domingo, 11 de setembro de 2016

EM MOÇAMBIQUE COM KAÚLZA - excertos do 'Quinto Império', de Dominique de Roux

(...) Colonização belga, a pior. Inglesa, a mais ignóbil; portuguesa, perdura; francesa, cerca de meio século; a escumalha desemboca no fim em ideias, que «o chefe da aldeia pode muito bem ter mobílias Luís XVI». Enfim, como criar fronteiras entre as necessidades tribais, a poligamia e o desinteresse pelo dinheiro? Em África, não se rouba, tira-se. Noutro sítio, ter-se-ia tido «Titi Aramco». Justificações ociosas; o ódio dos guarda-livros ultrapassa de longe, em África, o dos colonos.

Todos nós nos calamos, o general Kaúlza de Arriaga, a mulher e o coronel Dionísio, de pé, monumental. Pela janela, podia-se observar o movimento das hélices do mais abstracto ao mais concreto. A atmosfera tremia com uma luz lúgubre de cúmulo-nimbos, que bem se podiam desenvolver em altura a altitudes de 15 km, grandes massas de cargas negativas que na época de Cristóvão Colombo se chamavam «fogos-de-santelmo». Nós não dispomos dos elementos que surgem no Eu, escrevia Mach. Nem eu, dos raios que caíam no avião deformado pelas faíscas. 

Tínhamos deixado Lourenço Marques por ordem do general, apesar da proibição da torre de controle, por se formar uma tempestade em terra com as suas descargas eléctricas. As asperezas do zinco crepitavam, prova de que o campo eléctrico começava a crescer. Mas, a quatro horas dali, no planalto Macondes, a operação Nó Górdio, três mil homens, aguardava o seu estratego. 
(...)

Nenhuma explicação me fora ainda dada, eu só tinha o estatuto dum brinquedo de luxo, «o francesito do general». Kaúlza: «A Revolução, meu caro? Um transbordar de emoções, a gente da esquerda tem um gosto mórbido pela decadência e a desgraça. Deviam calar a boca. Evitavam-nos ter que matá-los. A ideologia, meu caro François, só dissolução...» 

Kaúlza, de camisa caqui e dragonas vermelhas com quatro estrelas, falava-me em frente das tropas africanas de boinas amarelas, grupos especiais; o coronel seguindo atrás, um Adamastor, o último recurso. Também Franco, antes da repressão das Astúrias, não tinha ambições. 

— A visão gaulliana das coisas, meu general... Eu murmurava, incomodado de trocar impressões nas barbas dos soldados em sentido ao calor, dois mil negros, máscaras dan, máscaras guros, recordações do bronze, as suas fardas negras, a cara dos oficiais brancos chamuscada de preto. 

Kaúlza: «No século XVIII, a Companhia das Índias dirigia a sua própria política, a par do poder régio. O jacobinismo do século XIX desmorona-se. Volta-se à política dos interesses reais. Que poder de controle têm ainda os Estados nacionais sobre os grupos internacionais?» 

Com um pé sempre à frente do outro, eu contava os hectómetros de «La garde meurt» e, o sol, sentia-o na nuca, intolerável. Kaúlza parecia Napoleão, e eu perguntava a mim mesmo se a guerra que ele tinha que travar não tinha um lado equívoco, mau aspecto. Esta guerra em Moçambique não tinha nem o parâmetro da guerrilha, nem o da guerra de posição. Antes uma mistura de guerra de movimento com um ar Crimeia, artilharia, cavalaria mais a terceira dimensão, a aviação. 

Qual era o estilo desta guerra? Israelita, americano, sul-africano, francês? E como era abastecido este exército? Arroz, ovos, toda a espécie de mistelas indizíveis, cozinha que se come com os dedos. E as reservas de nivaquina! Os comprimidos de hidroclorazona para a purificação da água, o Ganidan e o Diarsel contra diarreia e disenteria. Ao lado desta, a guerra da Guiné era familiar. 

