segunda-feira, 27 de junho de 2016

«Eu ouvi a explosão a bordo do Angoche»

Fomos repetidamente procurados pelo sr. Carlos Augusto Torres, de 72 anos, retornado de Moçambique, onde viveu grande parte da sua vida. Primeiro, como caçador profissional; depois, como industrial de pesca, ou, mais simplesmente, como pescador. Nesta sua segunda actividade africana, residia numa casa isolada, na Ponta Serissa, no extremo norte da Baía de Almeida, situada a sul da foz do rio Lúrio: na costa de Moçambique, entre Nacala e Porto Amélia. Procurou-nos para nos dizer: 
— Eu ouvi a explosão a bordo do «Angoche»! 
— Ouviu a explosão? 
— Sim senhor! Ouvi um grande estrondo no mar, estava eu na cama, antes de adormecer, seriam 10 ou 11 horas; e na manhã seguinte o meu pessoal disse-me que também tinha ouvido aquele estrondo, e que tinha visto fogo no mar. Era com certeza um navio a arder. Pelas notícias que se conheceram depois, não podia ser outro senão o «Angoche». Na altura em que se deu a explosão a bordo, o navio acabava de navegar para norte do Farolim de Chaonde, antigo posto administrativo do mesmo nome, que fica na extremidade sul da Baía de Almeida, a uns 16 ou 17 quilómetros distante da minha casa. Ali, o navio seguia sempre a um máximo de 3 a 4 milhas da costa, e aí é que deve ter sido abordado pelo barco-pirata, que terá obrigado a tripulação do «Angoche» a deitar certa carga ao mar, e depois os raptou a todos... 
— Porque diz que o «Angoche» ia a 3 milhas da costa? 
— Porque era a rota daqueles navios, naquele lugar. 
— Quer dizer que ouviu a explosão que aconteceu a uns quinze quilómetros da sua casa? 
— Sim senhor. Ouvi eu e ouviram os pretos que trabalhavam comigo. E eles até viram as chamas do incêndio, a bordo. Seriam umas dez ou onze horas da noite de 23 de Abril, quando eu ouvi a explosão. 
— Diga-me uma coisa: se o navio tivesse aproado ao largo, digamos, rumo a nordeste, de modo a que estivesse sensivelmente à mesma distância da sua casa, teria ouvido também a explosão? 
— Com certeza. Mas os navios como o «Angoche» navegavam sempre perto da costa, naquele lugar. Nunca iam para o largo. 
— E numa noite com boa visibilidade, até que distância é que os seus homens poderiam avistar as chamas de um navio com fogo a bordo? 
— Até umas vinte milhas, talvez. Mas os navios, ali, navegavam sempre junto à costa. 
— Acha então, que o ataque ao «Angoche» se deu tão perto da costa? 
— Com certeza! 
— Porquê? 
— Porque era a rota deles! 
— Era perigoso navegar para o largo? 
— Não era perigoso, mas iam sempre perto da costa, para aproveitarem a corrente. 
— E há muitos tubarões naquela área? 
— Pesquei lá durante vinte e quatro anos, e só uma vez apanhei um tubarão nas redes. Os meus homens, e eu mesmo, quando era mais novo, atirámo-nos muita vez ao mar para desembaraçar as redes, e fazíamos isso sem qualquer receio. Qual tubarões, qual nada! A tripulação foi raptada e levada não sei para onde. 
— E quem acha o senhor que poderia ter feito isso? 
— Bem, não sei... Mas a tropa nunca quis falar do caso. 
— A tropa? 
— Sim. A minha casa da Ponta Serissa estava isolada e eu recebia lá muitos oficiais e soldados. Muitas vezes. Iam lá comer lagosta e camarão e caldeiradas, e eu gostava de os obsequiar: era a nossa tropa, que estava a combater por nós, e eu tinha muito gosto de a receber o melhor que podia. Mas sempre que lhes falei do caso do «Angoche», todos desviaram a conversa e diziam que o assunto não era com eles: «Esse problema não é nosso» — era o que diziam os oficiais. 
