segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um conto do 'paraíso perdido' - Malhangalene, anos 60/70



O Paraíso perdido - Uma singela homenagem a Moçambique


- Zé, ficas aqui na Pensão da Dona Cidália, que é da nossa aldeia lá de Trás-os-Montes, e é muito nossa amiga…

- Claro, Sr. Luís, o rapaz fica aqui muito bem, somos praticamente da mesma família…

Anoitecia calmamente naquele pacato bairro da Malhangalene, o horizonte  pintado  de  vermelho,  nem  uma  brisa  de  ar  naquele Outono de 1970… no ar, o aroma da terra seca e do capim que por ali havia nas bordas dos canteiros e dos quintais daquelas vivendas e prédios de dois andares que faziam o bairro parecer um pouco como as ruas de uma qualquer vila de Portugal.

Dois meses antes eu tinha voado pela primeira vez para regressar a Moçambique, após três anos em Portugal onde tinha feito o ciclo preparatório na Escola Industrial de Vila Real. A excitação de reencontrar a minha terra e os meus pais era enorme. Por muito que gostasse dos meus avós lá da aldeia, Moçambique era algo diferente... era outro mundo, e foi com enorme satisfação que voltei a sentir o chamamento da terra africana, que me corria nas veias… Moçambique tem um encanto especial nas suas gentes naturais misturadas com as gentes da Índia, da China, de Portugal, as influências árabes… o aroma das especiarias a espreitar a cada esquina, o cheiro da terra num dia de verão após uma trovoada…

Dias antes tínhamos viajado do Alto Changane onde os meus pais viviam, um local isolado no tempo e no espaço, mas belo, muito belo, e que tinha dois nomes, como muitas das localidades moçambicanas do  império  português;  ali  era  a  Vila  Gomes  da Costa,  com  direito  a  monumento  identificador  e  tudo,  mas  a verdade é que nem o Chefe de Posto lhe chamava assim. Para todos, era o Alto Changane, e pronto. Alto, porque o local é um mini planalto, Changane porque o rio escondido por ali passa... um rio que não se vê, mas quando aparece, no tempo das cheias, tem 15km de largura…
Mal cheguei, fiquei de imediato agarrado àquele lugar, e após tantos anos e tantas revoluções, ainda guardo no meu coração como um dos lugares do passado onde fui muito feliz. Ali cresci e me fiz homem, entre as idas e vindas de Lourenço Marques, onde estudava na Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque.
Se a cativante cidade de cimento e acácias em flor era tudo excitação, mistério e novidade, no mato era o retorno ao sossego e ao total relaxamento, só possíveis em terras africanas. Tudo se passava em ritmo lento, os dias eram enormes mas nada chatos, “stress” era ainda uma palavra desconhecida por aqueles lugares. Era a minha África, a minha verdadeira natureza.


O Alto Changane era uma terra muito próspera naqueles tempos, para brancos e pretos. Não faltava nada a ninguém.
Tinha uma maternidade e um posto médico onde o enfermeiro Xavier era o rei e senhor, talvez por se saber que era um activista da Frelimo,  e   a   verdade   é   que   a   PIDE   nunca   o   importunou directamente; o filho Zacarias era da minha idade e meu amigo, e estudava também num  dos  liceus em  Lourenço Marques, tendo mais tarde naturalmente ingressado nas hostes da Frelimo para se tornar num dos seus quadros.

A missão cristã, chefiada pelo Padre Cristóvão, fazia tudo para dar educação ocidental aos nativos e ao mesmo tempo implorava aos portugueses residentes que fossem à missa de domingo. Independentemente das opções religiosas, as missões desempenharam um papel educador, ensinando a ler e escrever a gerações de nativos.

O posto de recrutamento para as minas de ouro da África do Sul ficava à entrada da vila, de quem vem do Chibuto, e era ali que os homens  nativos  se  inscreviam  para  emigrarem  na  procura  da riqueza e da glória.

O posto de pecuária onde o meu pai exercia as funções de técnico especialista e fiscal de caça, era ponto obrigatório de passagem dos machambeiros portugueses e nativos para obtenção de serviços de vacinação, tratamento e licenciamento do gado que naquelas regiões se contavam pelas largas dezenas de milhares de cabeças de animais de carne.

