domingo, 11 de setembro de 2016

JORGE JARDIM - excertos de 'Quinto Império', de Dominique de Roux

Jorge Jardim, por seu lado, fazia intrigas para suplantar o poder de Kaúlza de Arriaga. Ao tempo que em Moçambique este homem de negócios se metia em tudo e mais alguma coisa com a mesma autoridade! 

Julgava-se um Lawrence da Arábia quando, cantonado nas suas trinta por uma linha, não passava dum brincalhão, cujas passeatas à mão armada custavam milhões ao gabinete negro de Lisboa. Sempre um erro mandar antes de tempo os gaiatos à sua vida, longe dos tabefes! Cara chapada de Humphrey Bogart, de cigarro no bico, o jornalista que faz a história, proprietário do jornal da Beira, precisamente graças aos fundos secretos, o «menino querido de Salazar» conseguira sempre tudo do mestre que, petrificado no poder, lhe permitira estabelecer a sua reputação com base na fraude, engolindo-lhe as patranhas com a inocência da idade de ouro. 

Era visto em 1960 no Congo, durante a guerra civil, rocambolescamente salvo de uma horda de balubas que o tinha, dizia ele, encostado à parede. 1961, Angola. 1962, encarregado de uma missão ultra-secreta, plantador de chá em Goa recuperada pelas forças indianas. Todo este estratagema para a explosão de um petardo, no Palácio de Hidalcão. Aproveitando-se do pânico, despregara então e trouxera para Lisboa o retrato do último vice-rei das Índias portuguesas. Alcunhado o «Correio do Czar». 

Muito chegado, a partir de 1963, ao presidente Banda, Malávi, de quem se torna o factótum; honroso cônsul (mais o passaporte), organiza perto de Blantyre um antro, plantações de chá, legumes. 

E em 1965, prosseguindo a sua ascensão de senhor do puzzle internacional, trava, cm nome de Salazar, conversações secretas com Ian Smith que acaba de proclamar a independência da Rodésia. Presidente da Zâmbia, Kaúnda recebe o nosso Arlequim à sua mesa e Nyerere da Tanzânia resolve-lhe umas questõezitas. 

Mas é em casa, em Moçambique, onde António Champalimaud lhe permite comprar o Diário de Moçambique, que Jorge Jardim vai desenvolver a sua própria organização, feito exorcista vice-governador de um país onde os brancos vivem à sombra da bananeira. 

Temos que reconhecer à sua natureza perspicaz o ter visto, ao mesmo tempo que a Frelimo, a necessidade da independência de Moçambique. Não parará de espicaçar Lisboa para a africanização do exército como dos quadros civis. Em Kaúlza de Arriaga, o último governador militar, vai encontrar alguém aberto à sua solução política. Ia também poder fazer valer-se dum modo extraordinário. Ladrões de feira — uma só finalidade, melhorar as coisas. Conspirador nato, representava-o até à caricatura, Don Juan por acréscimo, manipulando as amantes que engodavam os oficiais. Desconfiado, todavia, preferia recorrer aos próprios filhos. Tivera a felicidade de ter doze filhas, todas encantadoras. Saltavam de paraquedas, disparavam de metralhadora, mas nunca faziam concessões. 

Com os seus métodos, Jorge Jardim acreditava em Moçambique, sociedade sem classes, multirracial. 

— Talvez você não pense assim, ouça... Pusera-se a contar-nos a sua viagem à Tanzânia, e de que maneira! Kaúlza tinha-me avisado: sempre que Jardim falava das suas façanhas, entrava na mentira integral, aldrabices pegadas, no meio de verdades inofensivas, satisfazendo com fleuma os prazeres do super-homem que se julgava. 