— E o senhor foi interrogado nalgum inquérito? — A mim nunca ninguém me perguntou nada. Mas ai por volta de 1975, deu à costa no farolim do Chaonde uma caixa de granadas, e, algum tempo depois, apareceu uma barrica de 100 quilos de alcatrão em bom estado, sem verter nem nada. Com certeza que era carga do «Angoche». 
— Mas uma caixa de granadas é mais pesada que a água: devia ter ido para o fundo. 
— Pois foi para o fundo, mas há naquele mar correntes submarinas muito fortes, que empurram tudo para terra! 
— A propósito de correntes: se o navio estava perto de terra quando ficou à deriva, como é que apareceu lá tanto para sul, na rota do petroleiro que o encontrou? 
— Bem, eu não sei quando é que ele ficou à deriva. O que eu sei é que a nossa tropa — alguns oficiais — já há muito tempo queriam entregar Moçambique aos «turras». Um dia, um soldado até me perguntou se eu sabia de quem é que tinha vindo a ordem para a nossa tropa não disparar contra os «turras». Eu não sabia, e disse-lhe que não sabia. E sabe o senhor uma coisa? Olhe que quando os nossos soldados perceberam que íamos ficar sem Moçambique, que íamos entregar Moçambique, houve alguns que até choraram de raiva: não sabiam explicar o que sentiam, mas sentiam! Então eram portugueses. 
— E porque é que nunca se soube exactamente o que aconteceu ao «Angoche»? 
— Ora, porquê?!... Pois se eles estão aí por toda a parte; se eles é que estão a mandar! Como é que vinham contar à gente aquilo que fizeram ao navio e à tripulação!? 
— Bem... Vamos utilizar parte do que nos contou, mas queremos saber se pretende guardar o anonimato, ou.. 
— Anonimato? Não, senhor! Quero que ponha lá o meu nome. Tenho 72 anos, já perdi um olho, e ninguém me (lá trabalho. Até se riem, quando eu digo que quero trabalhai', Mas tudo o que eu afirmo é verdade. Fiquei sem nada, ao fim duma vida inteira de trabalho, e os últimos 24 anos passei-o§ a pescar na Ponta Serissa. Estou farto de passar miséria, desde que voltei à Metrópole, em 1976! Para sete pessoas, recebo dois contos e trezentos por mês! Mas tudo o que eu digo é verdade! Olhe, veja o senhor se consegue falar com Pedro dos Santos, que parece que está agora numa pensão de retornados, no Cacém, e que, lá em Moçambique, morava um pouco para o norte da minha casa, na Baía de Matacaua, logo abaixo da foz do rio Lúrio. Veja se consegue falar com ele, e verá se eu não digo a verdade. 


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Pedro dos Santos, outro pescador de Moçambique: 
«Ali não havia tubarões: em 22 anos nunca vi nenhum...» 
No nosso número de 14 de Março último, publicámos as declarações do pescador Carlos Augusto Torres, que nos disse ter ouvido a explosão a bordo do «Angoche», e nos garantiu, pela sua experiência de ter pescado diariamente naquelas águas durante vinte e quatro anos, que ali não havia tubarões. 
A finalizar as suas palavras, recomendou-nos que contactássemos com um seu vizinho em Moçambique, também pescador, chamado Pedro dos Santos. 
No final desse artigo pedíamos ao sr. Pedro dos Santos que nos procurasse — o que finalmente aconteceu apenas esta semana, por ter estado doente, segundo teve a amabilidade de nos dizer. 
Pedro dos Santos é outro pescador português de Moçambique — mais exactamente: outro ex-pescador português de Moçambique, que viveu vinte e dois anos na baía de Metacaua, logo ao sul da foz do rio Lúrio, e imediatamente a norte da ponta Serissa, onde vivia o seu colega Torres. A casa em que ali viveu foi toda construída pelas suas próprias mãos, e encontrava-se num recanto da baía, abrigada dos ventos do mar por uma língua de terra. 
Amavelmente, prestou-nos as informações necessárias para melhorarmos o croquis daquela região costeira que tínhamos publicado, a acompanhar as declarações do seu amigo Torres. E disse-nos: 
— Naquela noite, um pouco depois das 11 horas, ouvi um estrondo enorme no alto mar. Dias depois, quando houve aquelas notícias do «Angoche», fiquei sem qualquer dúvida de que o estrondo que ouvi nessa noite foi o da explosão ocorrida a bordo daquele navio. Na manhã seguinte, os pretos perguntaram-me se eu também tinha ouvido o ruído, e disseram-me que tinham visto fogo a arder no alto mar. 
