quarta-feira, 14 de setembro de 2016

DE NOVO EM LISBOA APÓS MOÇAMBIQUE - excertos de Quinto Império, Dominique de Roux

Nos bastidores e as semanas que antecederam o 25 de Abril. A conspiração dos 'serviços' estrangeiros

Eu via de que lado soprava o vento. Antes de me voltar a encontrar com Liebig, eu colhia os últimos boatos: Silva Cunha, ministro tacanho das Províncias Ultramarinas, tinha agrupado à sua volta o clã dos duros; Moreira Baptista, ministro do Interior: tinha medo de servir-se da polícia; Rui Patrício, ministro dos Negócios Estrangeiros: andava atrás das saias; Costa Gomes, chefe do Estado-Maior General, batia os calcanhares ao enviar aos exércitos vigorosas ordens do dia. 

Silva Pais, chefe da PIDE-DGS, era visto a comer bons bacalhaus no Gambrinus, e a filha, diziam, era amante de Fidel. Era verdade que ela vivia em Cuba. Enfim, falava-se dum terceiro general, Bettencourt Rodrigues! Normal que um certo Portugal acabe, o do Estado corporativo e paternalista, que na Nazaré trazia o peixe atrás dos bois; da Guarda Nacional Republicana, sabre à vista, a cavalo ao longo das estradas; das íbis brancas nas lavouras.

António Ferro, dadaísante, o mais novo do grupo de Pessoa, encontrou o ditador, apaixonou-se, converteu--se à tradição e criou o SNI. O Palácio Foz foi o local de encontro de todos os escritores hostis a Franco. Valéry, que anunciara Hitler em 1915, prefacia o Doutor: «Já se viram povos queixar-se de terem sido libertados.» Dormitantes, as letras portuguesas só existem por Natália Correia, a mais ilustre das atlantas, que se contenta em responder às declarações de amor dos plumitivos impondo-lhes o seu Ego. 

— Está lá? É Catarina de Ataíde?
— Não, senhor. Daqui é da Companhia dos Telefones. As linhas do telefone cruzavam-se continuamente. Eu chamava Catarina e dava com a Companhia dos Telefones ou ouvia: É engano. Estava desiludido. 

Mal tinha desligado, Liebig chamava-me, e percebendo a minha irritação: «O seu amigo Chadek chega de Paris. Venham juntos ao Turf Club... Você devia resistir à sua obsessão de agir.» 

No Chiado, um prédio que em nada se distingue. Suba ao segundo andar e transponha a porta: a casa abre-se sobre jardins interiores que a pujança dos buxos aconchega. Salões ingleses, acajus, veludos cor-de-rosa, e, nas paredes, os retratos dos últimos pretendentes da Europa. Reis mortos, muito velhos, e aqueles príncipes de calças de golfe, e todos os que nunca terão um centímetro de terra onde reinar, Manuel, Carlos, Barcelona, Paris, Bourbon-Sicília, inefável espécie em vias de desaparecimento com os seus dentes de pequeno carnívoro. 
Única presença republicana, o dicionário de Pierre Larousse, cada artigo um tratado furibundo sobre o fim das monarquias. 

Rey Torgal, a quem por amizade chamavam rei de Portugal, presidia à mesa redonda onde estavam reunidos Liebig e o seu grupo. E afastado, Chadek, mais conspirador que nunca. Como todos os trotskistas, só podia fazer isto, com Albertini como Este, e, como Oeste, a revista Preuves. A presidência desta reunião secreta não parecia inspirar Torgal. De uma vez para sempre, tinha parado de viver nos anos 1915, quando dirigia as últimas revoltas anarquistas esmagadas pelos Mário Soares da época. Ruminava o assassinato do príncipe herdeiro, Praça do Comércio, e o do seu querido Sidónio Pais, figura melancólica, muito Barrès, o melhor político que Portugal pôde dar ao século XX. Quando passava, o povo aclamava o presidente da República gritando: «Viva o rei!» 

Firmando a voz, ele falou da preparação do golpe. Penderiam à direita ou mais à direita, à extrema-esquerda? Eu estava ali para prestar contas da Guiné e de Moçambique e dar a minha opinião sobre os generais Spínola e Kaúlza quando teria querido falar-lhes da subida dos Capitães, das tensões contidas entre o Estado-Maior e os oficiais. 

Chadek, irritado com as «recordações» de Torgal, sussurrava-me : «O grande, o quarto à esquerda, é o famoso conde Z..., falso conde papal mas verdadeiro traficante de armas, o inimigo de classe e de sempre.» 

