sexta-feira, 24 de junho de 2016

Um carregamento de ouro? - Vida Mundial, 16 de Dezembro de 1976


" Angoche" 5 anos depois  AINDA O SILÊNCIO 

Após o que ficou expresso no nosso último número, quase que se tornaria desnecessário prosseguir com o assunto versado. Contudo, dizemos quase. Porque um aspecto não foi focado: a acuação, das autoridades portuguesas após o 25 de Abril. 

25 de Abril de 1974. Logo às primeiras horas da manhã o eclodir de um golpe de. Estado. A proclamação perante as câmaras da televisão: "Portugal será um Estado democrático." 

Para as famílias dos tripulantes do navio "Angoche" — e quiçá para eles próprios — um novo e vasto horizonte se abria. Haviam desaparecido da cena política aqueles que, a todo o transe, procuravam "arquivar" o assunto. No palco outras figuras surgiam capazes de, pensava-se, deslindar o mistério. De dizer a verdade. De envidar todos os esforços para que esta surgisse, clara e bem visível, aos olhos de todos. 


COM OS OLHOS NA TANZÂNIA 

Empossando o I Governo Provisório, no qual figurava como ministro dos Negócios Estrangeiros o dr. Mário Soares, iniciam-se as negociações com vista à descolonização. Uma das primeiras viagens efectuadas com esta finalidade, levou o dr. Mário Soares a Dares-Salam, capital da Tanzânia. 

Logo que houve conhecimento de que esta viagem se efectuaria, alguns dos familiares dos tripulantes do "Angoche" dirigiram-se ao Ministério do, Negócios Estrangeiros pedindo que fosse tido em conta o caso de 24 indivíduos que nada provava estarem mortos. Receberam, nessa altura, a promessa de que tudo seria feito para esclarecer o caso. Porém, o tempo passou sobre o regresso da delegação sem que nenhuma resposta tivesse sido dada. Até que surgem as negociações de Lusaca. De novo os familiares se movimentam no sentido de obterem algo de concreto. Em vão. A única resposta lacónica, imprecisa e ambígua, é recebida em 17 de Dezembro de 1974 e dimanada do gabinete do chefe do Estado-Maior da Armada, cujo conteúdo integral era o seguinte: 

"Em resposta à carta enviada sua Excelência o Senhor Presidente da República e posteriormente remetida a este gabinete, tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Exas. as diligências levadas a cabo no sentido de ser apurada a verdade do caso ANGOCHE. 

Assim, foi encarregado um oficial deste gabinete de proceder a averiguações e este, depois de examinar os vários relatórios do Comando Naval de Moçambique e da extinta DGS, sobretudo um relatório técnico desta Direcção e ainda com base nas informações colhidas em Lusaca pelo dr. Mário Soares, junto da FRELIMO e do Governo da Tanzânia, chegou à seguinte conclusão: "A existir algum sobrevivente, hipótese extraordinariamente remota este não está interessado em se dar a conhecer." 

Apresento a V. Exa. os meus melhores cumprimentos (...). A "hipótese extraordinariamente remota" referida na carta acima transcrita, aparece-nos não ser, afinal, tão remota como isso, a acreditar no depoimento que publicámos no nosso último número. 


QUAL A CARGA DO "ANGOCHE"? 

A carga contida nos porões do Angoche" foi algo que, durante tempo, se pretendeu fazer crer que era constituída por "abastecimentos para as tropas estacionadas no norte de Moçambique", versão da qual se fizeram eco os jornais da época. Passado algum tempo precisava-se melhor o género de "abastecimento": munições e bombas. 

Do relatório assinado por um furriel-miliciano a prestar serviço em Nacala, consta o seguinte no referente à carga: 

"100 bombas avião — 50 kg cada 
100 caixas de material aeronáutico pesando cerca de 400 kg e diverso material de engenharia, tal como tractores, atrelados, tanques e carga diversa." 

No que diz respeito a esta parte do relatório apenas nos chama a atenção o facto de ser feita referência à existência de tanques. Isto porque, se se trata dos tanques de guerra clássicos, segundo, nos informaram tais veículos não eram utilizados naquela zona de Moçambique. 

A carga do "Angoche" seria um facto de somenos importância, se não existissem dois dados capazes de funcionarem como pedras fundamentais em todo o processo: a suposta conivência do autor do relatório sobre a carga com o assalto ao navio; e as declarações, prestadas a título particular por uma alta individualidade político-militar do nosso país no momento actual, segundo a qual a carga do "Angoche", para além do descrito conteria OURO. 


OURO: DE QUEM E PARA QUEM? 

Segundo a mesma fonte de informação, uma elevada quantidade de ouro em lingotes teria dado entrada no "Angoche", ainda em Lourenço Marques, dentro de caixotes em tudo idênticos aos restantes que continham material bélico. 

Chegados que somos a este ponto, apercebemo-nos de que este pequeno-grande facto terá sido, possivelmente, o móbil em torno do quais e gerou o assalto ao navio. Segundo declarações prestadas por Alda Sardo, mulher do Primeiro oficial de máquinas do navio, o marido há muito que lhe vinha confidenciando notar atitudes estranhas em dois membros da tripulação, fundamentando essa afirmação no facto de, frequentemente, os ir encontrar a conversar em voz baixa, parando estes de o fazer logo que se apercebiam da presença de alguém. 

Será possível que o ouro (a existir) tivesse dado entrada no "Angoche", com o conhecimento desses dois tripulantes, e já destinado a passar para outras mãos mediante um assalto? Poder-se-á pensar que o ataque de choro de António Sardo, na véspera da partida de Lourenço Marques, fosse devido ao facto de saber já que aquela seria uma viagem sem regresso? Tentemos reconstituir uma versão possível: 

1 — António Sardo depara com os dois tripulantes referidos em conversa, apercebendo-se estes de que estavam a ser ouvidos. 
2 — Ao notarem isso, confiam a António Sardo qual a verdadeira carga do navio, exercendo uma pressão sobre ele na base de uma troca elementar: o seu silêncio com a garantia da segurança da família. OURO: na base de tudo? 

De certo modo tudo isto não são mais do que suposições. Baseadas, contudo, num facto: após a entrada do navio em Lourenço Marques, nenhuma referência é feita à existência de ouro nos porões. 


A CONTINUAÇÃO DAS CONTRADIÇÕES 

No Verão de .1974 o comandante Silvano Ribeiro declara a Alda Sardo que os tripulantes do "Angoche" se encontravam na Tanzânia. Alguns dias depois telefona dando uma versão diferente: teriam sido devorados pelos tubarões, o, que constituía na altura a versão de Vítor Crespo. Mais algum tempo se passa e nova comunicação de Silvano Ribeiro que apresenta uma nova hipótese, desta feita com o rótulo de "certeza": os tripulantes do navio chegariam a Lisboa no dia 17 de Outubro desse ano. Nessa mesma noite, Mário Castrim e Augusto Vilela telefonam a Ana Maria Bernardino, mulher do comandante do "Angoche", fornecendo-lhe a mesma informação e declarando ter tido esta origem num oficial do exército. 

O dia 17 de Outubro de 1974 passou. Os aviões que nesse dia aterraram no aeroporto da Portela não traziam novas do "Angoche". Nenhum outro avião ou barco as trouxe. Até hoje. Até quando? 

H.G. 

NO PRÓXIMO NÚMERO: O QUE DIZEM AS FAMÍLIAS DOS TRIPULANTES 

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