quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Manoel Cordo Boullosa (1905-2000)

Natural de Lisboa, onde nasceu a 5 de Dezembro de 1905, quarto filho de Manoel Cordo Martins e Leocadia Boullosa, um casal galego que se dedicava ao comércio de vinho e carvão, veio a falecer no passado dia 6 de Abril, na Quinta dos Pesos, onde residia, em Caparide, São João de Estoril. Órfão de mãe com apenas um ano de idade, partiu, por essa razão, para a Galiza, onde foi entregue aos cuidados de sua tia Amalia. Efectuou a instrução primária em Pontevedra, numa escola que actualmente ostenta o seu nome, tendo regressado a Lisboa aos nove anos, após ter completados os primeiros estudos. 

Aos dezasseis anos, após ter concluído o curso comercial, Manoel Boullosa começou a trabalhar com o pai, auxiliando-o no negócio da venda de carvão. Dois anos mais tarde adoeceu gravemente, com uma tuberculose. Em Portugal as possibilidades de tratamento eram muito reduzidas, tendo por isso o pai decidido enviá-lo para um sanatório na Suíça. Uma resolução tomada com grande sacrifício, uma vez que para tal se viu obrigado a vender três prédios de que dispunha em Lisboa, adquiridos no decurso de uma vida de intenso labor, a fim de custear os dispendiosos tratamentos. No entanto, a estadia na Suíça foi amplamente benéfica para o jovem Manoel. Conseguiu curar-se da terrível enfermidade, conheceu a sua primeira mulher e abriram-se-lhe as portas para o negócio do petróleo, por intermédio de Pedro Bessa Pais, filho do malogrado presidente da República Sidónio Pais, o qual lhe apresentou o irmão António, que naquela época era concessionário da Shell. 

Uma vez regressado a Lisboa, resolveu aproveitar os conhecimentos contraídos na Suíça, reconvertendo o negócio paterno das carvoarias, e dedicando-se ao fornecimento de combustíveis para automóveis, tendo fundado, alguns anos depois (em 1933), a Sociedade Nacional de Petróleos (Sonap). Estavam lançadas as bases de uma bem sucedida carreira empresarial na área dos combustíveis, que incluiu investimentos importantes em Moçambique ­onde foi proprietário da refinaria Sonarep, construida na década de O60­ e na África do Sul ­onde instalou uma distribuidora de comnbustíveis­, tendo ainda realizado uma forte aposta no Complexo Industrial de Sines, do qual foi um dos grandes mentores, mas de que nunca chegou a ver os resultados em virtude da sua posterior nacionalização. No entanto, nunca deixou de acompanhar a situação no mercado petrolífero, e só já após ter completado noventa anos de idade admitiu abrandar o seu ritmo de vida. 


Uma das principais características pessoais de Manoel Boullosa residia numa lúcida visão estratégica ­bem planteada pela sua opção, na década de ¹20, pelo investimento no sector dos combustíveis­, que o acompanhou até ao fim da vida. Embora tivesse sido um dos mais destacados empresários antes do 25 de Abril, e mantido um bom relacionamento com o poder de então, a sua alma galega aconselhava-o a conservar uma prudente independência política, tendo chegado a afirmar que "um empresário não cede a pressões". Não foi portanto surpreendente a sua participação como accionista do "Expresso" quando este semanário foi fundado em 1972, e do qual possuía 10% do capital, uma atitude que não foi bem vista pelo Governo de Marcelo Caetano, que já não tinha apreciado o facto de Boullosa ter contratado Mário Soares para assessor jurídico da Banque Franco-Portugaise, quando aquele se encontrava exiliado em Paris. Do mesmo modo, assumiu claramente as suas responsabilidades sociais, ainda antes do 25 de Abril, devendo-se-lhe a fixação de um salário mínimo na indústria petrolífera, a instituição de um sistema de apoio médico-hospitalar, e a disponibilização de linhas de financiamento para aquisição de casa própria para os trabalhadores das suas empresas. 

Muito frio e lúcido nos negócios, era considerado um negociador subtil e determinado. Considerava que "o segredo do negócio estava na racionalidade da gestão e no corte das despesas supérfluas". Nutria um grande amor pelos livros, bem traduzido no seu envolvimento na Bertrand, e por isso mesmo sentiu um grande desgosto quando se viu afastado da mesma, em resultado de um conturbado processo. Cultivava igualmente o gosto pela pintura e a escultura, tendo ao longo da sua vida constituidídouma apreciável colecção de obras de arte. Foi un verdadeiro self-made-man, que começou a vender carvão nas ruas de Lisboa e alcançou o estatuto de rei do petróleo, tendo matido sempre uma grande discrição, sem nunca sucumbir às tentações da ostentação social. 

Além da faceta empresarial, era um dos sócios mais antigos do Belenenses tendo participado activamente na vida do clube. Sócio número 336, com mais de 50 anos de filiação, foi presidente da Assembleia Geral do Clube de 1971 a 1975, e era desde há longos anos presidente do Conselho Geral. Manoel Boullosa teve sempre presentes as suas origens galegas, contribuindo por diversas formas para auxiliar os naturais daquela região. Em 1989 ofereceu à Xuventude de Galicia, uma associação sediada em Lisboa, as instalações que actualmente ocupa no Campo de Santana, precisamente a antiga sede do Crédito Predial Português, de que foi accionista maioritário. A sua dedicação à Galiza foi reconhecida pelo respectivo Governo regional, que em Junho de 1991 o agraciou com a Medalha Castelao. 

Por diversas vezes foi-lhe oferecida a nacionalidade espanhola, tendo contudo optado sempre por se manter fiel ao seu país natal. No entanto, quando Oliveira Salazar lhe perguntou um dia porque é que nunca tinha encarado aquela possibilidade, respondeu: "Não é verdade. Quando a Galiza for um país independente, pensarei no assunto." Talvez por isso nunha tenha deixado de usar a inconfundível boina galega. 


Por José M. Lopes Cordeiro

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