Liebig encarava-nos, desconfiado. Quando se sabe em que se torna uma revolução, repetia o bom Torgal com uma variante... Eu sou aliás o último sobrevivente do grupo A Máquina que queria vingar Sidónio. Os outros três morreram: Adrião Barata, António Fernandes Monteiro, José Francisco de Sousa. 

Chadek, chamado à ordem por Liebig, tinha-se posto a passar-me notas em folhas arrancadas ao seu caderninho: 
Conde Z... O maior comerciante de armas da Península. Amigo pessoal de Salazar e do sultão de Marrocos. Em 1961, organiza a ponte aérea entre Lisboa e Luanda para encaminhar os reforços. 
ROMÉNIA COM Discípulo de Loyola. Muito ligado aos chineses. até aqui jogo chinês contra Rússia 
E contra Estados Unidos actividade ECONO alemã ENORME e tradicional Actividade INGLESA bastante intensa — — — — Quando os créditos se tiverem esgotado do lado alemão e inglês Viraram-se espontaneamente para a França. Jogar na China a fundo, é conseguir uma base para melhor a trair. 
Três tempos: 1.° Aproximar-se da China, exaltar o seu complexo anti-soviético. 
2.° Provocar o confronto, esperar que os dois antagonistas se esgotem. (Os Estados Unidos ver-se-ão implicados do lado da China, por causa do lobby pró-sionista de Washington.) 
3.° Jogar num terceiro tempo a cartada da Europa e dos seus espaços de influência próprios: 2 a estratégia terceiro tempo. 
esta pouca reacção pouca capac. ofensiva muito pouco. 
HOJE o jogo chinês já não rende Eles procuram um apoio em Nações amigas e devem 
(opinião pública) poupar o Kremlin 
1) Z... leal em relação a Bucareste 
2) Relações interessantes 
3) das quais o ministro da Educação + outros ministros 
4) apreciado (diz ele) por Ceaucescu 
Contactá-lo ulteriormente para os nossos assuntos de Africa. (utilidade operacional certa) 
Eu acrescento: há simetria fatal, há até, elipse fatal. 
— Portugal: cloaca da Europa de Leste. 
— Europa de Leste: foco invisível de Portugal. 

Entretanto, Torgal acabava o seu discurso com uma citação de Salazar que, posta ali, parecia uma profecia do Padre Vieira:
«É a origem militar do regime português actual que dará sempre à nossa revolução o seu carácter específico. Aqui, não coube a um partido ou a uma força revolucionária tomar o poder, mas ao exército, órgão da Nação inteira, que, contra todos os partidos, interveio, sozinho, para criar as condições necessárias à existência de um governo nacional.» 

E concluía Torgal: «Na véspera do acontecimento, não se esqueçam que o vosso exército deve ser o instru-mento e o garante dum novo governo nacional erguido contra os partidos. Velarei para que esta promessa seja mantida. O tempo, meus caros amigos, doravante não é mais que um acidente da minha pessoa... Sidónio, Pierre Benolt fala nele no seu Prêtre-Jean. A história começa com um roubo na embaixada de França e acaba com uma entrevista da heroína, descendente de Dom Sebastião, com Sidónio Pais que lhe promete restabelecer a monarquia...» 

Liebig, por sua vez, ia falar. Eu via o seu peito enorme reflectir-se na mesa envernizada, parecido com Couthon na sua cadeira: «A crise de 1929 estava ligada à depressão mundial. Os republicanos, corridos do poder desde o golpe de Estado de 1926 que pusera o general Carmona à testa do governo, mantinham uma acção militar e civil permanente. 

Cada cinquenta anos, o país sonha ser a primeira sociedade liberal avançada do mundo. Cada cinquenta anos, o libertário volta à superfície. Procura-se então um banqueiro ou um professor de economia capaz de casar meio século de bordel com O Espírito das Leis. 


Salazar, ex-seminarista, professor na Universidade de Coimbra, foi solicitado, em função destes critérios, pelo bravo coronel Vicente de Freitas. Repôs a ordem assim que conseguiu o direito de veto sobre as despesas públicas. Mas este temperamento de Antigo Regime, este patriota austero ia avançar em silêncio, criando atrás de si o equívoco, os equívocos. A burguesia ocupava os lugares. Tirava todo o dinheiro possível das massas trabalhadoras. A hora dos capangas tinha soado, esses homens de tiro rápido que acompanham, discretos, os grandes patrões do peronismo ou os nossos. 

