era o primeiro a sabê-lo.» 

Depois deste longo silêncio, e porque a voz anunciava o embarque imediato, Orlando reuniu as suas ideias: Não há política, François, quando já não há ninguém. Tarde demais. 

Peço desculpa, porquê tarde demais? 

— A estação das chuvas começa, François. A Frelimo vai tirar as suas máquinas anfíbias. Diga-lhes isto em Lisboa, que recusando escutar a verdade, eles não fazem mais que adiar as dificuldades. Quanto a mim, sozinho, eu empregarei o último recurso do hipopótamo. Mijarei à volta. Mijarei na minha casa, e quem é que vai querer lá entrar? 

Olhava-o fixamente. Lembro-me ainda da cara dele coberta de suor, que parecia esperar de mim ideias miraculosas. A hospedeira repetia a sua última chamada, impedindo-me todo o esforço sobre mim mesmo. Um até breve separou-nos. Ele fez questão de me dar um abraço e virando as suas costas de urso, escapou-se, perdendo-se por detrás dos vidros onde se reflectiam as constelações, duas Ursas, um Cisne e um Rio siberiano. 

Eu saía do tempo. Que é que lhes ia contar em Lisboa? Adormeci com a ideia que o avião era uma estrela, a mais privilegiada de todas, no rocegar de seda rasgada das estrelas cadentes. 

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