Havia as casas estilo colonial, de apenas um andar, grandes, com varandas cobertas por trepadeiras floridas, grandes sótãos com caixas-de-ar  que  protegiam  do  calor,  enormes  quintais  onde cresciam animais de capoeira cobiçados pelos milhafres que faziam voos rasantes sobre as suas vitimas, as enormes mangueiras que davam belas sombras para a sesta da tarde, as papaeiras e os limoeiros, os ananases que pareciam cactos, os cactos de sisal, o poço de água equipado com bombas manuais de enormes volantes que era um gozo manobrar para se tirar água, as cozinhas em anexo, os quartos anexos dos mainatos, as fossas subterrâneas que tinham de vez em quando de ser abertas e limpas, e à frente os belos jardins, com sebes e arbustos florais, cuidados pelas donas de casa e pelo jardineiro local contratado.

Como dizia, nada faltava por aquelas paragens. E depois havia a parte principal da vida de qualquer sociedade. As cantinas!!!
A cantina era o ponto de encontro social de brancos e pretos. Ali éramos todos iguais. Aliás, a política do império e o ensino oficial diziam-nos  isso  mesmo.  Somos  todos  iguais.  Talvez  por  isso mesmo, na cantina aplicava-se a mesma regra a todos. Quem ali entrava, bebia e dava a beber aos outros, sob pena de ser colocado de lado se tal não fizesse.
Ali se confraternizava entre patrão e empregado, entre branco e preto. Ali se gastavam os tostões ganhos a muito custo. Ali os “camones” vindos das minas de ouro Africa do Sul deixavam ficar a sua magra fortuna, antes de voltarem a casa onde as suas mulheres os esperavam na esperança de uma vida melhor.
Ali se compravam os mais belos tecidos e capulanas de todo o mundo. Ali se tiravam fotos de passe e de família, a preto e branco pois claro, em laboratórios artesanais. Ali se consertavam as bicicletas, os camiões, os machibombos e os jipes.
Ali se faziam espectáculos nocturnos com as estrelas locais, por vezes com grandes batucadas que duravam a noite toda. Ali se faziam engates de boas tombazanas que lá iam à procura de amor e dinheiro, e quem sabe, de uma vida melhor ao lado de um qualquer companheiro perdido.
À boa maneira africana, quem mais podia mais mulheres tinha. Cada mulher adicional significava mais encargos sociais, já que cada uma tinha que ter a sua casa para si e seus filhos.
Seguindo a cultura do país visitado, o machambeiro português não se fazia rogado e espalhava a sua prole montando casa no mato a uma segunda mulher.
Ironias à parte, nós éramos verdadeiramente universalistas e integradores. Outros povos colonizadores ou cooperantes, dependendo da época em que intervieram em África, nunca se misturaram com os povos locais, numa clara mostra de falta de respeito pelo país acolhedor. Hoje percebe-se melhor o papel de Portugal na criação de uma cultura universal integradora de todos os povos.
Mais do que manter independências a todo o custo, com nacionalismos exacerbados, há que fomentar o espírito universalista de cooperação real de entreajuda entre as nações. Afinal vivemos todos no mesmo planeta, e somos da mesma espécie. É de certeza mais fácil e proveitoso gastar energias e dinheiro na construção de sociedades globais de bem-estar, que continuar na via dos instintos primários de fazer a guerra a tudo aquilo que seja diferente da nossa aldeiazinha…

O posto administrativo exercia o poder político, jurídico e de defesa civil por aquelas bandas, encarnado pelo seu chefe de posto que tinha poder quase absoluto. Era assim no tempo do império. Eu vi passar por lá três chefes de posto. Dois brancos de Portugal e um preto de Cabo Verde. Todos portugueses à época. Todos eles com a mesma postura neutra e de rigor.
As coisas funcionavam, nem sempre bem, mas a ligação entre o poder do império e o poder local, representado pelos Régulos e chefes tribais, era o ponto chave do equilíbrio e estabilidade social necessários para todos poderem viver e dormir sossegados, numa terra que chegava e sobrava para todos.
Ninguém morria de fome. Havia muitos pobres e poucos ricos, onde a maioria dos pobres estava do lado dos nativos. A verdade é que havia pobres também entre os brancos, que vinham das aldeias pobres de Portugal directamente para trabalhar nas cantinas e machambas exploradas pelos portugueses. Esta gente era tão ou mais explorada que os nativos locais.

Mas também era verdade que o império não abandonava os seus, fossem pretos, amarelos ou  brancos. Vivia-se na paz  e  respeito pelos costumes de cada um. É preciso viver em Africa para se perceber a filosofia de vida das gentes. Viver e deixar viver. Viver um dia de cada vez. Amanhã logo se vê.

