sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Operação Angoche OK! Radio-telegrafista morto!" - Vida Mundial, 23 de Dezembro de 1976


"Angoche" - 5 anos  depois 

À ESPERA DA VERDADE 

Do dia 17 de Outubro de 1974 ficaram, para os familiares dos tripulantes do "Angoche", os resíduos das promessas não cumpridas. Dos dias, semanas, meses que se lhes seguiram restam, bem vincados nos seus rostos, o desespero, o cansaço das corridas aos ministérios, a fadiga da espera, horas a fio, frente a São Bento. Ontem aguardando Vasco Gonçalves. Hoje aguardando Mário Soares. Amanhã aguardando outro qualquer. Sempre aguardando novas de outras terras. 

Ontem como hoje quase exilados no seu país. Quase tratados como bichos raros oriundos não se sabe donde, com problemas estranhos a Portugal. 


"NÃO ACREDITAMOS!" 

Frente a nós três mulheres. Às quais nada conseguirá jamais disfarçar o sofrimento destes anos. 

Ana Maria Bernardino: mulher do comandante do "Angoche", Adolfo Bernardino. 

Alda Sardo: mulher do primeiro-oficial de máquinas, António Francisco Sardo.
A mãe de Ana Maria. A idade já avançada não lhe retirou a vitalidade para esperar o regresso do genro. 

"As versões oficiais são falsas. Todos eles mentem quando abrem a boca para falar do "Angoche". Como podemos acreditar na versão que diz que eles foram comidos pelos tubarões? " 

Na voz de Ana Maria Bernardino reside, bem vincada, a certeza de que o marido está vivo. Nada lhe prova, aliás, que ele morreu. 

"Tanto que nós corremos nestes 5 anos, desde Lourenço Marques até hoje, em Lisboa. Todos nos têm mentido. Desde a PIDE em Lourenço Marques até aos Governos sucessivos em Lisboa." 

Alda Sardo conta-nos, quase até ao mínimo pormenor, as diligências que têm efectuado com o fim de conseguir uma resposta. Que lhes diga a verdade. 

"Nunca notei qualquer inimizade do meu marido para com os outros membros da tripulação. Quando muito poderia haver aqueles aborrecimentos passageiros, naturais em quem convive no dia-a-dia. Mas não inimizade." 


LISBOA: QUE FIZERAM OS GOVERNOS?

Nos nossos números anteriores relatámos alguns dos aspectos que nos pareceram merecer maior realce, no que respeita às diligências efectuadas por membros do Governo, com vista a detectar os tripulantes do "Angoche". Diligências não muito claras a avaliar pelo teor dos documentos que publicámos, em especial o emitido após a Conferência de Lusaca. Até que Vasco Gonçalves surge na cena política. 

Em Fevereiro de 1975 os familiares dos tripulantes do navio levam a efeito uma manifestação junto ao palácio de São Bento, insistindo em que uma delegação sua se avistasse como Primeiro-ministro Vasco Gonçalves. Este recusa-se a recebê-los. 

Algum tempo depois é empossada a Comissão de Inquérito para o caso "Angoche", com a seguinte constituição: Paiva de Andrade (oficial da Marinha de Guerra); Comandante Bessa (oficial da Marinha Mercante); António Fernandes Matos (Polícia Judiciária); Salgadinho (escrivão do Tribunal); dr. Grainha Durval (Ministério dos Negócios Estrangeiros); Jorge (delegado dos familiares). Desta comissão apenas há a dizer que nasceu já morta. Pouco tempo depois de ter tomado posse já a sua composição tinha sido alterada: Paiva de Andrade foi substituído pelo oficial da Marinha de Guerra, Rogério Guerra. Das investigações nunca se soube nada de concreto. Com o decorrer do tempo a comissão desapareceu sem deixar qualquer rasto. 

"Aquela comissão foi a maior das vergonhas. Andaram a brincar connosco", disse-nos Alda Sardo. A dita comissão, aliás, embora estivesse prometida desde Fevereiro, só tomou posse após a data da independência de Moçambique. Para o Governo não existia pressa. Tudo se fazia muito calmamente. Como se de um caso de pura rotina se tratasse. 


UM FUTURO POUCO CLARO 

Entretanto, o almirante Pinheiro de Azevedo promete reestruturar a Comissão de Inquérito. O que, efectivamente nunca veio a acontecer com carácter definitivo. 

"A V Divisão chegou a enviar a capa do processo, dizendo que era a única coisa que tinham sobre o "Angoche". E disseram isso quando eu já tinha visto o processo", continua Alda Sardo. 

E sucediam-se os Governos. Sem que nada se aclarasse. O próprio dr. Mário Soares se recusou, ultimamente, a recebê-los, prometendo contudo que uma nova Comissão de Inquérito começará a funcionar dentro de poucos dias. 

"Lembro-me de, ainda estava em Lourenço Marques, ter sabido da existência de telefonemas para a CNN ameaçando um assalto ao navio tal como veio a acontecer. Depois do "Angoche" as ameaças repetiam-se em relação ao "Chinde", cujo comandante se recusou a zarpar de Lourenço Marques." 

Do navio "Angoche" sabe-se ser, para alguns, assunto encerrado. Para outros, algo que quase não começou. 

Para a sogra do comandante ("fui eu quem recebeu a notícia, sozinha em casa") nada foi ainda feito. Tal como para a maioria dos familiares. 

Para nós, fica-nos a incerteza do futuro dos tripulantes e dos que, em Portugal, os aguardam. 

Laconicamente, uma mensagem captada por um navio na data do assalto:

 "OPERAÇÃO ANGOCHE O.K. RÁDIO-TELEGRAFISTA MORTO.". 

H.G. 

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