quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O QUINTO IMPÉRIO - excertos, continuação. Na Guiné, com Otelo e Spínola, antes do 25 de Abril




De todos os capitães da Guiné, Otelo era o único que, à noite, cobiçava as lojas com a Madame e o filho. Havia dez metros de montras em Bissau: tecido indiano, relógios japoneses, lâmpadas subaquáticas, transístores e camisas. A rue de la Paix. Ele maravilhava-se com tudo, o filhito abrindo as mãos para agarrar tudo, mas nunca era capaz de vergar a mulher. Nada, ela não queria nada. Parecia estar constantemente a meditar. Desejava uma sociedade libertada, socialista. Do social sabia ela. Por isso impelia o marido a tudo ousar. Ele não devia implorar a protecção do Velho, mas alcançar o poder e depressa. Já que Spínola se recusava a fazer a Guiné com ele, pois, bem, Otelo havia de modificar Portugal e ela havia de o ajudar a transtornar a Europa. Num desses dias de colar o nariz às montras, eu disse-lhe, para a provocar, que o Partido Comunista era elitista e que estes plebeus, em cinquenta anos, tinham conseguido criar a Internacional vermelha dos príncipes do Partido, a aristocracia proletária. Ela interrompeu-me:
— O Otelo tem as suas ideias próprias, as suas convicções. Não é nada comunista. A nossa ideologia dos dois não é o socialismo de ninguém.
(...)
- Tudo bem, Otelo...?
— Otelo, Otelo!... Vá esperar-me com Mazin na clareira. Ele (eu) não pode perder a minha chegada...
Em todo o caso, os negros vieram de toda a parte, aldeãos de pulseiras de pérolas, abdómens, tetas, miúdos e velhotes. Um chefe tradicional tira sons de uma carapaça de tartaruga. Não sabe tocar; pensa saber. O ar, com todos estes corpos, cheira a peixe seco e a cueiros. Eu penso em retirar-me para a Suíça!
Mas cá está ele. Voam poeira e ramos. Onde foram eles desencantar esta irmãzinha e estes dois capuchos nos seus cordões? Terão vindo a pé desde Roma? E de que capucheira?
Com Spínola, inútil ir aos desportos de Inverno. Esquiávamos com ele ao ouvi-lo dirigir-se às populações. Esquiávamos na palidez das suas palavras. Mas de que falar quando se é governador da Guiné?... E a África... Um povo livre a caminho do futuro ... Duas, três, quatro horas de seguida, como os cegos das aldeias. Estes negros são admiravelmente crédulos. Atribuem às palavras uma magia, confundindo sempre o querer e o poder, o dizer e o fazer. O próprio Kant, no fim da vida, também ele, se tinha tornado negro: já só acreditava nas palavras.
Examinava Otelo pelo canto do olho. Faltava-lhe o francalete ao queixo e no entanto eu via-o correr, criança, nas praias, de djellaba anil. Lembrava-me: «François, em Moçambique, eu revoltava-me contra a injustiça, porque só brincava com os pretinhos.»