- Zé, pronto, eu vou andando, que tenho ainda 300Km para fazer de volta ao Alto Changane. É hora de jantar, vai comer, que eu vou-me embora. Escreve, ok? Precisas de alguma coisa?
- Não pai, fico bem… sabe, há um filme a correr no Scala, da segunda guerra mundial, o Tora-Tora, eu gostava de ir ver no domingo…
- Está bem, toma lá 100 escudos, não gastes tudo de uma vez, olha que não temos dinheiro para extravagâncias, nós não somos ricos!

Era assim, naquele tempo. A maioria dos portugueses não andava a nadar em dinheiro. Eram pessoas emigradas à procura de uma vida melhor. Apenas isso.
Só que Africa guarda um mistério, indecifrável, que agarra quem lá cai. É assim. Vamos lá por um motivo, vamos ficando por outro diferente.

Senti-me um pouco perdido naquele primeiro dia em Lourenço Marques, naquela pensão da Malhangalene. A comida era a dar para o  fraco. Reparei pela primeira vez  nos outros comensais. Eram todos homens, uns velhos para mim que tinha apenas 13 anitos, e senti-me ainda mais isolado.
As conversas eram escassas, nada animadas, com referências a Portugal e à guerra. Percebi que se referiam à guerra contra os terroristas, lá no norte, em Moeda. A coisa estava quente por lá. Eu

conhecia alguns daqueles lugares porque foi lá que passei a minha meninice, em Nampula e arredores. Estava habituado a ouvir as rajadas e os morteiros ao longe, durante as noites quentes das planícies no sopé das montanhas de Cabo Delgado.
Percebi então que aquela era uma pensão de hóspedes muito especiais. Eram militares em comissão de serviço, uns veteranos em gozo de férias na capital, outros em trânsito para o norte, vindos de Portugal. As conversas alternavam entre a guerra contra os ”turras”, a guerra do Vietname no noticiário das sete no Rádio Clube de Moçambique, as zaragatas entre comandos, fuzileiros e policia de choque na Rua Araújo, os engates das tombazanas nas “lagoas”, e por aí adiante.
A pouco e pouco, comecei a ficar bastante interessado nestes novos amigos. Os quartos tinham duas e três camas cada, pelo que fui tendo parceiros de quarto que duravam no máximo um mê cada. Todos me tratavam bem, e uma vez até me queriam levar aos bares e “dancing clubs” da Rua Araújo, local de passagem obrigatória a qualquer  homem  que  se  preze.  De  mais  a  mais,  para  alguns daqueles militares podia muito bem ser a sua última diversão. A morte nunca era falada, mas estava sempre presente.
Habituei-me a ver entrar e sair daqueles quartos de pensão toda a espécie de indivíduos. Aprendi com eles a não me ligar demasiado a ninguém. Viver e deixar viver. Nada é demasiado importante. O tempo presente é para ser vivido da melhor maneira.
As amizades eram por isso de pouca dura. Havia excepções, como o Ferreira, que trabalhava numa companhia de seguros, e um ou outro funcionário que não tinham mulher e por isso não montavam casa e faziam da pensão a sua residência permanente.

Comi a refeição que me foi colocada á frente por uma preta gigantesca que fazia o papel de cozinheira e de empregada de mesa. A Suzy só falava inglês, e tinha sido trazida da Africa do Sul pela Dona Cidália. A Suzy e a Dona Cidália eram amigas. Entre elas havia mais do que simples relação de empregador e empregada.
- Suzy, “Come iá”!
- “Yes, Madam”!
- “Serve dinner to this young boy”.
- “Ya, right way!”
E assim era a conversa num inglês macarrónico misturado de Africanse, a língua dos Boers e primeira língua da Africa do Sul naqueles tempos do poder branco.
A Suzy era muito popular naquelas paragens. Numa pensão cheia de homens, ela tinha um namorado diferente todas as noites a bater- lhe à porta do quarto independente a que tinha direito, por força da sua  posição  na  hierarquia  organizativa  da  pensão.  De  vez  em quando lá andava a Suzy a fungar, enquanto tratava das panelas. Se

não era de amores, era de dinheiros. Enfim, a Suzy era demasiado boazinha, coitada. Mas animava a malta que passava por aquelas bandas. E isso era uma virtude que ninguém lhe podia negar.