«A África? Era El Rey Podrido, o «rei podre» deste universitário desatento, demasiado desatento à história. Como quereis que Marcelo sem génio nenhum — seja mais que o cabeleireiro de São Bento na antecâmara do mestre? Durante os treze meses da sua agonia, Salazar hibernado, alimentado, ventilado, dialisado mecanicamente, puxou os cordelinhos do seu sucessor, zombie alegórico dum zombie já quase ectoplásmico. Mas que teria Salazar dado à nossa organização? Trezentos mil dólares aos bocadinhos !...»

«... Salazar trazia tudo às suas ideias, que exprimia em raros discursos concisos, espécies de meditações de cartucho. Longe do povo, apaixonado por Portugal, desprezando talvez os portugueses, faltava-lhe a substância humana. Não houve mulheres na sua vida, a não ser duas filhas naturais que eram apresentadas como suas sobrinhas... Uma história da carochinha! 

«... Era contra os projectos mirabolantes dos outros, mas esperava o Messias: tudo isto, para nós, nihilismo. Em África obstinou-se, esquecendo que no pior da ocupação espanhola as nossas colónias eram garantidas pelo Santo Padre. Na metrópole, resistia ao progresso. Poucos carros, algumas estradas. Não se devia corromper o povo com o dinheiro. E por mais que resistisse às pressões do capital, este não deixava de implantar as primeiras grandes indústrias no Porto e em Lisboa, trazendo a Alemanha e a Suécia, os Estados Unidos. 

Quanto à Grã-Bretanha, era para a segunda vez, embora ele tivesse declarado que nós não seríamos mais os vinhateiros da Inglaterra. «As nossas aldeias tornavam-se, com o turismo, circuitos de satanismo. O salazarismo mantinha os moinhos de vento. Lembro-me dum casal de moleiros à janela da sua torre, o burro albardado à porta, olhando ambos em silêncio as asas paradas, o vento amortecido pelas árvores: Pouco vento! Pouco! Com efeito, os industriais multiplicavam os eucaliptos para o fabrico de pasta de papel. 

Com o capital, Salazar tinha relações incestuosas. Quatro guerras civis à espanhola não chegariam para mudar a mentalidade do capitalismo...» (Liebig procedia à portuguesa. Repetições, conclusões nos prefácios, aquilo podia continuar durante horas, recusando, bem entendido, distinguir entre a lógica e o real.) 

«... Mesmo quando esquecia a vocação mundial de Portugal, Salazar encarniçava-se em manter, a todo o custo, as Províncias Ultramarinas. E o mundo mudava, invadido por esta infinidade vertiginosa de ideologias que hoje nos situam na zona do desastre. Não recusemos mais a realidade, afrontemo-la sob pena de nos encontrarmos prisioneiros dos universos paralelos. 

Eu digo, apenas um homem é capaz de assumir a nossa revolução, o general António Spínola. Despachemo-nos. O vazio aspira...» (Ia falar de Spínola como de um deus. Era um deus que ele fabricava à medida que ia retraçando a sua carreira, um deus cuja cabeça seria ele mesmo. Além disso, um deus coerente, o contrário dum autocrata, tão à vontade, segundo ele, de camuflado como de smoking. Ou ainda de calças de montar, cavalgando Hanover no Campo Grande, um minuto e quarenta segundos.) 

Mas o meu Spínola, eu via-o à minha maneira: ... Nascido em Estremoz a 11 de Abril de 1910; colégio militar, 1928; esporas, 1933; oficial de cavalaria, voluntário franquista durante a guerra de Espanha no corpo dos Viriatos. Acredita no perigo do bolchevismo, e prova-o quando pede que o mandem para a frente russa, observador diante de Leninegrado. Incorporado algum tempo numa divisão panzer, vê nos seus binóculos os nazis formarem os soviéticos no terreno à força de os combaterem.

... Ajudante de campo do general comandante da Guarda móvel, é visto de boina e botas, desafiando com o altifalante, em plena reunião eleitoral, o general Delgado e pô-lo fora da tribuna. Vai terminar coronel dos Quépis, quando Adriano Moreira, ministro do Ultramar, lhe propõe a África. Aceita e encontra o seu destino: peúgas de seda ao desdobrar a perna, pingalim, luvas de malha, monóculo, examina a acção, rodeado de ordenanças de jabot, trazendo um deles o pó, o outro o espelho e o terceiro as pistolas de arção como se ele fosse fazer haraquíri debaixo dos ramos. 

