transcrito do blog 'Estado Sentido' este texto de Nuno Castelo Branco
Recordo-me como se hoje fosse, de ver entrar no porto de Lourenço Marques, os grandes petroleiros que desobedecendo ao embargo imposto pela ONU e muitos dos nossos aliados oficiais - EUA, Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega, por exemplo -, vinham reabastecer os depósitos de crude da refinaria da Sonarep (1) na Matola. As chaminés ostentavam invariavelmente as cores persas e o leão coroado, símbolo do velho império de Ciro que sobrevivera a invasões, períodos de ocaso e de ameaça de colonização.
Recordo-me como se hoje fosse, de ver entrar no porto de Lourenço Marques, os grandes petroleiros que desobedecendo ao embargo imposto pela ONU e muitos dos nossos aliados oficiais - EUA, Holanda, Suécia, Dinamarca, Noruega, por exemplo -, vinham reabastecer os depósitos de crude da refinaria da Sonarep (1) na Matola. As chaminés ostentavam invariavelmente as cores persas e o leão coroado, símbolo do velho império de Ciro que sobrevivera a invasões, períodos de ocaso e de ameaça de colonização.
O Xá Mohamed Reza Pahlevi foi um homem esclarecido e tendo convivido com algumas gerações de políticos de renome mundial, conhecia bem a importância da presença portuguesa em África, procedendo em conformidade com as mais estritas regras da diplomacia internacional. A voz do Irão na ONU, nem sempre condizia com os factos da normal e dura realidade material das coisas. Nele, Portugal sempre teve um amigo. Tornando-se imperador em 1941 por imposição dos Aliados, Reza Pahlevi teve de se conformar com a invasão e ocupação do seu país por russos e ingleses (2), conscientes da importância estratégica do Irão e da imperiosa necessidade de controle das jazidas petrolíferas do Golfo Pérsico. Na Conferência de Teerão, um arrogante Winston Churchill dizia-lhe que ..."pode Vossa Majestade chamar Irão ao seu país, que para mim, que não me atemorizo, será sempre a Pérsia"...
A Guerra Fria e os episódios decorrentes do início do desmembramento dos Impérios coloniais no Médio Oriente, tornou o Irão num essencial peão em disputa pelos blocos, mas tendo o Xá uma formação solidamente enraizada na cultura ocidental, os EUA e os seus aliados puderam estreitar as relações com Teerão que surgia como o elo essencial que contrariava a tendência de infiltração sovíetica que se plasmava já no Cairo nasserista e na instabilidade síria e jordana.
No plano interno, Reza Pahlevi procedeu a importantíssimas reformas que apenas hoje são devidamente consideradas como fundamentais a qualquer sociedade moderna. O direito de voto e de profissão às mulheres, a escolaridade obrigatória e laica para todos, uma vasta reforma agrária feita com o património dos bens da Coroa, a criação de Academias, universidades e a abertura do país a manifestações artísticas livres das peias do rígido cânone há séculos imposto pelos mullahs, transformaram rapidamente a sociedade. Em Teerão as mulheres vestiam-se desinibidamente à ocidental, frequentavam o cinema, as piscinas, o ginásio e finalmente ingressavam no mercado do trabalho, ombro a ombro com os homens, até então senhores absolutos da ordem social. A coroação de Farah Diba, episódio ímpar na milenar história iraniana, simbolizava a igualdade da mulher aos olhos da Lei, um inequívoco sinal emancipador que profundamente desagradou ao clero. O nível de alfabetização cresceu exponencialmente e o Estado criou bolsas de estudos no estrangeiro, contribuindo para a aproximação de uma ampla camada de estudantes ao conhecimento das novas tecnologias vitais ao desenvolvimento do país. Por Teerão passavam as mais conceituadas companhias de ópera e de ballet, testemunhando uma abertura sem precedentes ao exterior.
As receitas do petróleo permitiram a rápida transformação do Irão naquilo a que a imprensa ocidental chamava de policia do Golfo, região profundamente desestabilizada pelas constantes guerras que desde 1947 opunham Israel e os seus vizinhos árabes, a maior parte destes sob forte influência russa. O exército do Xá era moderno, numeroso e bem armado, sendo um intransponível obstáculo aos aventureiros que se iam sucedendo em Damasco ou Bagdade e tranquilizando a Europa e a América com um constante afluxo de ouro negro que propiciou o boom económico das décadas de 50, 60 e 70. Mas o progressivo desejo de autonomia do regime do Xá em relação à estratégia de Washington e do aliado israelita, seria afinal a principal causa da sua queda. Muitos há que argumentam com o papel desempenhado por uma fortemente repressiva Savak, uma policia política incomparavelmente menos interventiva e mortífera que as suas congéneres nos países vizinhos, URSS incluída. Explica-se assim a revolução de 1979, com argumentos de ordem interna, mas quando o Xá decidiu controlar efectivamente a produção de crude iraniano e em consequência impôs preços lesivos dos lucros auferidos pelas grandes empresas petrolíferas americanas e inglesas, selou o seu destino. A teoria da conspiração surge com nítidos contornos multinacionais, quando os interesses franceses conduziram Paris a uma escandalosa protecção à subversão a partir do território da França, onde Khomeini fora recebido como exilado político. As veleidades de independência total da pesada presença americana, custar-lhe-iam o trono e impor-lhe-iam o caminho do exílio.
Aos iranianos, essa traição consumada pela nefasta administração Carter, impeliria milhões para o turbilhão sanguinário do komeinismo, com o seu trágico cortejo de guerras santas, esmagamento da condição feminina, estilhaçar do sistema educativo, genocídio, atraso económico e inimaginável corrupção. Para o mundo, a queda do Xá significou um marco orientador para novos e conturbados tempos, onde o direito internacional e das gentes pouco vale, calcado pelos pés dos loucos iluminados por um enigmático, impiedoso, vingativo mas discutível deus.
Reza Pahlevi foi um dos grandes homens do século. A História far-lhe-á justiça.
(1) A antecessora da actual Galp
(2) No seguimento dos acontecimentos de Bagdade e da consequente deposição de Rachid Ali, russos e ingleses forçaram a abdicação de Reza I, pai de Mohamed, obrigando-o a exilar-se na África do Sul. Apontavam-se-lhe sentimentos pró-germânicos, mas a veridade da situação apontava para uma realidade bastante diferente: o velho fundador da dinastia Pahlevi, não mostrava grande interesse na submissão que os Aliados desejavam e à qual se habituaram durante o Império dos Qadjar. Churchill e Estaline julgaram mal a personalidade do jovem sucessor Mohamed Reza, que desde cedo mostrou as suas capacidades de intervenção e de resistência.

Sem comentários:
Enviar um comentário