Primeiro dia de aulas!
A Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque ocupava um quarteirão inteiro, entre a 24 de Julho e a Afonso de Albuquerque, delimitada pela Augusto Castilho, mesmo em frente ao Cortiço.
Eu palmilhava diariamente o caminho desde a pensão na Malhangalene até à Escola, pela Augusto Castilho adiante, e assim poupava uns tostões em transportes públicos, além de ser muito mais interessante o caminho.
Na Augusto Castilho havia um pequeno bar com mesas de matraquilhos, que eram uma das nossas diversões, sendo que essa zona deu depois lugar à construção de um enorme prédio de habitação onde eu, anos mais tarde e já depois da Independência ter ditado que aquela rua se passava a chamar Vladimir Lenine, vim a ter a minha última morada antes do retorno a Portugal.
O Cortiço era o nosso ponto de encontro fora da escola, sendo um café restaurante que até tinha no primeiro andar uns sofás onde a malta podia estar mais à vontade. Passávamos os nossos tempos livres nesta esquina da 24 de Julho, quer na esplanada cá fora, quer lá dentro nas mesas do rés do chão a comer umas tostas mistas e um galão, ou então um belo bife com todos, quando o dinheiro chegava para tanto. E claro, fumava-se até mais não. Ali se discutia de tudo, e se preparavam os testes e exames, com sôfregas leituras de última hora das matérias mal estudadas. E ali se namoricava também. Apesar de as aulas naquela época não serem mistas, a Escola era-o, havendo até Cursos específicos para as raparigas, como a Formação Feminina. Depois havia os cursos frequentados por rapazes e raparigas como os de Pintura ou Química.

Mas os cursos mais representativos da Escola eram os de Electricidade, Mecânica ou Carpintaria… estes eram aqueles que caracterizavam melhor a Escola, não desfazendo os restantes. Aqui frequentavam o melhor e o pior dos alunos e professores. Quando os jornais locais comentavam a má educação dos alunos preguiçosamente encostados aos muros da Escola do lado da 24 de Julho, era tudo verdade. Nós conseguíamos ser do piorio. Gozávamos que nem uns perdidos as velhinhas, metíamo-nos com as beldades que passavam em frente, enfim, éramos regularmente chamados ao director para ser repreendidos.
Não havia contudo racismo aparente nos nossos comportamentos. Até porque metade da turma eram pretos e mestiços, e todos formávamos um bloco, qual “gang” de bairro.

Uma vez fomos longe demais. Ao lado havia uma outra Escola de missionários, onde os alunos eram pretos. Nós tínhamos o hábito de usar o campo desportivo deles quando o nosso estava ocupado por outras equipas. Numa das vezes em que estávamos calmamente a usufruir do campo desportivo alheio, fomos grosseiramente interrompidos com uma invasão de campo dos alunos dessa escola. Considerámo-nos altamente lesados, e após uma rápida troca de galhardetes, passámos aos actos. Para azar de todos, numa terra onde quase não há pedras, estava no passeio em frente um carregamento de brita para umas obras… era demasiado tentador para não ser aproveitado, pelo que houve umas quantas cabeças rachadas, incluindo a dos próprios padres, antes de a policia de choque entrar em cena.
Também gozávamos as nossas investidas pelo Liceu Dona Ana e pela Escola Comercial, para ir regalar as vistas sobre as miúdas, correndo algum risco com este tipo de invasão de território, ao provocar os colegas e namorados de circunstância presentes.
Era por isso razoável ter de aturar algumas acções e ira de alguns professores mais irascíveis e  fundamentalistas, que naturalmente nos tentavam corrigir, ainda que sem grande sucesso no imediato. Os efeitos do ensino só se fazem sentir a prazo. Cada coisa no seu tempo. Nós éramos jovens, queríamos diversão e rebeldia total. Uns selvagens, portanto.

Mas na verdade normalmente o ambiente era calmo e a vida corria ordeiramente naquela Escola, para bem de todos.
Para além das aulas, tínhamos a Mocidade Portuguesa, onde podíamos descarregar as nossas energias em actividades variadas, e tudo à borla! Sim, porque os meninos e meninas ricos iam para o Liceu Salazar e afins, enquanto o pessoal de trabalho ia para a Escola Industrial ou a Comercial. Tínhamos actividades de tiro, de escutismo, de esgrima, de Karting, de aeromodelismo (o meu preferido), e até fazíamos Rádio!
E depois organizávamos as nossas verbenas, com muita cerveja, comes e bebes, e acima de tudo muita e boa música, com conjuntos formados muitas vezes com elementos da Escola, onde havia uma viola baixo, uma viola solo e uma viola ritmo, para além da bateria, e se tocavam os êxitos do momento, havendo particular gozo nas interpretações de compositores mais “underground” e menos bem aceites socialmente na época, como os Uriah Heep ou Jimmy Hendrix.