As mais ambiciosas operações de Wingate não eram nada comparadas com as que ele contava diante de Orlando, antigo caçador de elefantes, o «general» dos seus macuas. Começava por plantar um cenário: mato com rios infestados de jacarés. Nunca mais se havia de esquecer daquilo... As horas desfiavam-se entrelaçadas de ramos, de crocodilos e de palhaçadas. Depois, com a mesma desenvoltura, garantia que colhia os comissários políticos da Frelimo nas suas aldeias como quem colhe malmequeres. Donde o diálogo: 

— Bom. dia, senhor Mupia!
— Por onde vieste tu? 
— Pelo Norte, Mupia! 
— Quem te ajudou a atravessar o rio, Jardim do diabo! 
— Está na hora de nos acompanhares a casa dos nossos amigos, em Zomba!

Isto podia durar horas. Nesse dia, Kaúlza já não escutava. Parecia ver, no extremo da piscina do Hotel Palma, deslizar os petroleiros ora com o céu, ora com o mar, vagas enormes. Era Lourenço Marques, a hora do chá, as suas sul-africanas bem patriotas, a jogar bowling à sombra e os criados cor de kiwi, de farda cor-de-rosa abotoada até acima, levando as bandejas do chá. Uma perfeita maçada de cidade de província, de África inglesa, menos avançada que Luanda. 

Desde o fracasso de Nó Górdio, Jardim acentuava a depressão de Kaúlza. O general tinha momentos de ausência que davam uma ideia do que se passava dentro dele. Como tornar a ganhar a batalha? Jardim começou a informá-lo das últimas notícias: a degradação da situação militar em Tete, os ataques às plantações em volta de Villa Péry, a estrada de Changara minada, Quelimane ameaçada, e a Beira para quando? Levava o cinismo ao ponto de citar o próprio general (ao menos Tito Lívio atribuía a Aníbal discursos que ele nunca pronunciara) : 

«A África austral tem que se preparar para uma guerra tradicional se queremos evitar o avanço comunista no sector fundamental do continente. Querem os chineses ir até Joanesburgo?» — O Senhor General faz a pergunta, eu tenho os meios para lhe responder, os meus Flechas. Os meus homens podem formar, de Tete ao lago Niassa, a linha Kaúlza, etnia contra etnia; os meus macuas contra os macondes da Frelimo. O Senhor General não está com certeza à espera que eles cheguem ao rio Save para os travar. 

Não tinha o seu Orlando Cristina o hábito de se ocupar da guerrilha com um à-vontade maravilhoso? Ao contrário do Português, o Macua é da terra, conhece a floresta, os dialectos, é capaz de caminhar durante meses. Para quê? A pergunta não seria posta. Kaúlza olhava para ele, ao mesmo tempo blasé e perplexo, como se o outro já só fosse aparência, desenrolando palavras previsíveis e pedestres. Mas nada tinha importância. Para suportarem a ansiedade portuguesa, teriam tido que beber juntos. Quando surge a angústia, as relações com o outro mudam. Já não sabemos o que temos à nossa frente, já nada leva a consequências. 

Jardim procurava levar vantagem neste fundo de uma actualidade sombria: Criemos a fatiga na zona de Tete. E mais fatiga, Senhor General. Só uma lassidão nos há-de tornar a trazer as populações que nos contentamos em evocar. Os velhos nas aldeias têm que poder dizer: «Bem dizia eu, não chegamos a nada.» E as mulheres: «Quem vai dar leite aos nossos filhos?» Então hão-de levá-lo às nuvens. 

— E então, Jorge, onde quer chegar? Passavam pela cabeça do general ideias que não conseguia agarrar, enquanto as que trotavam na de Jardim eram encenadas, galvanizadas, exigências e contra-exigências. Kaúlza retomara a sua atitude generalissista, nestas alturas em que, fazendo as ilusões as vezes de vitórias, temos quase a certeza de viver duzentos anos: 

— O nosso objectivo é conduzir progressivamente Moçambique a um nacionalismo que não seja contra Portugal. A batalha de Cabora-Bassa está ganha. Dentro de alguns meses, a inundação da barragem formará um lago artificial de 250 km ao longo da fronteira tanzaniana, tornando as infiltrações impossíveis. Em vez de fuzileiros, três barcos! A Frelimo não terá outro remédio senão deixar-se apanhar à entrada do corredor do Zambeze. Aí, Jardim, vamos precisar da sua organização para lhes administrarmos a tareia. Ao observá-los, ao ouvi-los, ao general e ao seu anfitrião, eu sentia que não andava um sem o outro, incapazes de encontrarem neles mesmos a capacidade selvagem e física de se imporem. 