Kaúlza parecia ainda Toukhatchevski: o boné chato, o rosto redondo e sensual. Mas se Toukhatchevski tinha sido fuzilado, o seu semelhante estafava-se a perseguir quimeras: por exemplo, que o seu exército, ali presente, alinhado, era o exército do povo. Ah! a engenhosidade e a sujice das palavras que queremos dizer sobre as pessoas com um ar de proprietário! Rostos de pau, estátuas baulés, pulsos com braceletes de contas mágicas, estas tropas de assalto querem combater, espingarda cruzada sobre o peito acima da formidável tenaz das coxas, o poder militar oposto ao poder de rebelião. 

Eu olho aqueles sólidos dentes brancos, e, ao lado do outro que fala comigo, caminhamos os dois como numa avenida. Eu penso em Lisboa, onde todos os séculos convivem com os judeus chegados a correr, a sete pés, dos seus quadriláteros da Boémia. 

E no planalto Macondes, entretanto, a Frelimo infiltrava-se na floresta. No seu xadrez, Kaúlza estava certo de ganhar, tendo posto todas as oportunidades do seu lado. Só tinha esquecido que os peões negros tinham um forte contra-jogo. Para ele, os nacionalistas eram boas pessoas, tão católicos, dizia ele, que lhe custava compreendê-los. Para mais, aquilo reclamava o sufrágio universal. Pelo contrário, os comunistas, uns chatos: uma só saída, liquidá-los. Tinha montado Nó Górdio como uma nassa. A história ignora os planos demasiado esmerados. 

Kaúlza de Arriaga recusava a política de Lisboa, a política deles, estimando que um novo equilíbrio mundial passava pela Africa austral, objectivo bem identificado e manipulado pelos serviços de «agit-prop» soviéticos que fomentavam os movimentos de libertação. Consequentemente, tinha que responder às três forças revolucionárias da época, socialismo, movimento da classe operária internacional, combatentes da Liberdade, com a criação do triângulo de ferro «Pretória-Brasília-Lisboa», apoiado nas riquezas de Angola, lugar geométrico da mestiçagem; e na esplanada do Sudoeste africano, último espaço alemão do planeta. 

Também o general era um civil que queria intensificar a guerra para obrigar o inimigo a negociar. Se tinha pedido a chefia do comando em Moçambique, enquanto poderia ter obtido um ministério, era porque um sucesso militar português em Moçambique era capital, não só para o seu país, mas também para o conjunto da Africa austral, o Ocidente. Tinha contra ele uma rede de ideias feitas, o preconceito dos surdos-mudos que Lenine recomendava que fossem tratados como tal, a dominação de uma burguesia-compradora embrutecida e que, desde Caetano, já não podia viver como dantes. Portugal: esta França que, na Quarta República, se reunia em casa de Lazareff, Assembleia Nacional miniatura e sem aberturas de um poder anão. 

Se Kaúlza não era extra-lúcido, tinha ao menos diagnosticado o mal. «Nós beneficiamos, nós, em Portugal, de uma suspensão da fatalidade, de uma caridade do destino, repetia ele. Ganhemos tempo.» Teria sido preciso imediatamente distribuir as terras em Moçambique, acabar com o lobby do algodão, ir contra as imposições opressivas de algumas famílias, enquadrar as massas para as educar. Impossível com o clima, o espaço, os hábitos, a inércia, o feitiço do colonialismo. Cada dia era remetido para o dia seguinte. E, vista de Lisboa, a guerra não era assim tão má, uma maneira de ocupar o exército, de lhe tirar toda a espécie de veleidades conspiradoras. 

Desde a última guerra, a informação multiplicou-se, cada um de nós sabe tanto como o príncipe. O imprevisível, os «zacasos», dizia-me Kaúlza endireitando, ao passar na frente das tropas, algumas espingardas inclinadas demais. Galbraith, 1960, tinha sucedido a Burnham, 1948, com a sua teoria das moedas manipuláveis. François Perroux, era em 1950 Rueff, um economista fantasma ainda a descobrir Stuart Mill. Mas os governos continuando keynésianos, vacas magras, vacas gordas, comprometiam o futuro da economia liberal, mercados e noção de ganhos, enquanto a nova motivação, o poder, exige uma economia dirigida, restrições e militantes. 

