segunda-feira, 29 de agosto de 2016

QUINTO IMPÉRIO (excertos) de Dominique de Roux. Após a Guiné e antes de Moçambique

EM LISBOA APÓS A GUINÉ E ANTES DE MOÇAMBIQUE


Lá estavam as fontes Wallace, os cisnes nos lagos da Avenida da Liberdade e o Avenida Palace, os dois ascensoristas de rabos-de-grilo, um que fala do tempo, o outro que não diz nada. A ficção dos anos 20 referia o Avenida Palace e os seus crimes extraordinários. Este hotel era para mim a solidão e, pela primeira vez, uma casa, criados, a mesa posta a horas fixas. 

— Donde surge você? Liebig acabava de fazer a sua aparição, os pés em estribos de alumínio, empurrado por um paquete de olhos de veludo. Nos aeródromos há cadeirinhas por toda a parte para satisfazer as constantes necessidades. A espécie já não anda, condenada a longo termo a já não se ter nas pernas: depressivos, paraplégicos, drogados. — Enfim, donde surge você? 
Ele vinha em má hora. Eu dissimulava a minha irritação, tinha vontade de o dobrar em dois e o arrumar a um canto. «Vai cantando, meu velho, do alto da tua caixa.» Apetecia-me estar tranquilo. Precisava das minhas recordações, de ver-me viver sem história, enfiado na espessura das paredes, sonhando com a Suíça e procurando rever Catarina de Ataíde, que me importava mais que apresentar-me para o relatório. Ele acabava por importunar-me. Eu não nascera para a política, não era o Sr. Sihanouk que gosta de Brasillach por causa do estilo. Eu nascera para o olhar... E em Bissau devia-se fazer fogo, em qualquer sítio, de madrugada. 

— Pois bem, François, conte lá. 

— Você deve saber mais que eu! Eu tomara um tom suficientemente desagradável. Eu sei varrer a minha testada. Era mais ou menos, também, o que diz Heidegger sobre outro assunto: «Deus». De repente: Spínola, Otelo, as minhas impressões? Spínola antes Pétain: a memória, mas sem o esquecimento, a pior. Uma criatura interessante, esse Otelo, irá onde o mandarem, atormentado pelas ambições dum artista, esboço de cesarzinho... Capaz de dizer asneiras em cinco línguas. 

— Então, quando? 

— Como, quando? 

— Você tem que partir amanhã para Lourenço Marques. Kaúlza de Arriaga, nosso comandante-chefe em Moçambique, está pronto para recebê-lo. Quando voltar, eu terei todos os elementos necessários para o golpe. 

E punha-se a insistir na minha viagem. Eu tinha que pôr-me a andar imediatamente. Todas estas viagens que ele organizava para compensar a sua paralisia! Felizmente, julgava-se o centro do mundo, só ele um Estado e, à falta de ministério, os bolsos cheios de bilhetes de avião. 

O que fez sobreviver Franco, Tito, Mao? O poder. O poder, sempre dado, nunca é completamente tomado. O poder apaga tudo, excepto ele mesmo, e no entanto o que é? Nada, é este o segredo. A política existe para os que não a fazem. Cuanto cuesta morir! Quanto custa morrer! Franco, que se julgava imortal, agonizava na bandeira do reino, tendo reposto no trono de Espanha um príncipe duplamente ilegítimo. Ignora-se quem é o verdadeiro pai de Afonso XII, Isabel II tendo sido violada pelo regente, casada com aquele Francisco de Assis, alcunhado «Paquita», que nunca foi capaz de se resolver a dormir com ela. 