De Ambriz a São Salvador da Congo em Angola, ele está, nos dias tórridos, tão à vontade na floresta como no seu jardim pessoal, anacrónico e disfarçado, temível contraguerrilha. Os soldados, a quem este carnaval espanta, estimam-no. Já é alguma coisa, quando para mais se tem o mau costume de tudo referir à sua pessoa. Hábil também em fazer de operações minúsculas dramas de sombra gigantesca. Excelente táctico, de formação prussiana, mas nenhuma visão de conjunto. ... Primeiro oficial português a saber utilizar os jornalistas. Estes sabem, por natureza, tão bem relatar outra coisa além da realidade, e mentem de tal modo, que já nem sequer podemos acreditar no contrário do que eles dizem. Mas têm o poder de fabricar uma reputação, de arranjar um triunfo ou de demolir um homem. 

... 1966, governador da Guiné, a glória do Império, caracoleando de helicóptero até aos braços dos publicistas que se sucedem em Bissau, atraídos pelo fausto deste pretório do Châtelet: «Minha senhora, eis as Legiões!» ... Grande senhor, dá ceias no mato, com Vivaldi na estação seca. Desenvolto, oferece à sua Corte o prazer da emboscada, recebe a BBC, o Figaro, o Die Welt, o Washington Post, principais agentes das suas intrigas, ao sol no meio dos buracos dos obuses. Liberta com um estalar dos dedos todos os prisioneiros das ilhas das Galinhas que vão a correr perder-se nos pântanos; agita-se a tal ponto que a guerrilha se transforma num jogo frívolo, carcaças delicadas que saem à luz dos cornos da lua. 

Temos que reconhecer que ao contrário de Cabral, que é visto mais vezes em Conacry que com os seus homens, Spínola arrisca a pele para o espectáculo. Pedaço de rei, diz a tropa designando a sua silhueta que se propulsa com um ressoar de motor. ... Artigos, rádio, reportagens correm, e familiarizam ao longe a sua querida figura. É a quem lhe puser na língua o elixir da invulnerabilidade. 
... Mas Bruce Loudun, do Daily Telegraph, leva a palma do Pigmalião. Em alguns meses, transforma Cipião o Africano num homem político moderno de quem se fala em Lisboa, próximo ministro da Defesa, sucessor do primeiro. A via está livre: como Presidente da República, tirará Portugal do impasse. Que importa que só tenha uma ou duas ideias na cabeça? A sua comitiva está encarregada de as desenvolver num livro que ele assinará como se se tratasse do Pequeno livro vermelho. Da América aos monopólios europeus, escribas, autoridades já depuseram todas as suas esperanças neste general de sonho confeccionado pelas Cabalas... 

Mistério da Redenção. A má língua é uma arma clássica. Como fingir a verdade quando a própria verdade é inacessível? 

Liebig: «François! É a sua vez!» 

— Spínola, comecei eu um pouco solene entre os sérios conjurados, os senhores tomam-no por um de Gaulle, mas de Gaulle alguma vez comandou os CRS? Se eu estivesse no vosso lugar, não contava demais com Spínola. Salazar, por temperamento, não tinha a lucidez graças à qual teria compreendido, desde o fim da guerra, que na época do Terceiro Mundo, um império católico é impossível. O seu regime não era o fascismo, mas uma restauração que adormece depois de um caos. Os senhores tiveram a pior espécie de república. Lembrem--se, ele tomou discretamente o poder e, desde que reforçou a estabilidade política, não parou de conservar os lucros dela, abafando toda a referência à sua pessoa e aos seus princípios. 

João Ameal, o único historiador partidário do regime, acaba o seu livro mesmo antes da ditadura. E a única obra sobre o Estado Novo foi escrita por um espanhol. «Desde que Spínola é administrador da Siderurgia Nacional, este Estado dentro do Estado, os assuntos políticos acabaram por seduzi-lo. Imagina que no campo civil será Maquiavel, e até muito mais forte. Salvar o quê em Portugal, quando o problema essencial é agir em Africa com os movimentos de libertação, aproveitando a subversão e as ambições dos chefes históricos? 

Em Portugal anda-se um pouco demais à maneira de Rivarol ou de Maurras. Ultrapassem o pensamento da direita, as suas explicações líquidas e as suas nuvens idealistas, e apoderem-se da própria substância da esquerda. Não é tempo de avançar mascarado? A apropriação da dialéctica é o primeiro degrau para o poder. 