Quando as pessoas têm fome, tornam-se fascistas. O mundo cada vez mais fascista. A Europa é incapaz de reagir quando inflações e recessões andam a par. A escola de Chicago capota e a escola de Yale descarrila. O poder de dissuasão absoluto é a bomba atómica, mais o trigo. Um único problema para o mundo: a nutrição. Portugal continuava pois a depender da antiga ordem das coisas. O seu corpo politico todo de hesitações e de dúvidas, a sua burguesia tanto mais bem intencionada quanto mais estranha à sua época, os seus nobres da província à beira do declínio e ricos por não pagarem as dívidas, julgavam impossível a ameaça de uma multidão. A emigração massiva e o alistamento desarmavam toda a veleidade de organização revolucionária. A Internacional parava doravante nos Pirinéus. 

Em compensação, confiavam na sua polícia, que enchia as suas fichas ao mesmo tempo que as colónias penitenciárias de Caxias e de Cabo Verde. Quando um Estado é desonesto, os cidadãos são desonestos. No entanto, imperceptivelmente, o regime desconjuntava-se. Caetano, tendo cedido às exigências dos ultras e já não compreendendo as informações que lhe traziam, chegava a fazer exactamente o contrário do que tinha em mente ao princípio. 

A oposição, rejeitada para a clandestinidade, enterrava cada dia mais fundo a sua cunha no poder. À superfície, o clã dos Europeus, tecnocratas que se arvoravam de doutrina no Expresso, diziam uma coisa à «esquerda», que repetia outra. Mas, nas profundezas, especialista do anonimato e da insignificância, o Partido Comunista avançava a passo de lobo. Num Moçambique ameaçado, Kaúlza de Arriaga era a última hipótese dos conservadores. Tudo dependia do Nó Górdio.
Kaúlza tinha razão. Era obrigado a escolher: exactamente, matar ou ser morto. Cometer menos erros que o adversário. 

Limitado pela África do Sul, a Rodésia, a Zâmbia, o Malávi e a Tanzânia, Moçambique tem uma área de 785 000 km2. O Zambeze... O Zambeze dez mil vezes atravessado. Ele estava lindo, o outro, Dominique de Roux, com o seu «Ne traversez pas le Zambêze». De Roux coitado, ter-lhe-ão feito atravessar cem vezes o Rubicão! O calor engolfava-me no mundo das origens, a África elefantesca das cozeduras lentas e secas. Lá, o símbolo é a realidade, e os babuínos têm naturalmente a sua corte entre as abelhas. Quem quer ser o chefe tem que imitar o crocodilo. 


Kaúlza detestava o conformismo. Portanto não gostava muito do exército, sem por isso se parecer com Wingate, o especialista na Birmânia dos combates pouco ortodoxos. Kaúlza não era Wingate, mas um general a contra-corrente e sobretudo, a contra-Spínola. Nascido tarde demais para ser Napoleão, já não tinha a exaltação do génio adolescente, mas era napoleónico pelo amor à aventura. Além disso, um teórico dos conjuntos. Implicava as intenções chinesas na sua política. Só os chineses tinham conservado o seu imperador e levantado uma muralha entre ele e o Terceiro Mundo. Até aí, Kaúlza preferira reagir a agir, mas desta vez, cortaria o «nó górdio». Lentamente, no mapa-mundo, mostrava-me a África, o Oceano Indico e as índias, a China, Portugal, outra vez a África, e, em baixo, a última Africa branca, Alba Ultima. 

Caminhar, caminhar, tinha-se prometido aos soldados, e até Dar-Es-Salam, a beira-mar. O mar era a sua única visão política e social do mundo, mas, precisamente, o seu chefe, desguarnecendo o flanco sul, não tinha subestimado a importância estratégica do corredor do Zambeze? 

Custava-me habituar a esta situação extravagante dum comandante-chefe que desdramatizava a guerra a ponto de levar a mulher, de vestido de Verão, sentada ao meu lado, no banco de trás do jeep. Ela tinha os olhos negros das trigueiras, das mulheres de pele morena, beleza que menos cansa, porque a mais maternal. Tinha feito questão de assistir à invasão do planalto Macondes; nada mais que uma distracção para ela, simples devaneio na imensidão. O colonialismo, esse, apropria-se das coisas: a minha cana d'açúcar, o meu cobre, os meus diamantes... Eu bem queria morrer dum obus, não dos insectos!... Por causa desta elegância de mulher ainda citadina, eu gostaria de surpreendê-la um dia, também ela entregue a prazeres solitários, um longo fio de azeite sobre o peixe escalfado... 