— Mas aqueles navios não costumavam navegar muito próximo da costa? 
— Costumavam, sim senhor. Nós, em casa, até ouvíamos distintamente o ruído das máquinas. Mas, nessa noite, só se ouviu a explosão, o que quer dizer que o barco iria fora da sua rota normal, navegando mais ao largo. Porque eu ainda estava acordado, e antes da explosão não tinha escutado o ruído das máquinas, como era habitual escutar. Não fui logo para a beira da água, para verificar se veria alguma coisa, porque a minha casa estava num recanto da baía e tinha uma língua de terra entre mim e o oceano: teria de andar a pé um grande estirão. Bastantes dias depois, o chefe do posto, Anselmo Évora, perguntou-me o que eu sabia, e se alguma coisa dera à costa. Mas, passado mais de um mês, deu à costa um par de botas de borracha, daquelas que os embarcadiços usam para lavar o convés dos navios. Tive-as ali alguns dias, e depois desapareceram. Deviam ser do tripulante que mataram e eles deitaram ao mar. 
Aproveitamos a pausa para o assunto fundamental desta conversa: 
— E a respeito de tubarões naquele mar? 
Pedro dos Santos sorri, e diz com naturalidade: 
— O meu vizinho da ponta Serissa já lhe disse que em 24 anos, apenas uma vez viu um tubarão. Eu, com 22 anos de trabalho diário naquele mar, nunca vi nenhum tubarão, nem soube que alguém os tivesse visto por ali. O fundo, naquelas paragens, tem muitos bancos de coral e, por isso, as redes prendiam-se com frequência: tanto eu como os homens que trabalhavam comigo, sempre nos deitamos ao mar sem qualquer apreensão, para desembaraçarmos as redes. Ali não há tubarões. E mesmo que pudesse aparecer um ou outro, nunca seriam em quantidade suficiente para devorarem 24 homens. 
— Em sua opinião, o que aconteceu ao «Angoche»? 
— Com certeza que raptaram a tripulação. Os russos, ou chineses, navio de superfície ou talvez submarino, mas devem ter levado todos os homens da tripulação... 
E, depois de acender um cigarro, continuou: 
— A guerra estava a tomar uns aspectos muito feios, ali para o norte de Moçambique. Algum tempo antes do que aconteceu ao «Angoche», tinha sucedido a mesma coisa a um pescador negro, que era pai de um dos homens que trabalhavam comigo... 
— A mesma coisa? 
— Bem, quase a mesma coisa. Se não destruíram o barco dele, foi porque se tratava de uma canoa que não interessava a ninguém, a não ser a um pescador. Mas eu conto: uma bela tarde, o pai desse meu pescador saiu para o mar na sua pequena canoa, apetrechado para a pesca que contava fazer, como de costume. E aconteceu que, no dia seguinte, o barco dele varou da praia, com todas as coisas lá dentro: os anzóis, a cana, o isco, a âncora, e até a comida que ele levava consigo... Tudo estava em perfeita ordem, a bordo daquela pequena canoa de pesca; mas o pescador é que faltava... e nunca mais apareceu. Ora, pelo aspecto das coisas que estavam na canoa, não podia ter acontecido nenhum desastre que fizesse o pescador ter caído ao mar; e se isso tivesse acontecido, ele voltaria para o seu barco. A opinião geral, incluindo a do seu filho, foi que eles o levaram... 
— Eles quem?... E para quê? 
— Bem... Eles queriam informações sobre os nossos territórios, e coisas assim. A verdade é que o pai do meu pescador desapareceu sem deixar rasto, e nunca mais tivemos notícias dele. Mas a sua canoa deu à costa com tudo em ordem a bordo. 
E aqui findou o depoimento deste outro pescador português de Moçambique, que confirma totalmente o de Pedro dos Santos. Ambos são peremptórios: naquela, região, seria impossível que os tubarões tivessem devorado vinte e tal homens do «Angoche». 

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