E de volta a Bissau.
Horrível sentimento do já visto, da mesma coisa. Será a vida diferente para os extraterrestres? Eu não ousava confessar a Otelo que Gamparra me tinha enfastiado e que, em Bissau, se acabava por duvidar da própria existência.
Mas o que se passava na cabeça dele? Uma Lua enorme, por cima de nós, que calcorreávamos o molhe. Não longe, raparigas cortavam juncos. A noite cheirava a amêndoas e chegavam até nós vozes de um draga-minas, o único barco atracado, deste minúsculo porto de pesca.
— Tem-se muitos pensamentos quando se tem medo de morrer...
Que quer dizer com isso, Otelo?
— Quis dizer que gosto da África.
E era mostrar-me a noite com um gesto vago como para me provar que havia correspondência entre a África e a noite.
— Otelo?
— Sim.
— Em que está a pensar?
— Estava a pensar que Spínola é um homem doutros tempos. E de resto, sem Cabral não teria havido Spínola. Eu havia de me entender com Cabral se tivesse podido chegar até ele. Mas, o que quer, sou capitão. E isto não passa daqui, não é verdade? Cabral formou todos os movimentos de libertação de África com os mestiços dos anos 60, com os irmãos Andrade que lutam contra nós em Angola, com Viriato da Cruz morto na China. Este, sim, acreditava no socialismo, tanto como Jonas Savimbi!  Por seu lado, Fanon e Lumumba lançaram-se na luta por causa de Viriato da Cruz. Ele tinha uma visão. Era grande, não doutrinário. Recusava os soviéticos como recusava os americanos, e os chineses. Morreu na China, da China. Na China, uma pessoa abandonada e que não é chinesa, morre. Mas porque não havíamos nós de ser os Spínola?... Vou dizer-lho. Toda a minha vida sonhei fazer um golpe de Estado.
- Seja como for, ninguém merece nada... Ouça! Está a ouvir?
Com efeito, diante de nós, no dilúvio das trevas, distinguiam-se ao longe, em qualquer parte, explosões surdas, morteiros, bazuca, depois, um clarão, os foguetes brancos. A noite voltava a fechar-se sobre o silêncio da água, sobre aquilo que seria a última versão da cabra de Monsieur Seguin. Amanhã, se calhar, íamos ver a equipa de futebol do regimento regressar com os pés arrancados. Nós olhávamos um para o outro sem uma palavra, ensimesmados, tendo ele e eu encontrado refúgio no fundo da nossa consciência, aí onde se decidem os mais pequenos gestos da vida quotidiana, a história do mundo e a das fadas. Acabada a adolescência, quando nos sentíamos eternos! A consciência da morte — que o homem cai — tinha-nos entrado na alma como um lagartinho verde. Iluminado de amarelo pelo fanal da draga, Otelo aparecia-me de repente em todo o seu narcisismo, não o César das alamedas de Castel Gandolfo, mas um desses óscares de cinema que recompensam o vencedor duma categoria, um óscar português. O amarelo tinha-o avolumado. O seu ar de gazeteiro tinha-se apagado, substituído por uma hidrocefalia mussoliniana que lhe dominava a queixada. Ao encará-lo, eu recordava a silhueta cinzenta de Spínola, e a sua nuca de feijão: as duas faces de Portugal. Janus inquietava.
E dizia eu a Otelo, na noite, que nada seria mais prontamente acompanhado em Portugal que uma revolução. Que era preciso mudar tudo ao mesmo tempo, descolonizar em África e corrigir os costumes em Lisboa. Não se podia viver neste país como no século XIX, com as suas oligarquias de monopolistas de polainas beges e de banjo, tresandando a lavanda inglesa. Não se precipite, Otelo. Tente um golpe. Uma ideia de cada vez, e vai poder. (Ele olhava para mim, admirado.) Eu hei-de fazer tudo para o ajudar. Eu sirvo-lhe de ligação. Há um grupo em Lisboa só à espera de um sinal da sua parte. Hei-de falar-lhe nisso mais tarde. Eleve o seu país até esta altura (gesto acima da minha cabeça). Pense nas desigualdades sociais, nesta guerra em que você se está a enterrar, na opinião pública mundial, que detesta os portugueses, o «fascismo à portuguesa»...
— Agradeço-lhe, François. Eu penso neste golpe de Estado desde pequeno, quando brincava em Lourenço Marques com os pretinhos. Estamos longe de estar prontos. Há camaradas que pensam que é impossível. Quase chegámos a cair na ratoeira Delgado. E nós admirávamos Delgado... Eu gostava tanto de tornar este povo um bocado mais feliz...
Com que candura ele tinha ousado pronunciar esta última frase. Eu tinha quase a certeza de que se ele alcançasse o poder, havia de querer dar tudo ao povo, mesmo que o arruinasse totalmente desde que isso lhe desse prazer. Regressávamos depressa. Bissau tão tranquila como a Suíça protestante. Aqui ainda ninguém se suicidava. Jeep da polícia militar afrouxando. Cabourg com a polícia montada... Mas porque me tinha eu metido nisto? Um hábito?