No meio do frenesim da primeira aula, onde os caloiros procuravam saber da sala de aulas, lá fui eu ajudado pelo meu amigo Jorge Albuquerque, então já um veterano da Escola, na localização da minha primeira lição na nossa famosa Escola Industrial. Não me

esqueço do som das campainhas de chamada, das carteiras de madeira inclinadas, sofridas dos muitos anos a suportar alunos que se entretinham durante as aulas a fazer gravações a canivete e a tinta permanente de sábias tiradas de vernáculo rimado e até, imagine-se, cábulas de fórmulas mais difíceis de memorizar, dos quadros de loisa preta, dos pedaços de giz coloridos, e do apontador usado pelos “S’tores” e “S’toras” que nos deram muito daquilo que hoje somos.
A excitação dos primeiros dias, a descoberta de novos amigos com novas ideias, as histórias fantásticas à volta de alguns professores cuja fama era lendária, os intervalos onde corríamos esfomeados para o bar a fim de nos atirarmos às arrufadas e ao chocoleite que eram para nós manjares de deuses, os grupos de rapazes que se formavam no recreio maior a espiar as miúdas lá nos varandins do primeiro andar da secção feminina, as formações espontâneas de rapazes que se entretinham com o desporto radical do “aqui vai alho!” e que consistia sumariamente em formar uma fila de gajos de pé dobrados uns sobre as costas dos outros, com outras filas de gajos que saltavam para cima deles a fim de formar camadas… simplesmente hilariante! Tão hilariante como estúpido, mas era assim que nós mostrávamos a nossa masculinidade.
Depois, vinham as famosas festas do caloiro, onde éramos basicamente humilhados pelos mais velhos, sendo que a praxe mais popular consistia em rapar o cabelo ao desgraçado… numa época do “flower power” onde o uso e cabelo comprido era de rigor em qualquer jovem, aquilo era simplesmente ultrajante. Portanto, tentávamos por todos os meios fugir dos veteranos, passando a viver na clandestinidade durante aquele período da semana do caloiro. Eu consegui safar-me, fruto da minha agilidade e rapidez de pernas…é que eu tinha sido campeão regional de 100 e 200 metros livres na minha anterior Escola Industrial de Vila Real!

E assim gastávamos as nossas energias de jovens adolescentes. E
aos poucos fomos assentando e ganhando algum juízo e sabedoria.

Naquela Escola construíam-se coisas. Não éramos apenas teóricos. Ali aprendíamos a trabalhar o ferro, a madeira, a domar o electrão e as valências atómicas, criando riqueza ao aprender a construir objectos que a Sociedade pudesse usar.

Naquela  Escola  se  formaram  gerações  de  pessoas,  bons profissionais, muito graças aos esforços de todos os professores, e todos deram muito a Portugal e a Moçambique.

Foi uma época gloriosa.
Os tempos mudaram, mas os Homens e Mulheres são os mesmos.

Que este espírito  nunca acabe.  Moçambique merece  o melhor.

3 comentários:

  1. Boas, amigo Paulo Oliveira,

    Obrigado pela publicação do meu artigo "O Paraíso perdido - Uma singela homenagem a Moçambique", originalmente publicado por mim no extinto site da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque do Mario Antunes, também ilustre colega naquela instituição de ensino de Moçambique do antes da independencia.

    A única coisa que falta mesmo é a anotação do autor do artigo.
    Aqui fica o reparo.
    O artigo ainda se encontra publicado em outros locais, nomeadamente aqui:
    https://www.yumpu.com/pt/document/view/12887915/paraiso-perdido-por-jose-mesquita-escola-industrial-mouzinho-de-

    Forte Abraço do amigo,
    Jose Mesquita
    ex-aluno da EIMA - Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque



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  2. Eu sou o José Mesquita e este texto é de minha exclusiva autoria.
    Foi publicado inicialmente no portal da Escola Industrial Mouzinho de Albuquerque.

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  3. Um bom texto, que me levou de Volta ao que era dantes com muita claridade. Obrigada! :-)

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