Segundo Liebig, a decomposição do poder político em Portugal começa em Goa. Salazar teria devido.... Salazar isto, Salazar aquilo, Salazar despachando os seus ministros com cartões de visita: «Aconselho-o a ir descansar», inscrito a tinta preta com a sua letra miudinha. Liebig: «Goa, percebe? Gandhi e os seus gurcas, a marcha pacífica, as vacas atrás dos tanques. Na realidade as coisas nunca são tão simples. Tudo se sabe, mas ninguém sabe do que está a falar. Olhe, leia estes dossiers. Um segredo de Estado: conta-se logo! Aliás Lenine, explorador para seu proveito das mínimas mudanças de circunstância, o golpe de mestre dele foi inventar uma legitimidade pseudo-monárquica, a confiscação da política em proveito de uma minoria. O que é Moscovo ao princípio? Uma vilória rodeada de paliçadas contra os tártaros, que os moscovitas, ao longo dos anos, aumentaram sem cessar. 

A alternativa, conhece-a você: Spínola-Kaúlza. Você acercou-se do primeiro como no bilhar, pela tabela. Kaúlza, vá direito a ele, fale com clareza. Ele não janta à luz de velas, nos salões neutros. O tempo é pouco. Caetano não para de reflectir para nada, agitado, sem convicção; acabará por pregar estados de alma aos militares de carreira. Ora, você sabe, no fim dos regimes, quando uma sociedade morre, tudo vai ao ar e o recurso à legitimidade torna-se então um pis-aller. Eu tenho medo dos comunistas. Eles querem o desarmamento moral. Você conhece a expressão de Chadek: «Quando os militares se esquecem da espingarda em casa, são sempre batidos pelos civis.» 

Os generais de África são a nossa última oportunidade. Porque, digo-lhe eu, François, o caetanismo leva às zaragatas e às regressões de 1910, a Mendes Cabeçadas perguntando ao seu colega, general Gomes da Costa: «Que tal é esse Salazar? Você conhece-o?» Tinham-no mandado vir de Coimbra, unicamente recomendado por um oficial de artilharia, uma instituição de confiança.

Hoje não há projectos, mas ideias e a angústia permanente das ideias permanentes. Só os emigrantes têm projectos. Sonham. Os judeus, 2000 anos, esperaram, rezando, o regresso a Jerusalém. O começo duma sociedade sem classes é uma sociedade sem projectos, sem passado nem futuro. Até as raparigas, na província, já não querem esperar um filho, mas um garoto já nascido que dirá mais tarde: «As mulheres não são nada.» Com efeito, as mulheres e os homens, não são feitos para viverem juntos. 

Liebig insistia, desta vez, com bilhetes de avião. — Moçambique, e o regresso...

— Sim, Liebig. 

— François, meta isto na cabeça, a ordem é indispensável em política. A longo prazo, tudo está perdido. E o longo prazo aproxima-se, o longo prazo cá está. 

— Sim, sim, Liebig.

(...)
Ele tinha-me deixado o seu dossier, com um elástico. Em letras garrafais: AGITAÇÃO SUBVERSIVA; e em exergo: «M. Kanapa, assistido por Jacques Denis (de origem polaca; chama-se na realidade Spiewacki), está em contacto permanente com Vadim Zagladine, que, sob a autoridade de Ponomarev, está encarregado, no comité central do PC soviético, das relações com os partidos comunistas da Europa ocidental.» 

Seguiam-se listas de nomes, nomes falsos, redes disfarçadas e pseudónimos, cem vezes os Treze e os seus companheiros, Setembro negro perseguido até ao ninho dos pardais. 

«O X Congresso da IV Internacional realizou-se clandestinamente numa localidade da Suécia meridional, onde aprovou o programa de uma frente unida revolucionária agindo principalmente na Europa e na América latina... Hegemonia da corrente trotskista, liquidação progressiva das outras correntes, maoístas, castristas, anarquistas, liquidação das correntes pro-árabes e dos contactos com as organizações palestinas, criação de redes paralelas à IV Internacional. 

«A Suécia e a Finlândia constituem os canais de penetração dos serviços trotskistas no Leste europeu, até ao coração da União Soviética. Copenhaga é a plataforma giratória utilizada por estes agentes que se infiltram em Varsóvia, Praga, Leninegrado, Tallin ou Riga. Para o Sul, que compreende a Áustria, a Alemanha, e a Suíça, as bases principais são Zurique, Viena e Francforte. 