«Este golpe de Estado com que os senhores sonham só tem sentido se fixarem em Portugal a base subversiva exterior do gaullismo, que apertaria, com a França, a Europa inteira como numas tenazes. Por gaullismo, entendo eu a filosofia comum da Europa, mais as suas zonas de influência, do Oceano Indico à América latina, oferecendo ao mundo a sua lei revolucionária de tipo novo.

«Abandonaria o general Spínola ao seu maniqueísmo fácil. A liberdade, em 1973, já não é um objectivo trágico. Só em Kafka encontramos pessoas que fomentam sozinhas uma revolução, e a levam a cabo. 

«O lealismo de Spínola teme as sedições por ter reprimido uma dezena delas. No momento presente, a força não existe e em vão tentam defini-la. 

«Então, eis o que eu penso: sugiro-vos um outro general, Arriaga... Vão dizer-me que a sua missão em Moçambique se saldou com uma derrota. Mas ele, ao menos, ousará. Afinal, não o tinham mandado para ganhar politicamente a sua guerra de África. Só estava encarregado duma missão de policia. Que representa uma vitória contra uma guerra subversiva se, logo depois, duas pessoas disfarçadas de moçambicanos recomeçam a chatear na rádio do Cairo e de Dar-Es-Salam? Podemos exigir que Kaúlza faça o seu jogo um pouco mais à esquerda. Trair a direita não é trair. De Gaulle nunca traiu a Argélia, deu-lhe uma oportunidade. Demos uma oportunidade ao general Kaúlza de Arriaga.» 

A indignação! Ninguém tinha percebido que a política funciona por teses e definições contraditórias. Todos se tinham envolvido nesta conspiração. A esta hora, menos que nunca, quem tinha interesse em que se fizesse luz sobre tantos assassinatos, general Delgado na Península, Mondlane na Tanzânia, Cabral em Conacry? Seria tempo de esclarecer Spínola e Costa Gomes, caranguejos às costas dos quais Salazar se tinha mantido quarenta anos, ditador retorcido, sem escrúpulos, e na ocasião faltando à sua palavra em nome da legitimidade. Quem explicará a misteriosa evasão de Cunhal? Quem falará das relações secretas do regime com o Partido Comunista? Se Salazar não tivesse sido doutro tempo, talvez tivesse governado com o PCP sob a máscara duma tecnocracia social. E se é verdade que o terramoto de Lisboa foi a expiação do rei D. João V, que desastre seria a de Salazar? 

Liebig tinha desenfreado, veemente: «... de Gaulle nunca foi da Action Française, mas da Abwehr.» (Na história do verbo político, mais uma metáfora. Não se esmiuça diante da Assembleia. A menos que na cabeça dele AF fosse uma variante de AB. O ódio é mais ou menos subtil.) 

E na sala, estalos de bicos, arquejos, quiriquiqui, quiriquiqui. O conde Z... tinha-me passado um cartão com as armas pontifícias onde tinha escrito: «O homem da situação é o general Bettencourt Rodrigues.» 

Chadek tinha-se levantado arrastando-me para fora: — Isto é que são os seus revolucionários? Isto é antes a direita. Conspiram mas raciocinam segundo os humores e as indignações. A injúria da direita é caricatura, a da esquerda uma vontade calculada de desonrar no âmbito dum código patriótico. Tudo serve para fazer evoluir a relação de forças. Nós, ao menos, sabemos guardar uma certa objectividade na sacanice. — Tem um general americano na manga?

... (Sem me dar tempo para responder, encadeou.) — Os estalinistas chamam-nos, a nós trotskistas, renegados, porque, é verdade, nós sabemos a cantiga, e como trabalha a ortodoxia cujo método de análise é o mesmo por toda a parte. Uma perfeita sincronização engrenada directamente na classe operária. «Posso dizer-lhe, François, que o PC português enfeudado a Moscovo não quer de modo algum tomar o poder. Seria uma mudança tão radical da estratégia da URSS que eu imagino mal os russos a estender tão longe a sua testa de ponte europeia, e baixar a Cortina de Ferro sobre o Tejo. 

«A inteligência dialéctica, François, utiliza as contradições a fim de as ultrapassar. Mas, antes, é preciso aguçar estas contradições, torná-las paroxísticas. «Quer dizer-me quais são, entre os seus amigos, os adversários do golpe de Estado? Onde situa você as forças de polícia? «A estratégia comunista é mundial, não é portuguesa. O Kremlin avança os seus peões. É a política da alcachofra, folha a folha. Depenemos a galinha, dizia-me o capitão Trent, um comunista dos anos 20, ao falar do Partido Socialista. Em Barcelona, lembro-me eu, os estalinistas aliaram-se aos radicais de esquerda, a Izquierda, e, folha após folha, espancaram os anarquistas nas caves da Praça da Catalunha, fuzilaram as gentes do POUM nas encostas do Tibidabo.»