Nem mais uma palavra trocada entre mim e Kaúlza senão olhares, suspiros. Ele caça as moscas no rosto alagado. Ela, tisnada, tipo Evita Péron, estafada. Que poderíamos ter dito um ao outro? Desde há oito dias, não tínhamos encontrado ninguém. Nem a mais pequena escaramuça, nada. O meu cepticismo perguntava se iríamos encontrá-la, à Frelimo, de sapatos de lona, bazuca e mochila de funge, a pasta de mandioca, uma bola por dia. Uma lassidão instalava-se à medida que se fechavam atrás de nós os aléns estranhos e todos os seus gritos agudos de fauna monótona. À noite, três mil homens, sacos no chão, deitavam-se na terra à volta de uma mancheia de feijões, as sentinelas vigiando os limites a não transpor, o nosso jeep no seio do dispositivo de volume fluido. 

Kaúlza tinha a sua ideia na cabeça — um cérebro ainda arcaico: uma mania, a linha recta. Sempre o imperador! Nós éramos uns pobres trastes confundidos debaixo da poeira da laterite. Kaúlza, sentado de pernas cruzadas diante da fogueira do acampamento, atiça a brasa. Pediu-me que partilhasse o cobertor com ele. Acrescentou: «Eles hão--de acabar por se deixar apanhar!» Explica-me que é anticomunista porque «os comunistas querem gozar os bens deste mundo sem serem responsáveis» e que «intelectualmente, são reaccionários». Eles hão-de acabar por se deixar apanhar: estaria a falar da Frelimo? O marxismo fica, talvez, a filosofia da conquista do poder, mas que fazer com ele no meio do tumulto dos insectos, do seu trépano, sapos-búfalos, a floresta-gargalhada? 

Kaúlza insistia: Moçambique está controlado, bem controlado... Justificava-se, repetia-se. Com o seu exército que se esticava do istmo de Tete a Cabo Delgado, obrigaria a Frelimo a tornar a passar a fronteira tanzaniana. Os vagarosos cairiam na rede. O corpo expedicionário estava lá, grupos especiais, infantaria ligeira, marinha nacional, milícias e cerveja em lata e a telefonia. Não queria constatar que os seus soldados estavam fartos. E naquele mesmo momento eles ressonavam. 

Outra vez o imperador! A contra-guerrilha, prosseguia ele, nada fácil! Dois aspectos: um militar, o outro social. De um lado, apanhar e destruir; do outro, garantir a segurança, construir, educar. A estratégia terrorista é rudimentar: o lança-roquetes e a mina. Nós cá temos a G 3, mas também, para o progresso, a barragem de Cabora-Bassa. 

E punha-se a falar-me do planalto Macondes. Macondes a Noroeste e macuas ao Norte, changanes ao Sul e manicas ao centro: todas tribos rivais, que ele ia manipular como já o Molimo, uma organização fantasma pretensamente antiportuguesa e este Coremo formado em Lusaca pelos dissidentes da Frelimo, pró-chinês, dirigido por Paulo Gumane... Alongava-se sobre o planalto Macondes e sobre a sua ofensiva exemplar como se isto se passasse na Lua. «Batalha decisiva para a África austral, e a batalha começou.» O imperador! Nó Górdío. Le noeud gordien* e Pompidou morria. *Título do último livro de G. Pompidou. (N. da T.) 

Eu concordava. Tinha-me tornado fatalista. A milhares de quilómetros de Lourenço Marques, a única solução era seguir o movimento. O cheiro da África emanava de toda a parte, um odor de folhas da terra inteira, o do império em decomposição que a guerrilha tasquinhava há dez anos, agora presente em Manica-e-Sofala, em Vila Péry, no parque da Gorongosa, até nos subúrbios da Beira na margem do Oceano Indico. Kaúlza, receava eu, sonhava. Não podia satisfazer-se com o exército português. No fundo, morria por não comandar forças mecanizadas, helicópteros, panzers, canhões motorizados. E nós, nós traímo-nos a quilómetros na ronda, carregados como mulas, incapazes de reagir, avançando em magotes. 

