domingo, 28 de julho de 2013

Os carros eléctricos de Lourenço Marques - os 'xigurugurus'




As fotos que nos chegaram até hoje dos tramways de Lourenço Marques - felizmente em número considerável, o que nos ilustra razoavelmente bem a sua passagem pela cidade - mostram-nos, na sua maior parte, na baixa da cidade: entre a Pç. Azeredo, o terminus principal, e a Avenida 5 de Outubro, esta no topo norte da Avenida Aguiar.
Outras, mais esparsas, mostram principalmente as instalações fixas (carris e fio aéreo) pelo restante da cidade; aqui as imagens dos tramways são em muito menor número, principalmente para o seu lado ocidental.


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Apesar de, em 1891, a Câmara Municipal aprovar a concessão de transportes urbanos por meio de vapor ou electricidade, podendo utilizar também a tracção animal, tal realidade não é concretizada e só em 1900 é que surgem acções no sentido de dotar Lourenço Marques de uma rede de transportes públicos movidos a eletricidade - à semelhança do que já existe no Porto e se instala em Lisboa, em Johannesburg, e noutras cidades evoluídas pelo mundo afora.

De facto, Lourenço Marques passa, nestes anos, por uma grande evolução - depois de ser elevada a vila em 1876, apenas se conserva nesse estatuto por 11 anos: em 10 de novembro de 1887 é elevada à condição de cidade e em 1898 passa a capital da Província de Moçambique. E em 1895 tem ligações ferroviárias regulares com a União Sul-Africana, aumentando o tráfego do seu já movimentado Porto, entretanto já um dos principais da África Austral. A cidade expande-se para norte e noroeste e apenas existem transportes privados e de características individuais: o rickshaw, por exemplo.

Depois de um processo algo sinuoso e muito pouco transparente, é apenas em 1903 que se realizam os trabalhos de assentamento de via (métrica), instalação da rede aérea (550V CC), construção da Estação Geradora de Energia Elétrica (875kW, a qual passa também a abastecer o Porto e os Caminhos de Ferro), etc., sob a égide da recém-criada, em Londres, The Delagoa Bay Development Corporation Limited. No final desse ano são feitas as primeiras experiências com os carros. Estes são fabricados também em Inglaterra, por G. F. Milnes e, à semelhança de outras encomendas feitas para redes de países com forte influência britânica, são construídos com dois andares, sendo o superior descoberto e destinados aos passageiros africanos e asiáticos. Porém, não há registos escritos desta configuração ter sido usada em Lourenço Marques.

A inauguração do sistema ocorre em 15 de Fevereiro de 1904 - e o serviço regular de passageiros começa às 7h00 da manhã do dia seguinte. Neste dia são vendidos 7000 bilhetes nos 5 carros que circulam ininterruptamente durante todo o dia, até à meia-noite. «Apesar do enorme movimento na cidade baixa, principalmente à noite e de todos se quererem aproveitar dos carros onde à tarde se tornava difícil o ingresso, não houve o mais pequeno incidente, sendo para louvar o serviço do pessoal que o dirige.», escreve o jornal local O Futuro na sua edição de 20 de Fevereiro.

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