«A organização clandestina russa anticomunista NTS (Narodno Trud,ovoy Soyuz Russkyh Solidaristov) é apoiada pela CIA, o BND 1 e a MOSSAD 2. Sob o disfarce da companhia aérea sueca Crownair, os serviços de contra-espionagem suecos conseguiram furar o sistema ABM (antimísseis) soviético «Blue-Belt» (o seu nome no código da NATO) na costa Sul do golfo da Finlândia, numa região no Noroeste de Vaana (cerca de 15 Km a oeste de Tailin) e na região de Hogland (100 Km a noroeste de Narva). 

«A operação OKKUPP tem por objectivo a criação de uma central de agitação nacionalista na Finlândia e a infiltração do Partido Comunista das repúblicas soviéticas carélo-finlandesa e estónia, hostil à linha Brejnev, a fim, também, de poder desenvolver, num segundo tempo, na própria União Soviética, uma oposição interna de tipo trotskista. 

«Na Suécia, o IB (Informação Byra) do social-democrata Birger Elmer (serviço paralelo trabalhando para o general Stig Synnergren, chefe de estado-maior) ... 
«Liquidação de Feltrinelli e do grupo Baader pelos serviços da Alemanha ocidental, brigada especial GSG9 controlada pelo ministro federal Hans Dietrich Genscher, após a mudança da linha política de Brandt depois da conferência de Orenanda (em Agosto de 1971). Em Orenanda, Brejnev, apoiando-se nas provas contidas no dossier Aleksandrov sobre o comprometimento dos serviços federais da Alemanha ocidental, o BND, e da sua participação na sublevação de Praga, obrigara o chanceler alemão a abandonar a linha pró-chinesa e a ordenar assim a liquidação dos grupos terroristas Brigate Rosse...» 

A Informação é estúpida. Quer submeter tudo à, lógica, esquecendo o que há de absurdo, de contingente, e de fortuito, a ambiguidade, a metáfora. Para mais, o agente secreto tem miolos de tecnocrata. Mais vale agir em pleno dia. A Carta Roubada, de Edgar Poe! Em vez de a esconderem, põem-na em cima da mesa. Todo este labirinto de agentes triplos, de barbudos ofuscados pelo delírio causalista mais não formava aos meus olhos do que a granulação de um resíduo de café. Dir-se-ia um inquérito policial do Libération, os seus jornalistas apanhados na espiral do fantástico, a histera negra como pano de fundo. 

Os parvinhos com a boina basca do Ocidente cristão, pensava eu, em vez de cultivarem a sua intuição e de recrutarem adeptos, continuam a confiar nos seus informadores, criados de café, mulheres da sociedade, porteiros, provocadores, vindo tudo a parar nos seus escritórios, uma visão do mundo alucinante. Do lado de lá, um militante qualquer é capaz de viver cinco, dez anos num sótão, cheio de ilusões, tudo para o êxito do Partido. Este género de jornalista nunca está onde se espera. Eu sentia de repente que estava só, tendo contra mim a perspectiva dos hábitos, categorias, classificações. Tinha, contra mim, incorrigíveis presumidos. Era o vazio das horas graves. Na paróquia glauca da espionagem política, as religiosas debocham-se e as putas deixam-se estripar pela Pátria, etc. A angústia acusadora. Que ia eu fazer nesta galera? Sentia-me um pouco romancista, com iniciativas neste sentido, mas já sem nenhuma ideia fixa.

(...)
 Catarina, sentada num banco, fala. A voz rouca da confidência: 
— Eu não digo que o esperava, mas você fazia parte da espera. Um dia penso em política, no dia seguinte em Dom Sebastião. Mas, não vou mais longe, porque ainda não tenho solução. Aqui, não se roubam os maridos às outras, em princípio. O amor é muito difícil. Toda a gente se conhece desde a infância. Nunca se fala de política em Portugal, mas das «estrelas» de cinema, de teatro, que vêm e voltam, do Presidente que corta uma fita. Lêem-se os anúncios. Eu estou para me inscrever na Sedes, uma coisa política disfarçada. (Um silêncio.) Interessa-me por causa de Spínola. Em todo o caso, a situação tem que mudar. Está podre. (Um silêncio.) 