Simba! O leão! O rugido do leão a rondar! Símbolo do Sol, sinal pintado nos escudos, o leão em pé anulava com um rugido o círculo das decadências mercantis. Anunciava o desmoronar do Império português e o acordar do continente negro. Eu compreendia, a África só pertencia aos negros. Há acontecimentos que são anunciados por sinais. Kaúlza julgava-se rei em Moçambique, mas a presença inopinada do leão, a grande voz ressuscitada do império do Monomotapa devia ao menos ter-lhe lembrado que a luta só é possível no presente mitificado. Apenas marxistas e nazis crêem na solução final. 

Agora, eu sabia que Kaúlza não passava dum faquir que inventava truques com os dedos. Parecido com Toukhatchevski, o último respiro da cartada germano-sueca no coração do Exército Vermelho, Arriaga prolongava a casta dos que perdem. Misteriosamente, o rugido do leão fez-me pensar em Luís XVI. Kaúlza tinha-se apresentado na história um pouco como Luís XVI, diante duma Maria Antonieta cheia de seiva nova, e sonhando com o amor, dizendo-lhe o gordo que «a amava mais tarde». 

O leão, a força das coisas, impunha-se mais uma vez. O rugido recomeçava incessantemente, modulando o tema do primeiro português massacrado em Moçambique, esse franciscano decapitado em 1961 pela Frelimo nos degraus da sua igreja. Vingaria este assassínio a invasão portuguesa desencadeada por outros assassínios perpetrados quatrocentos anos antes? E o de um outro padre na corte do imperador de Monomotapa? Aquilo tornava a pôr-se em marcha em direcção ao fim da história: batedores, fuzileiros, granadeiros, no meio do estalido, alguns artilheiros com o morteiro pesado nos ombros. 

Kaúlza: «A Frelimo tem que estar nalgum sítio... Eu queria mostrar-lhe um morto, François... Os negros no instante da morte têm o terror dum gato... Hão-de acabar por se deixar apanhar... A arte da contra-guerrilha, é a impossibilidade de apanhar ao mesmo tempo dez moscas com os dez dedos. Já experimentou ?» 

Ele queria fazer-me falar, ora eu estava ali para não dizer nada. Apenas : — Talvez o meu general pudesse sugerir aos terroristas que se rendessem... o mecanismo humano... Detonações e explosões fizeram-nos calar. Eu sentia o cheiro da pólvora. Pertinho, rajadas, apelos e cavalgadas nas queimadas. Kaúlza saboreava como entendido as explicações que lhe dava a ordenança. Acabavam de apanhar um! 

O Frelimo jazia nu de costas, despido pelo sopro do morteiro. Envolto na sua pele negra, Espártaco com a boca cheia de terra. A cabeça crespa trazia o golpe na testa. Compreende-se porque exprimem os animais arpoados tanto pavor no olhar. E o silêncio obsessivo daquele rosto inteiro à medida que o tempo passava, uma morte autónoma, a sua palavra confundida com o fogo. O ventre rebentado pelo metal tinha deixado escapar as entranhas, vindas dar na espuma rasa do púbis, contra o sexo erecto. À volta, nós parecíamos bonecos de assoprar. Um homem entesado! Marcava a nossa derrota. 

Só temos uma vida e isto dói, sobretudo isto. Isto dói! Reflexão dum soldado africano, um dos que se tinham juntado diante deste enorme corpo. Um outro, destapando com o polegar uma garrafa de cerveja, tinha-se posto a beber pelo gargalo, com a cara virada para o céu. Kaúlza, por detrás dos binóculos, inspeccionava a floresta. Diante, atrás de nós, geografia de Ptolomeu, a Terra, chata. Já ninguém para matar, já nada para destruir, nem mesmo a possibilidade de dar cabo duma palhota. Nada, excepto uma batalha que não tinha tido lugar. Irrisão! Kaúlza: «Soldados, não amoleçamos. Nós aniquilaremos o inimigo no sítio e da maneira que melhor nos convier.» 
Ela, a generala, tinha-se aproximado: — Isto faz muito efeito, François, um homem assim... que... é isto a potência, o mundo às avessas. 

(continua)

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