Bonaparte preparava o seu poder quando esmagava os realistas nos degraus de Saint Roch. Um conquistador, não é um promovido pela antiguidade e pelos concursos; Filipe Pétain não teve ânimo para ir a Argel em 1942, Kaúlza para mandar a barraca aos ares em 1973. O poder exige uma alma de Al Capone, sem rei nem lei. 

Mas Jorge Jardim, a sua extravagante sombra negra, entre o napalm e o amor, era apesar de tudo homem para escolher: mais vale uma pega que a Longa Marcha. Que podiam esperar um do outro? A agitação de Jardim não valia o dinheiro que lhe era entregue e a fraqueza de Kaúlza: a escola de guerra, a caixa de areia. 

Jorge Jardim contava com os seus fiéis, os Murupas, os Aroucas. Kaúlza, ele, com um «Grande Exército» luso-sul-africano-rodesiano sob o seu comando. O major-general Peter Shaw sob as suas ordens, e o general Pretorius. 

— Porque... Interrompido por Kaúlza, Jardim preferira bater em retirada, habituado nestas circunstâncias a agir à sombra do Estado. 

À nossa volta, enredava-se, tagarelava-se, sul-africanas a bronzearem-se, burguesia branca, os portugueses, brancos daqueles que os negros de Livingstone julgavam cosidos dentro de sacos por causa do seu ar de múmias. Os canibais do Zambeze ameaçavam assim os filhos: «Se não te portas bem, chamo o Branco que te morde.» 

E tankers, assim, sem parar, rodas de proa, estendidos no mar liso. Kaúlza e Jardim tinham pois realizado muitos esforços pelo bem de Moçambique. O bom rei chefe é aquele que ama, que protege as crianças, que usa a força, o coração e a cabeça para os fazer todos contentes. O general, um-que-tem-um-boné, que isso quer dizer que é o chefe, o que manda. Os que mandam, há-os maus e os-que-fazem-esforços-para-serem-bons... 

Jardim acabava de escrever no meu guardanapo de papel, nas barbas do general: «O mais depressa possível», querendo dizer-me que me queria ver a sós. E para não deixar transparecer nada, pusera-se a prolongar a conversa por gosto. Bastou ouvir com que cinismo concluiu: «Ouça, Kaúlza, não nos vamos sempre deixar tramar!» 

No terraço, Jorge Jardim que, fora o mato, tinha horror ao contacto com o solo, parecia um corsário, camisa aberta e, ao pescoço, electroblitz antimosquitos, ultra-sons. Não tinha, como Arriaga, ambições portuguesas. O velho continente já não o interessava. Estava-se nas tintas para os bascos, os íbero-ligures e tudo o que fala debaixo dos dólmens. Intermitentemente, na noite, acendia-se numa rampa: Casino. 

Cigarro no bico, ele precisava que: — Ninguém podia contar com o exército; — O seu objectivo: apressar a independência de Moçambique, em relação com a Frelimo do interior contra a do exterior. Kaúlza? «Mais um que se julga instalado numa obra, o romance que começa e depois acaba. E teimoso como uma mula. Ter ideias gerais, mais vale não ter nenhuma.» 

Tinha-se posto a remontar o rosário das três gerações da Frelimo. 
— Não é? Tudo tinha começado, não é? Está a ver?... Era inquietante, apanhado no remoinho dos não é? e dos está a ver? Estava no meio termo entre o psicopata e o duplo de Bogart no papel de Orde Charles Wingate. Mas Jorge Jardim ensinava-me ao menos que o que conta, não é tanto o ter razão como o demonstrar na prática que se está na verdade. 

(continua...)

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