Pertence-se a um grupo, Champalimaud, Vinhas, Espírito Santo; você é admitido nas caçadas deles e está lado a lado com os ministros ou é posto de quarentena. Ai do que não tiver perdizes para oferecer! Acredite-me, aí não se discute a guerra colonial. (Um silêncio.) Não faço ideia nenhuma do futuro, o que há de pior é pensar nele. A vida em Portugal é tão artificial, com festas, só festas, sobrelanços absurdos. Decoração árabe aqui, pagode em casa de Schlumberger... Mme Anderson recita poemas da pior candura católica em casa de Trombéro. Mlle Husan vem de propósito da «Gaité-Lyrique» a casa de Patino para recitar a Religiosa Portuguesa. E não lhe conto as caçadas aos faisões em casa de Brito, toilettes especiais obrigatórias. (Um silêncio.) Eu visto-me de liso, nunca uso flores. (Um silêncio.) Houve um baile dado por um casal perto da Nica, pelos vinte e cinco anos de casamento, unicamente para receber os presentes dos amigos. À noite, separavam-se. E de que se fala? De dinheiro, de viagens a Espanha, dos preços comparados do Hotel Baltimore e do Hotel Sintra. E aqueles homens tão adoráveis, à noite, depois de terem beijado a testa às mulheres, você encontra-os nos bares à conversa com as putas. Todos eles só pensam em gozar. Gozam no país. (Um silêncio.) Um país podre. (Um silêncio.) Dom Sebastião é a minha esperança. Mas isso faz parte dos sonhos. Não se fala nisso. (Um silêncio.) 

Eu começo talvez a 'duvidar de Dom Sebastião. Existirá? (Um silêncio.) Não sei. 

— E Salazar, Catarina? 

— Eu fui aos Jerónimos, na noite em que ele estava exposto. Queria saber como ele era, morto. Como era aquilo, Salazar morto. Mas tropecei no tapete da escada e caí por cima do caixão. Tento lembrar-me se o vi ou não. (Um silêncio.) Não. Tinha tanta vontade de o ver que caí. Portugal inteiro estava lá. Que multidão! O lado sádico dos portugueses a virem verificar se ele estava bem morto Eu cá, estava tão contente, estava-me nas tintas. Detestava aquele homem. Só podia ser apreciado na sua época, ao princípio. O futuro, ela via-o mal. E continuavam a ir jantar ao Tavares, mascaradas, as trinta famílias. 

Catarina: «... O tempo dos Fonsecas e Burnay, outros grupos, Banco Nacional Ultramarino, Português do Atlântico, a CUF que detém 5 % de todas as empresas do país, proprietária das pirites de Aljustrel, das minas de Santiago, dos têxteis de Moçambique e da Guiné, a C.ia Nacional de Navegação, quarenta e cinco sociedades de construção e de reparação navais, manufacturas de tabaco, de pasta para papel, Companhia Portuguesa de Cobre, CUF outra vez, Pinto de Azevedo e Trefimetais, os cabos eléctricos, o Hotel Alvor, o Banco Totta e Açores, metade do Algarve, a totalidade do governo, uma dezena de generais, entre os quais Spínola. (Um silêncio.) 

Eles dizem: "Nós não receamos nada porque entre a Espanha e a Suíça temos os Bancos, os quartéis e a ITT na mão." (Um silêncio.) Mas você François, o que faz?» 

— Sou jornalista, Catarina. Tinha-me saído bem, bastante com o sentimento de que não existia. Teria valido mais encontrarmo-nos no reino dos mortos, fora da evolução e do tempo, sem o sexo e sem a morte, sabendo que tínhamos sonhado, que tudo é sonho... 

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