No fundo, Spínola, Otelo, eram-me indiferentes. O que me dava gosto era pensar, pensamentos nada práticos, e não revolucionários. Como Flaubert, quereria ter tempo, preparar os meus encontros amorosos com seis meses de antecedência. Balzac alvoroçava-se com a ideia de ver Mme Hanska, de três em três anos, em Neuchâtel! Eu pensava em Catarina no seu apartamento de vinte divisões em Lisboa. Teria ela, por seu lado, decidido tudo por mim? Que aventura, antigamente, ir a Ruão! Uma pessoa tinha que preparar-se. Que fica dos nossos amores de soldadesca? Apetecia-me oferecer a Otelo este propósito de Salazar: «Só conheço um militar que tenha aberto um livro durante a vida, um só, o general Câmara Pina.»
Chegados diante do hotel.
— Luz verde de lés a lés, Otelo!
— Luz verde, François! íamos separar-nos com esta metáfora automóvel, quando, agarrando-me pelo braço: — Devo dizer-lhe que nós estamos muito mal organizados. De certo modo, é melhor que... (Nunca cheguei a saber o que me queria ele confiar naquele momento.)
Dormir, adormecer. De noite, não há nada mais importante que um mosquito.
(...)
Teria sentido Spínola o meu olhar sobre o retrato de Caetano, de fraque pregado atrás dele? Disse-me:
— Está a olhar para o nosso chefe do governo? Marcelo não avança ao ritmo que a situação exige. É preciso travar a tragédia histórica que se prepara. O conflito guineense inscreve-se na corrente da Terceira Guerra Mundial. Sobre um fundo furta-cores, a audiência começara.
O débito do meu interlocutor, grave, apático, pontuado de gestos doces. Vivia-se a crise. Mas a fama que tinha adquirido em combate não a ia comprometer a sublevar o exército. Pelo contrário, queria confirmá-la abrindo os olhos de Lisboa. O seu país arriscava o pior. A Assembleia Nacional não existia; os militares estavam corrompidos; Caetano, fraco diante deles; o Presidente da República, preocupado com o protocolo; os costumes depravavam-se. Não fora a política africana dele, Spínola, que obrigara o Primeiro-Ministro a decretar a autonomia das províncias ultramarinas? Mas Caetano ficara prisioneiro dos meios de negócios e de um estado-maior enfeudado ao capital. Entretanto, os seus capitães exigiam meios para ganhar a guerra: Portugal não lhos podia fornecer e os países europeus, a América concediam-lhos a conta-gotas, tratando-os de imperialistas. Hoje, ele que ganhara a batalha das cidades e dos postos avançados, tinha que admitir que o combate não tinha saída.
Mas quem constituíra a Assembleia Nacional legislativa da Guiné? Ele. Quem acelerara a participação dos africanos na vida pública? Ele. E quem ainda estava a institucionalizar os primeiros representantes legítimos da nação guineense do futuro? Ele, sempre ele. Ele era um lealista, favorável a uma mudança, mas no quadro da legitimidade. As qualidades que lhe importavam não eram as do homem de guerra mas as do cidadão. Pregava: «O governador pode errar. É necessário que o povo esteja atento à sua actuação. É necessário que o povo critique, que fale, que não diga apenas: sim.» Povo, a palavra «povo» vinha sem cessar à boca do governador. Abrira-se com Senghor acerca da autonomia guineense e da cumplicidade soviética na rebelião. Aquando da recente operação Ametista Real, na fronteira Norte, os seus comandos negros tinham tido que enfrentar mercenários brancos, cubanos, alemães do Leste, checos. O seu rosto alongara-se. Dir-se-ia uma mangusta pronta a fingir de ramo durante oito dias para sangrar o seu réptil. Tantas as mangustas quantos os ramos, e os soviéticos já não existiriam. Seguiu-se então uma longa exposição sobre a situação da Guiné para uso interno. Encontrei-me lá fora. Spínola dissera tudo. Mal chegasse a Lisboa ia poder informar Liebig.
(...)

Otelo, na pista, acenava, pequeno, robusto, sorriso encantador, todo o imprevisto, todo o poder da juventude quando os seus trinta e oito anos já não são os de um jovem. Eu via desaparecer Bissau. Agora só a superfície plana da floresta e os seus perigos, a imagem de Spínola dando a última demão. Fingia governar, como em Lisboa, como por toda a parte, como todos os que nos querem fazer crer que têm o poder que não têm. Lado fantasmagórico de toda a política e de toda a vida dali em diante, em proveito do reino da opinião, do reino da quantidade. 

(continua...)

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