(...)
Avançávamos pelas ruas, o rosto de Chadek mais pálido que de costume. Trotskista, tinha visto todos os seus amigos enlameados, esmagados, liquidados, mas quaisquer que tivessem sido as suas vicissitudes, não  parara de buscar a acção (até ao seu encontro com Liebig, que lhe tinha prometido que em Portugal, desta vez, era a valer, enquanto lhe ia fazendo discursos sobre «o Kremlin sucessor do gabinete de São Petersburgo e a paciência asiática dos sovietes.») Chadek falava entredentes, arrastando-me no meio da multidão lisboeta mal acordada do torpor do Estado Novo, logo embalada pelas falas de Marcelo. O Chiado fervilhava, na tepidez húmida e clara, grandes rostos trigueiros e rústicos, o lado asteco-turco deste povo que resiste a tudo quanto lhe é dito, cansado de nada. Metade joga à lotaria, a outra espera Dom Sebastião.

 — Desde há dez anos, o PC português infiltra o exército português ao nível das capitães e dos sargentos e por combaterem em África. Portugal não interessa a ninguém, mas sim a África portuguesa. A Frelimo e o MPLA são movimentos de libertação vendidos há longa data à URSS, que Moscovo quer ver no poder em Lourenço Marques e em Luanda. Como? Graças a estes 10 % de oficiais comunistas. Uma parte ocupará os americanos em Lisboa, a outra entregará Moçambique e Angola, tão fracos por dentro, a Samora Machel e a Neto. Estes dois países controlam a África austral. Pretória, entre os levianos do liberalismo anglo-saxão e os setembristas do racismo, desabará economicamente. Veremos os boers barricarem-se na província do Cabo e resistirem como há um século aos zulus... 

Repito-lhe, preparemo-nos para futebol, a finta em Lisboa e o golo em Luanda. — Você quer dizer, Chadek, que a URSS faz revoluções fantoches como a Rússia se autorizava a fazer guerras fantoches? (A minha pergunta era bastante mundana.) 

Chadek: — Camarada, realmente você diz o que lhe vem à cabeça. Eu não estou aqui para falar de literatura, mas para analisarmos juntos uma situação catastrófica. De crer que existe relação entre os medíocres de Paris, de Lisboa e de Pretória. O que é o poder material oposto ao poder político? Em 1920, só havia cinquenta e sete marxistas na China, entre os quais Mao. E o que é a política do terror face à dialéctica maoísta, que procura sempre as diferentes naturezas das contradições? 

Eu acredito na revolução por toda a parte, em Portugal e na África portuguesa e austral, único meio para mudar o homem. Liebig diz-me que tudo está pronto. Chego, e quê? Assisto a uma conversa! A uma conversa! Você devia ter forçado as coisas. No palácio de Inverno, Trotski força as coisas. Força Lenine tão hesitante quanto Kamenev e Zinoviev... 

— Mas, Chadek, na Alemanha, 1923, «o ano desumano», Trotski aceita tomar a chefia da insurreição alemã. Zinoviev afasta-o, precipita as coisas e desencadeia o putsch cedo demais, logo afogado no sangue; e, apesar do seu fracasso, Trotski vê na França, nos tumultos de 1936, «o começo da revolução francesa»... 

— Trotski, François... Deixe-me falar. Trotski não tinha nem milícia nem armamento. A partir do exílio, a magnificência do seu verbo já não abrange a história futura... Escreve ensaios e tragédias. Limita-se a rimar imagem com miragem. — François, esqueça o passado. É um tique reacionário agarrar-se ao passado... Confidência por confidência, já se certificou do apoio da NATO?... Não! Pois bem, a revolução portuguesa mandará os tipos para as ilhas, Madeira, Açores. Mas, você, guarde distâncias... Até o aconselhava, François, a dizer aos vossos outros amigos do Estado-Maior que vendessem Portugal e dessem o dinheiro aos habitantes, para se irem estabelecer noutro sítio. Tudo isto, é muito pessoal. E deixou-me com estas palavras às quais acrescentou, entre cá. e lá: — Gosto muito de si, mas tenho que lhe dizer isto: nunca pensei que você tivesse força para se converter à acção. 

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