segunda-feira, 16 de março de 2015

Rússia. Dia 9 de Maio começa oficialmente a Guerra Fria do século XXI - Pag 1 de 3 | iOnline

Putin
convidou os líderes da China, Irão, Egipto, Coreia do Norte, Venezuela,
Turquia e Grécia para assistirem ao 70.º aniversário do fim da II
Guerra Mundial. O Ocidente fica de fora, com a NATO dividida
Por António Ribeiro Ferreira, Jornal i
publicado em 14 Mar 2015 - 18:00


O
divórcio oficial entre a Rússia e os seus aliados, por um lado, e o
bloco ocidental, por outro, vai acontecer em Moscovo, no dia 9 de Maio.
As comemorações do 70.º aniversário do fim da II Guerra Mundial marcarão
o princípio de uma nova ordem mundial. Ao lado de Putin estarão o
presidente da China, Xi Jinping; do Irão, Ali Khamenei; do Egipto,
marechal Sisi; da Coreia do Norte, Kim Jong-un; da Venezuela, Nicolás
Maduro; da Turquia, Erdogan; e da Grécia, Tsipras, entre outros líderes
de países, como a Bielorrússia, que sempre estiveram ao lado de Moscovo
nos bons e maus momentos. Obama, Merkel, Hollande, Cameron e tantos
outros vão ficar de fora, com a NATOa ver dois dos seus membros ao lado
de Putin. A Guerra Fria do século XXI vai, assim, começar oficialmente,
muito embora as relações entre o Leste e Oeste nunca tenham sido felizes
e muito menos amistosas.

As humilhações russas Basicamente, a paz durou pouco tempo e só
existiu verdadeiramente na última década do século XX, com a Rússia de
gatas depois do fim da Guerra Fria e da queda do império soviético e da
Cortina de Ferro. Com Boris Ieltsin ao leme, Moscovo viveu tempos
difíceis e teve de sofrer várias humilhações de um Ocidente arrogante
com a vitória alcançada. A mais grave aconteceu em 1999, quando a NATO,
leia-se os Estados Unidos, declarou guerra à Sérvia por causa da
ocupação do Kosovo. Belgrado era então o único aliado de Moscovo nos
Balcãs e umas semanas de bombardeamentos chegaram para pôr fim ao regime
pró-Rússia de Milosevic. A Rússia engoliu a humilhação e Boris Ieltsin
passou os comandos do Kremlin ao desconhecido Vladimir Putin. Iludidos
com o novo líder, os vencedores ocidentais voltaram ao ataque e levaram a
Geórgia a tentar recuperar a Ossétia do Sul e a Abecásia. O conflito
começou em Agosto de 2008, quando tropas da Geórgia avançaram,
decididas, para a Abecásia. Tudo acabou em Outubro. Putin, já líder
incontestado da Rússia, enviou as suas tropas e obrigou os georgianos a
recuar de forma desordenada. Só então o Ocidente percebeu que tudo era
diferente e que a velha Rússia estava de volta.

Ofensiva da NATO Mas antes da ofensiva da Geórgia, a NATO e os
Estados Unidos avançaram decididos para leste e integraram em 2004, na
Aliança Atlântica, os três países bálticos – Estónia, Letónia e Lituânia
– e a Polónia. A Rússia ficava com quatro países integrantes do velho
inimigo junto à sua fronteira.

Ucrânia, o espaço vital Agora, em 2014, 14 anos depois da chegada de
Putin ao poder, nova ofensiva ocidental, desta vez na sensível Ucrânia,
velha relíquia da Rússia dos czares e da União Soviética, que só
conheceu a independência em 1991. Evidentemente que a Ucrânia sempre foi
uma região disputada por russos e alemães. Hitler definiu-a como o
espaço vital alemão e Estaline via-a exactamente da mesma maneira. Em
2014 surgiu a oportunidade, há muito esperada pelo Ocidente, para pôr o
pé na Ucrânia. E foi assim que, a reboque da Alemanha de Merkel, a União
Europeia tentou o presidente pró-russo Yanukovitch a assinar um acordo
de parceria muito aplaudido pelos ucranianos do Oeste. Putin chamou
Yanukovitch a Moscovo e obrigou-o a assinar uma parceria com a Rússia.

Os protestos na Praça Maidan, em Kiev, subiram de tom, alimentados
por forças nacionalistas e fascistas. O massacre de dezenas de
manifestante em Fevereiro, crime que ainda hoje não está esclarecido,
fez cair Yanukovitch.

Na madrugada de 23 de Fevereiro, Putin tomou duas decisões: salvar o
seu aliado ucraniano e trazer a Crimeia de volta à Rússia. E decidiu
também criar uma zona de segurança junto à fronteira com a Ucrânia, que
sonha agora integrar a NATO. Com a Crimeia anexada e as regiões de
Donetsk e Lugansk controladas, Putin garante o acesso ao mar Negro e ao
oceano Atlântico e protege a sua fronteira dos avanços da NATO.

A aliança com a China A posição russa face ao Ocidente é, nesta fase
do conflito, defensiva. Moscovo quer uma nova ordem na Europa, com novos
acordos sobre segurança e armas convencionais, e responde à ofensiva
ocidental com alianças estratégicas que podem alterar rapidamente as
relações de força no mundo. A mais importante é com Pequim. Não é apenas
uma parceria energética; é uma aliança militar e política em que os
dois países estão juntos em todos os teatros internacionais. Mas se
Moscovo se voltou para a Ásia, também não esqueceu o Médio Oriente. Além
do Irão e da Síria, a Rússia voltou a ter no Cairo um amigo.

O mundo está a mudar. E a Guerra Fria está de volta.

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